sexta-feira, 29 de julho de 2016

O Caminho, a Verdade e a Vida

[aleteia]
Por Rômulo Cyríaco

Cristianismo e Presença

 


Breve prólogo

Deus, Criador transcendente, revelou-se corporeamente na realidade sensível do homem, como Jesus Cristo, seu Filho Unigênito. Deus, que sempre estivera Presente, fez-se presente. Construiu, abriu e cruzou uma ponte (aliança) nova e eterna entre as dimensões divina e terrena, para salvar a humanidade. A ponte foi cruzada — a partir do Pai, pela presença do Filho — na unidade do Espírito Santo.
O Espírito Santo que concebeu o Filho na terra, no ventre da Virgem Maria, leva-nos também em sua unidade de volta ao Pai, através da revelação do Filho, que é o Caminho. O Espírito Santo, que concretizou a presença de Deus ao nosso lado, concretiza também a nossa presença ao lado de Deus.
Deus fez-se presente, sensivelmente, mas isso não quer dizer que os humanos já o estivessem, como poderíamos pensar: no pecado, estávamos e estamos adoecidos e ausentes. É como se estivéssemos aqui, mas não tanto quanto poderíamos. Nem para nós mesmos, nem para nosso próximo.
Em Cristo, presença sensível de Deus, recuperamos nossa própria realidade, espiritual e corpórea, ameaçada pelo pecado.
Cristo resgata nossa integridade e nosso vigor vital.

Conversão

Com o cristianismo aprendi, e continuo aprendendo, que o único meio possível e verdadeiro de se realizar como pessoa — de se realizar, isto é, de se tornar real — é a doação aos outros.
A doação de nós mesmos aos outros é o que nos realiza. É o que nos torna, mesmo, pessoas: antes disso, somos apenas indivíduos. É isso o que o cristianismo ensina, ou, mais do que ensina: revela.
Deus, que, pleno de poder e realidade, vive a se doar, como Amor, Razão e Graça, cujo poder está não em quanto tem e retém, mas em quanto dá e entrega do que É, fonte inesgotável e inabalável, pede a nós suas criaturas que façamos o mesmo: que saiamos da nossa contração e constrição e encontremos nossa realidade mais íntima e profunda fora de nós mesmos; nossa vida real, no cuidado e na atenção ao próximo.
Este é o sentido mesmo de nossa existência, a mensagem — inscrita em nós na aliança que Deus faz conosco ao nos criar — que somos chamados a entregar em vida. A vida é uma poderosa mensagem que nos é dada para entregarmos uns aos outros, cujo conteúdo essencial só se revela propriamente no ato da entrega: de nada adianta mantê-la no bolso, com apego, pois desse modo não será conhecida. Não podemos guardar essa mensagem: ela é a eterna Boa Nova, que não se pode conhecer sozinho, que exige a partilha, pois nunca pertenceu somente a nós mesmos, dada por Deus a todos nós.
Além de se tratar de um entendimento racional, isto é também algo que se comprova na experiência, com a graça da conversão: a doação de nós mesmos ao próximo nos realiza. E essa comprovação do entendimento na experiência evidencia a racionalidade da fé cristã.

