sexta-feira, 30 de junho de 2017

A relação entre os 7 vícios capitais, os 7 pedidos do Pai-Nosso e os 7 dons do Espírito Santo

[aleteia]


Uma reflexão medieval profundamente inspirada sobre 3 dos 5 septenários do Tesouro da Igreja!



Hugo de São Vítor, famoso mestre medieval, deixou-nos esplêndidos comentários e sermões, além da sua célebre obra “Didascalion”. Um dos seus vários opúsculos trata dos Cinco Septenários que haveria no tesouro da Igreja:

  1. os sete pedidos do Pai-Nosso;
  2. os sete vícios capitais;
  3. os sete dons do Espírito Santo;
  4. as sete virtudes;
  5. as sete Bem-Aventuranças.
Poeticamente – porque esse excelente autor medieval sempre fala com poesia –, ele nos explica que os sete vícios capitais são comparáveis aos sete rios da Babilônia, que espalham todo o mal, gota a gota, por toda a terra, já que deles defluem todos os pecados. Por isso, lembra ele, a Escritura nos diz:
“Junto aos rios da Babilônia nós nos assentamos e choramos, lembrando-nos de ti, ó Sião” (Sl CXXXVI, 1).
Hugo de São Vítor coloca os vícios capitais em certa ordem lógica, a fim de relacioná-los com os sete pedidos do Pai-Nosso. Assim ele ordena os vícios capitais: soberba, inveja, ira, preguiça ou tristeza, avareza, gula e luxúria.

1 – Soberba versus “Santificado seja o vosso nome” e o dom do Temor de Deus

O primeiro vício capital, causa primeira de todos os nossos males espirituais, é a soberba. Por esse vício atribuímos a nós mesmos, ao nosso próprio ser, a causa do bem existente em nós. Pela soberba deixamos de reconhecer a Deus como Fonte de todo o bem. Ao fazer isso, o homem deixa de amar o Bem em si mesmo para amar o bem enquanto existe nele próprio, porque existe nele. Dessa forma, o homem rompe a sua união com a Fonte do bem.
Condenando a maldade do orgulho, exclama o mestre:
“Ó peste de orgulho, que fazes tu aí? Por que persuadir o riacho a separar-se de sua fonte? Por que persuadir o raio de luz a romper sua ligação com o Sol? Por que, senão para que o riacho, cessando de ser alimentado pela fonte, seque, e o raio de luz, cortada a sua união com o Sol, se converta em treva? Por que, senão para que assim ambos, no mesmo instante em que cessam de receber o que ainda não têm, percam imediatamente aquilo mesmo que já têm?”
E assim é que o homem soberbo, arvorando-se como causa do bem que Deus lhe deu graciosamente, atribui-se uma honra que só cabe a seu Criador. O soberbo rouba a glória de Deus e, fazendo isso, desencadeia sobre si todos os males. A soberba, portanto, nos despoja do próprio Deus.
Por isso, a primeira petição do Pai-Nosso suplica que Deus nos conceda a graça de reconhecê-Lo sempre como a fonte de todo o bem: “Pai nosso, que estais no céu, santificado seja o vosso nome”. Isto é: que Deus seja glorificado como causa de todo bem existente em nós e em todas as suas criaturas.
O riacho deve ser grato à fonte que o alimenta. O raio de luz deve reconhecer o Sol como causa de seu brilho. Só assim continuarão a correr e a iluminar.
Na primeira petição da oração que nos foi ensinada pela própria Sabedoria encarnada, rogamos que Deus nos conceda a compreensão e o reconhecimento da Sua excelência e transcendência, e que assim, por meio do dom do Temor de Deus Altíssimo, sejamos humildes e curemos a enfermidade do nosso orgulho.
O orgulho é em nós uma doença grave que gera sempre outros males e enfermidades. Ele nos faz amar o bem que Deus nos concedeu como se fosse nosso, produzido, em nós, por nós mesmos. É o orgulho que faz o riacho julgar-se fonte e o raio de luz julgar-se o Sol.

