segunda-feira, 25 de julho de 2016

Um Papa como nunca houve. Um pouco protestante


O idílio entre Francisco e os seguidores de Lutero. O alarido de cardeais e bispos contra a “protestantização” da Igreja Católica. Mas, também a desconfiança de respeitáveis teólogos luteranos.
A reportagem é de Sandro Magister, publicada por Chiesa.it, 22-07-2016. A tradução é do Cepat.
Na alarmante carta que treze cardeais dos cinco continentes organizaram para entregar ao Papa Francisco, no início do último sínodo, eles o colocavam em guarda diante do perigo de também levar a Igreja Católica ao “colapso [experimentado pelas] Igrejas protestantes liberais na época moderna, acelerado por seu abandono de elementos chaves da fé e da prática cristã, em nome da adaptação pastoral”. Depois, in extremis, os treze cardeais eliminaram estas duas linhas da carta efetivamente colocada nas mãos do Papa. Contudo, hoje, eles as reescreveriam palavra por palavra, visto o idílio cada vez mais acentuado entre Francisco e os seguidores de Lutero.
No dia 31 de outubro, Jorge Mario Bergoglio voará até a Suécia (a Lund) e será recebido pelo bispo local para festejar, juntos com a Federação Luterana Mundial, os quinhentos anos da Reforma Protestante. Quanto mais esta data se aproxima, mais o Papa manifesta simpatia por esse grande herege.
Na última de suas coletivas de imprensa aéreas, ao voltar da Armênia, Francisco entrelaçou o elogio a Lutero. Disse que foi animado pelas melhores intenções e que sua reforma foi “um remédio para a Igreja”, sobrevoando por cima das divergências dogmáticas essenciais que, há cinco séculos, protestantes e católicos enfrentam, porque – são sempre suas palavras, desta vez pronunciadas no templo luterano de Roma – “a vida é maior que as explicações e interpretações”:
O ecumenismo de Francisco é feito deste modo. A primazia está nos gestos, nos abraços, em algum ato caritativo feito juntos. Os conflitos doutrinais, ainda que abismais, são deixados para as discussões dos teólogos, àqueles que de bom grado confinaria “em uma ilha deserta”, como gosta de dizer, embora muito em tom de brincadeira.
A prova até agora insuperável desta sua aproximação, durante a visita aos luteranos de Roma, no último 15 de novembro, foi a resposta que deu a uma protestante que lhe perguntou se podia receber a comunhão na Missa, junto com seu esposo católico. A resposta de Francisco foi uma fantasmagórica roda de fogos artificiais de sim, não, não sei, façam o que considerarem. Mas, não porque o Papa não soubesse o que dizer. A expressão “liquefeito” foi querida por ele. Foi sua maneira de voltar a colocar tudo em discussão, tornando tudo opinável e, como consequência, praticável.
Chegou pontualmente “La Civiltà Cattolica”, a revista dos jesuítas de Roma que agora é a palavra oficial da Casa Santa Marta, para confirmar que sim, que Francisco quis dar a entender precisamente isto: que também os protestantes podem receber a comunhão na Missa católica.
Bem disse o cardeal Gerhard L. Müller, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, que “nós, católicos, não temos nenhum motivo para festejar o dia 31 de outubro de 1517, ou seja, o começo da Reforma que levou à ruptura da cristandade ocidental”.
O Papa Francisco nem sequer o escuta e celebra sua festa, sem se importar que Müller – que foi justamente um dos treze cardeais que assinou essa memorável carta – a veja como outro passo para a “protestantização” da Igreja Católica.
Na realidade, um Lutero moderno não se afligiria com um Papa como Bergoglio. Já não mais indulgências, nem purgatório, que há cinco séculos foram a faísca que acendeu a ruptura. Ao contrário, uma superlativa exaltação da misericórdia divina, que lava de forma gratuita os pecados de todos.
Todavia, não se disse que o idílio tenha mudado a todos os protestantes. Na Itália, seu marco histórico é constituído pela minúscula, mas vivaz Igreja valdense. E seus dois mais insignes teólogos, Giorgio Tourn e Paolo Ricca - ambos da mesma geração de Bergoglio e ambos formados na escola do maior teólogo protestante do século XX, Karl Barth -, são muito críticos à derivação secularizadora experimentada tanto por sua Igreja, como pela Igreja do Papa Francisco.
“A enfermidade – disse Ricca em um recente debate entre os dois sobre a “Reforma” – é que todos nós nos voltamos para o social, algo sacrossanto, mas esgotamos o discurso cristão no social, e fora disso estamos mudos”.
E Tourn disse: “A política do Papa Bergoglio é colocar a caridade em ação. No entanto, é evidente que apenas o testemunho do amor fraterno não leva automaticamente a conhecer a Cristo. Não há hoje um silêncio de Deus, mas o silêncio nosso sobre Deus”.
No entanto, Francisco avança impávido e, há poucos dias, inclusive, nomeou um teólogo protestante amigo seu, Marcelo Figueroa, diretor da nova edição argentina de “L’Osservatore Romano”.
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