Realização pessoal

As mais recentes gerações humanas cada vez mais buscam a realização “pessoal”: é o que buscam com mais sede e fome. A própria sociedade, e seus discursos mais tendenciais, empurra a todos nós nessa direção: realizem-se! — este é o maior e único objetivo; portanto, pede-se, nunca aceitem e parem nas escolhas e nos vínculos que ainda não levem a vocês a completa “realização”.
No entanto, justamente por essa mentalidade comprometer a capacidade humana de fazer escolhas e vínculos, bancá-los, apostar neles e responder a eles — em todas as “áreas” da vida, áreas cada vez mais compartimentadas — a sede e a fome só aumentam, e precipitam a espécie em um notável e disseminado estado de miséria espiritual e social.
Assim acontece porque tal busca é estimulada e se desloca no sentido mais equivocado possível: os indivíduos buscam a realização pessoal apenas em suas próprias pessoas, em si mesmos, na consideração incessante e absoluta dos seus desejos, critérios e interesses mais individuais como únicos valores e parâmetros para suas ações, reações e escolhas. Buscam a realização pessoal na aguda defesa solitária de seus desejos íntimos e apenas desses — não permitem mesmo que nada nem ninguém se coloque no caminho de “sua” realização. A realização é minha e no caminho dela ninguém se colocará! — tal é a postura que predomina.
Quanto mais se busca a realização dessa maneira, mais esta se distancia da pessoa, e o que surge no lugar e toma o indivíduo, esvaziando-o, é uma crescente frustração — a sensação incômoda de uma profundamente trágica irrealização de si. Um tornar-se irreal, que provoca um senso perturbador de desconexão do indivíduo com o mundo, com os lugares, com as coisas, com as pessoas e, logo, consigo mesmo. O indivíduo busca a si mesmo nas coisas e nas relações e, portanto, apenas encontra a si mesmo, porém vazio. Como não busca reconhecer e acolher o outro tal como é e se apresenta, não pode viver um ser-com o outro, muito menos ainda um ser-para o outro — não se vincula, e sem a vinculação não pode se preencher.
Mesmo em sua religiosidade, muitos indivíduos mantêm postura semelhante, que confirma em outra área de sua a vida a mentalidade mundana dominante: a religião ou a “espiritualidade” começam a aparecer como um outro meio de buscar a si mesmo, de conseguir respostas para seus objetivos pessoais, ou mesmo de receber, magicamente, a própria realização destes objetivos. Não se quer encontrar e amar a Deus, pois Deus, mesmo que nos dê o livre arbítrio, tem a Sua vontade sobre nós, que talvez não se iguale à nossa “própria”. Isto é, há uma “espiritualidade” propagada socialmente que está em total desacordo com o único verdadeiro e Santo Espírito, que já revelou e vem revelando suas leis a uma humanidade cega e surda.
Essas características mencionadas certamente não são exclusivas das gerações atuais e do que chamamos “mundo moderno”, mas marcam a história humana desde o Pecado Original, e talvez, apenas, ganhem formas sofisticadas em nossa sociedade contemporânea. Através dos tempos, a espécie humana se organiza e reorganiza socialmente para continuar evitando a realização da Verdade de formas mais “eficazes” e logo mais desastrosas. A sociedade tem sido, em nossa história, a regência global da não-vida; pois somente no reconhecimento do Criador, no dom recíproco e na comunhão das pessoas — evitados pelas estruturas e ideologias humanas mais diversas e até contrárias — pode a nossa vida se concretizar como vida verdadeira.
Como uma vida poderia ser verdadeira enquanto não olha para a Verdade de onde toda vida provém? Muitos homens discutem, distorcem e duvidam da realidade da existência de Deus, enquanto Deus é e permanece sendo a Rocha, Aquele que É. Nenhum homem jamais será tão Real quanto Deus. Deveriam discutir e duvidar da realidade de sua própria existência, os que resistem a Deus, o dono de toda Realidade. 