2 – Inveja versus “Venha a nós o vosso Reino” e o dom da Piedade

Quando o homem se deixa dominar pela soberba, ele passa a amar o bem que recebeu não porque é bem, mas só porque é seu. E, quando vê o mesmo bem existindo em outro homem, não o ama como bem, mas o detesta porque está em outro. Ele quereria que aquele bem não existisse no outro, porque julga que aquele bem só deveria existir nele mesmo, falsa fonte do bem. Vendo o bem, que julgava ser seu, em outro homem, o orgulhoso fica então triste e amargo.
Tal tristeza amarga se chama inveja, e é a segunda doença que acomete o homem, o segundo vício capital.
A soberba gera sempre a inveja do bem que Deus concedeu a outrem. Desse modo, ela nos separa e despoja de nossos irmãos, assim como a soberba nos despojara e separara de Deus, nosso Criador. E isso é bem justo, porque, assim como o soberbo se regalara desregradamente com a doçura de possuir o bem, agora ele se amargura ao ver o bem no outro.
Quanto mais o homem soberbo se vangloria de seu bem, mais ele se atormenta com o bem nos outros. A inveja rói o soberbo e torna amarga a sua vida.
Se o homem soberbo amasse corretamente o bem que lhe foi dado em grau limitado, ele amaria sem limite a Fonte de todo o bem, que o possui infinitamente. Amando então o Bem em si mesmo, ele amaria o bem que visse em qualquer outro homem e se alegraria com a virtude alheia, porque amaria Deus no outro.
Foi para combater este segundo vício capital que o Divino mestre nos ensinou a pedir, em segundo lugar no Pai-Nosso, “Venha a nós o vosso reino”.
Porque o Reino de Deus é a salvação dos homens; porque Deus reina num homem quando este lhe está unido pela fé e pela caridade, a fim de que, na eternidade, esteja para sempre unido a Deus pela visão beatífica.
Quando pedimos a Deus que Ele reine em todas as almas, Ele nos concede o dom da Piedade, que nos torna benignos, desejando também para os outros o bem que desejamos para nós mesmos.
A inveja, por sua vez, gera em nós uma nova doença. Tal como a soberba nos persuadira de que somos a causa do bem que temos, e a inveja nos causa a tristeza de ver o bem nos outros, em seguida a inveja nos leva a considerar que Deus é injusto ao dar o bem – que pretendíamos fosse apenas nosso – a nosso irmão.

3 – Ira ou cólera versus “Seja feita a vossa vontade, assim na terra como no céu” e o dom da Ciência

Consideramos então que o Criador reparte mal os Seus bens, e que nos fez injustiça. Por isso, caímos em cólera contra Ele. A ira é então a filha da inveja. Ela nos leva a revoltar-nos contra Deus como justo distribuidor dos bens.
A soberba despoja o homem de Deus. A inveja o separa e despoja dos demais homens. A cólera o despoja de si mesmo, fazendo-o perder o controle e o domínio do próprio ser. Porque o colérico tem raiva de Deus, a quem acusa de repartir injustamente os Seus bens, e se enraivece contra si mesmo, porque vê que não possui todo o bem e percebe seus defeitos e limitações.
A cólera leva então o homem a ter raiva de Deus, dos outros e, enfim, de si mesmo. Com raiva de si mesmo, o homem, doente pelo vício da cólera, começa a detestar até o bem que tem em si.
Por todas estas razões é que Nosso Senhor colocou como terceira petição do Pai-Nosso “Seja feita a vossa vontade, assim na terra como no céu”.
É a conformação com a vontade de Deus que nos permite vencer o vício da cólera. Quando pedimos sinceramente a Deus, no Pai-Nosso, que nos conformemos com a Sua Santíssima Vontade, Ele nos concede então o dom da Ciência, através do qual somos instruídos e compreendemos que os males que nos advêm são decorrências da justiça e de um castigo misericordioso de nossos pecados. Compreendemos que devemos aceitá-los com paciência e não com revolta. E compreendemos ainda que os bens alheios são fruto da generosa misericórdia e justiça de Deus, a qual visa sempre a Sua maior glória e também o nosso maior bem.
O colérico, no entanto, não tendo o dom da Ciência, não reconhece que mereceu o castigo que sofre – e se revolta. Já quem tem o dom da Ciência tudo suporta e é consolado.
Caindo nesta terceira enfermidade, a da cólera, o homem já não possui, em si, nenhum motivo de alegria nem de consolação. Como não quis tirar do bem alheio a alegria, o invejoso caiu na tristeza e no autossuplício da cólera, que o flagela depois que foi despojado de Deus, do próximo e de si mesmo.

4 – Tristeza ou preguiça versus “O pão nosso de cada dia nos dai hoje” e o dom da Fortaleza

Não encontrando mais em si nem alegria nem consolação, o homem colérico cai na tristeza. Esse era o nome que os medievais davam à preguiça, porque o vício capital da preguiça leva a ter tristeza com o bem que recebeu de Deus, visto que esses bens nos trazem obrigações.
Os vícios capitais anteriores, como vimos, fazem o homem perder todo o amor ao bem que Deus lhe deu. Agora, dominado pela cólera, ele já não tem alegria nem no próprio bem, e este bem ainda lhe exige cumprimento de deveres, porque a quem muito foi dado, muito será pedido. Desconsolado e triste, o homem soberbo, invejoso e colérico lamenta as obrigações que trazem os bens que Deus lhe havia dado e tem pouca vontade de trabalhar na vinha de Cristo. É da cólera que nasce a preguiça ou tristeza. O colérico preferiria que Deus não lhe desse bem algum, para não ter mais obrigações. A tristeza ou preguiça ata o homem à coluna da inércia e o fustiga de tristeza.
Ora, o que nos dá força para trabalhar com alegria e incansavelmente na vinha do Senhor é o pão de cada dia. Por isso, para combater a falta de generosidade no serviço de Deus, Jesus nos faz pedir no Pai-Nosso: “O pão nosso de cada dia nos dai hoje”.
Isto é, que Deus nos conceda a graça e a força necessárias para cumprir os nossos deveres de cada dia. Que Deus nos dê Suas graças e força para cumprirmos os deveres que elas nos acarretam. E esta força de agir é que traz ao homem a alegria do dever cumprido.
Com “o pão nosso de cada dia” o que pedimos é o dom da Fortaleza, o qual nos dá força e paciência para enfrentar as dificuldades, trabalhos e cruzes da nossa vida de cada dia. É o dom da Fortaleza que produz em nossa alma a fome e a sede de justiça de que necessitamos para ir ao céu.
Na quarta petição, portanto, pedimos a fome de justiça e o pão que a sacia.
E que rio de maldade vai ser gerado pela preguiça ou tristeza?
Da tristeza nascerá a vontade de buscar consolação nos bens exteriores, porque aquele que não encontra bem ou alegria dentro de si procurará consolação fora de si.

5 – Avareza versus “Perdoai as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores” e o dom do Conselho

Da preguiça virá, então, a avareza, a cobiça desmesurada de bens materiais. Quem não tem fome e sede de justiça terá fome e sede de ouro, e fará da fortuna a sua justiça. E à ausência de consolação e de alegria interiores se somará a inquietude pela aquisição e pela conservação dos bens materiais, que só trazem falta de paz, inquietação, apreensão de males e perturbação de espírito.
A sede de bens materiais somente cresce com a posse deles, e jamais o homem estará saciado pela riqueza. A riqueza é uma água que faz crescer sempre mais a sede por ela.
Para combater essa miséria e essa quinta doença – tão baixa – da alma, Cristo nos mandou que pedíssemos, em quinto lugar: “Perdoai as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores”.
Pois é bem justo que quem não é avarento no que lhe é devido não seja também inquietado pelo que deve. O misericordioso com os seus devedores alcançará misericórdia para si. E quando pedimos a Deus o perdão de nossas dívidas, no mesmo grau em que estamos dispostos a perdoar o que se nos deve, o que pedimos e recebemos é o dom do Conselho.
Por esse dom do Espírito Santo sabemos e temos força para exercer de bom coração a misericórdia para com quem nos ofende, e do modo mais conveniente, e na hora oportuna, para lhes fazer o bem em troca do mal que nos deram.