A originalidade cristã

Aí se encontra a espiritualidade cristã: esta que pelo Espírito Santo nos concretiza como seres verdadeiramente vivos, pois nos faz reencontrar, dentro e fora, a nossa realidade mais profunda e alerta, religando o nosso âmago à nossa presença; a nossa intimidade mais essencial à nossa “com-vivência” concreta com os irmãos em Deus.
A espiritualidade cristã faz o Espírito irrigar novamente nosso corpo, e então torna esse corpo mais presente, ancorado e enraizado — isto é, real, realizado — do que nunca antes pudera estar. E essa realização do corpo vivo, através do Espírito, concretiza-se somente na doação de nós mesmos ao outro. A doação é o movimento essencial da Verdade, o movimento no qual a Verdade, que é o Amor de Deus, é encontrada face a face.
Essa é a originalidade cristã: não é uma espiritualização que tornaria etérea a pessoa, elevada para uma dimensão não-corpórea do puro espírito, que negaria ou desfaria o corpo para uma experiência individual alheia ao encontro, desfocada da vida presente para focar no além. No cristianismo, o que é além (Deus, o Absoluto) fez-se, faz-se e está presente, aqui mesmo, e nos leva a fazer o mesmo ao reconhecê-Lo.
No ato mesmo da conversão, morremos para o mundo da arrogância humana — distraído para as necessidades originais e primordiais da vida — para ressuscitarmos em uma vida nova, tal como criada e alimentada por Deus para ser sempre nova. Ressuscitamos como criaturas que começam a aprender, pela graça, a dividir com o Criador a responsabilidade pela vida que nos dá, em uma nova postura de Amor.
A originalidade cristã está em que a própria conversão é um movimento de doar-se, de sair de si para reconhecer um Outro: reconheço-me criatura do Deus perfeito que se revelou corpórea e espiritualmente a mim. E, doando-me a Ele, pois sem Ele eu nada seria, reencontro a mim, e a tudo e a todos. Pela comunhão com seu Corpo, e pela presença do seu Espírito, acho-me presente no verdadeiro mundo — que eu antes desconhecia. Mundo criado e revelado somente por Ele, fonte de toda existência.
A conversão ao cristianismo nos reintroduz na presença que havíamos perdido há tanto. Saímos do mundo irreal em que a presença se tornou escassa, em que impera a ausência, para reencontrarmos mais frequentemente a verdadeira vida, conforme as gradações de nossa abertura ao Espírito, que pode nos realizar objetivamente e nos colocar diante do outro, no encontro pleno.
Quando os que se encontrarem estiverem presentes e vivos pela graça do Espírito, a doação recíproca será igualmente mútuo acolhimento. E portanto será uma doação-acolhimento ancorada na Verdade — em que, como fundamento, estará a doação de si ao Deus Criador, e o acolhimento íntimo e pessoal da Verdade revelada e inscrita essencialmente em cada um de nós. Original doação-acolhimento reconhecida como imagem dos encontros humanos e, então, jamais comprometida em prol de uma convivência artificial ou patológica, em que as emoções se escondem, ou se impõem violentamente, para resguardar qualquer aparência. A convivência humana se corrige e se concretiza na Verdade.
Nesse caminho — o caminho estreito que leva à vida — o movimento de se doar não será aquele hesitante, que aguarda primeiro o acolhimento humano para só então se iniciar, fazendo-se parcialmente, esperando também o reconhecimento do outro para se completar. O humano não está pronto para acolher e reconhecer, portanto, se há essa espera, a real disposição de doação nunca se concretizará. Ficaremos nos entreolhando, desconfiados, aguardando aquele momento seguro que, pelos padrões relacionais distorcidos da sociedade — o caminho amplo que leva à morte — nunca chega.
Melhor será confiar que a disposição de doação gerará a firmeza e a segurança de que precisamos, pois assim é com Deus, que ama e dá a vida sem cessar, mesmo quando rejeitado por sua criatura, e permanece sendo a Rocha. Fomos acolhidos e reconhecidos por Deus no ato mesmo da criação; se estamos enraizados na doçura do Espírito e na firmeza da Rocha, podemos nos doar à vida, à vontade.

A verdadeira Filosofia

Em nossa doação à vida e ao outro, não nos perdemos. Não desfazemos a nossa subjetividade para nos tornarmos um com o outro a quem nos doamos: ao contrário, encontramos a nossa verdadeira e mais completa subjetividade na objetividade da doação amorosa ao próximo.
Este dom de si ao outro, apenas ele, pode revelar a nós mesmos nosso próprio rosto. Na partilha direta do amor perene que vem de Deus, que é a Lei de Deus, encontramos nossa imagem na semelhança com Ele, e encontramos essa imagem e semelhança também em nossos irmãos e irmãs acolhidos.
Da mesma maneira, na própria conversão à fé cristã, a pessoa não desfaz a sua subjetividade para se tornar um com o seu Deus. Quando crê, a pessoa se encontra finalmente em sua máxima pessoalidade — como subjetividade plena em presença, ao se reconhecer objetivamente criatura, ajoelhada diante da Presença do Criador, a Santa Pessoa, que, ao revelar-se, revela também a nós mesmos em nossa irrepetível originalidade.
Portanto, na conversão, Deus nos dá a descobrir que a única forma possível e verdadeira de nos realizarmos como pessoas é a doação, primeiramente ao nosso Criador, e logo também aos nossos irmãos e irmãs em Deus.
Isto não é uma filosofia. Não é um ponto de vista, uma concepção de mundo, um sistema de pensamento entre outros. Se pudermos nomear isto uma filosofia, será porque se trata de um Saber, justamente. Mas não um saber acadêmico, formulado por homens com seus próprios parâmetros. É o Saber por excelência, que vem do Outro, a nós revelado de fora por Aquele que Sabe, o Único que Sabe. O cristianismo, como sabia São Justino Mártir, é a verdadeira Filosofia.
Jesus Cristo é o Logos de Deus. O cristianismo é então esse Saber que não nos é imposto de fora, por uma instituição qualquer — mas nos é Revelado de fora para ser imediatamente redescoberto de dentro. Quantas conversões se dão porque esse Saber começa a ser intuído e sentido de dentro, e então vem a se conectar poderosamente com a expressão Externa do mesmo Saber nas Leis que nos foram dadas tão claramente (e historicamente) por nosso próprio Deus!
Encontramos a nós mesmos, finalmente, nesse Saber que nos foi dado de fora como Lei por Deus, porque essas são as Leis divinas inscritas essencialmente em nosso mais profundo ser, em nosso núcleo vivo e espiritual, no sentido mesmo da nossa existência, tal como criada por Deus.
Aquele que dá a serem escritas as Leis, na revelação mosaica e na revelação cristã, havia inscrito estas mesmas Leis — as Leis do Amor — no âmago de toda a sua criação.

As surpresas que nos aguardam

A verdade contida no núcleo desse Saber que é o da própria Vida é esta: — Vida é doação.
Assim, uma vida que não se doa não encontra a si mesma e sobrevive, portanto, com uma sensação reverberante de mortificação e perda.
Daí que buscar apenas ter, tomar para si, levar a vantagem — ganhar, receber, acumular — jamais poderá resultar na realização de uma vida, de uma pessoa, mas apenas na perda crescente da vida e da pessoa.
Assim como não poderá preencher um ser humano de vida a consideração apenas dos próprios parâmetros para a satisfação incessante, unida à incapacidade de lidar com as falhas e tropeços, e de afirmar a riqueza dos vínculos mesmo nas frustrações. Se não soubermos acolher e aceitar a completa pessoalidade do outro em sua dignidade integral, que inclui os acertos e as falhas, as virtudes e os pecados,  a frustração só poderá aumentar. A verdadeira realização inclui a capacidade de acolher os outros nos vínculos mesmo na incompletude, e isso é o que completa os vínculos, e a satisfação provinda deles. Onde o outro falha, a ele eu darei — é a disposição que podemos assumir. Sem essa disposição, o indivíduo, não percebendo o erro que origina o vazio de suas experiências, pergunta a si mesmo: por que quanto mais eu busco, mais eu perco?
Na conversão à fé cristã, são dadas por Deus à pessoa — como a mim foram dadas, recentemente, inspirando a escrita destas palavras —  oportunidades concretas para descobrir que quando doamos nossa presença aos outros, realizamo-nos; e os outros também se realizam, no acolhimento. Quanto mais doamos de nós mesmos, mais recebemos, não no sentido material, como às vezes se entende a noção de “é dando que se recebe”, mas num sentido vital profundo e imediato. Ao darmos, estamos recebendo, pois ao doarmos presença viva conhecemos a perenidade da fonte. Então, nos sentimos — podemos nos sentir, finalmente — reais.
Tornamo-nos pessoas na doação de nossas pessoas. Não perdemos pedaços, mas justamente nos completamos, ganhamos na doação de nós mesmos ao outro os pedaços que nos faltavam e saímos mais íntegros, mais realizados.
A pessoa se realiza na doação de si: que doce surpresa, há tanto escondida de nós!
São doces e poderosos os mistérios de Cristo. 
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