6 – Gula versus “Não nos deixeis cair em tentação” e o dom da Inteligência ou Entendimento

Do rio vicioso da avareza, caso ele não seja vencido em nós pela ação da graça, nascerá um rio mais lamacento ainda, que é o rio da gula. E é lógico que, buscando os bens inferiores, o homem seduzido pelas riquezas – nelas não encontrando verdadeira consolação, mas só ainda maior inquietação – procure então num bem inferior, que está nele mesmo, aquilo que os bens inferiores externos não lhe puderam dar.
Ele busca então o prazer dos sentidos, e, em primeiro lugar, o prazer do comer, visto que todo homem, precisando alimentar-se, necessariamente tem que ser tentado pela gula.
Esse vício seduz o homem e o reduz a um nível inferior ao dos animais. Aquele homem, pois, que quis se igualar a Deus colocando-se orgulhosamente como causa do próprio bem, cai agora abaixo dos animais, que só comem o que lhes é necessário.
Para combater este sexto e tão baixo mal, Cristo nos ensina a pedir na oração dominical: “Não nos deixeis cair em tentação”.
Note-se que não se pede não ter a tentação da gula. Visto que é necessário que o homem coma, todo homem estará exposto à tentação do comer desregradamente. A gula explora o apetite natural de subsistência, levando-nos ao excesso. A pretexto de necessidade, a gula nos induz a comer irracionalmente.
Por isso, para combatê-la, pedimos a Deus, na sexta petição do Pai-Nosso, que nos conceda o dom da Inteligência. Porque é o apetite da palavra de Deus que contém o homem na justa medida do apetite do pão material, já que “nem só de pão vive o homem”. Mas só entende isso quem tem o espírito de Inteligência, que faz compreender a superioridade dos bens espirituais sobre os materiais, fazendo o homem vencer a gula pelo jejum e abstinência, e a avareza acumuladora pela confiança na Providência.
É o espírito de Inteligência que clarifica a visão interior do homem pelo conhecimento da Palavra de Deus, que age como um colírio no olho da sabedoria.

7 – Luxúria versus “Livrai-nos do mal” e o dom da Sabedoria

Seduzido pelo rio lamacento da gula, o homem pecador é arrastado ao pântano final, onde fica atolado, sujo e preso: a luxúria escravizadora.
Quando o homem se entrega ao prazer da gula, a sua alma se torna débil e já não consegue dominar o ardor das paixões carnais. Caindo na luxúria, ele fica escravizado, porque nenhuma paixão tem maior poder de domínio sobre o homem do que a impureza. Escravo dos amores impuros, o homem jaz na servidão do demônio, da qual dificilmente se liberta, a não ser pela oração e penitência.
Este é o sétimo e fétido rio dos vícios da Babilônia, do qual, no Pai-Nosso, é pedida apropriadamente a libertação: “Livrai-nos do mal”.
É bem natural que o homem escravizado suspire e implore pela sua liberdade. E a sétima petição do Pai-Nosso nos implora de Deus Altíssimo o dom da Sabedoria, que torna o homem realmente livre.
Ora, a palavra sabedoria tem a mesma raiz de sabor. Movida pela graça e sentindo o sabor da Sabedoria, a alma se liberta da escravidão dos prazeres materiais e pode, enfim, alçar voo para contemplar a Deus.
Portanto, é a doçura interior e espiritual que dá ao homem a força de vencer a volúpia mentirosa dos sentidos.
Só então, na posse da Sabedoria e libertada dos vícios, a alma terá a paz de Cristo, que não é a paz deste mundo.
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Adaptado a partir de postagem do blog Modéstia Masculina
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