quinta-feira, 7 de julho de 2016

Beatificação de 38 albaneses martirizados pelo comunismo

[abim]
Por Plinio Maria Solimeo


Uma alvissareira notícia nos chega de Roma: serão promulgados os decretos relativos ao martírio de 38 Servos de Deus albaneses, mortos pelos comunistas entre 1945 e 1974. Isso significa que fica aberto o caminho para uma beatificação desses heróis da fé.

Um pouco de história

A Albânia fazia parte das províncias romanas da Dalmácia, Macedônia e Moésia Superior. Mas foi dominada ao longo dos séculos por vários povos, até culminar, no século XIV, com a invasão muçulmana.
Monumento em homenagem a Skanderbeg na capital albanesa
Monumento em homenagem a Skanderbeg na capital albanesa

Nessa época levantou-se o valoroso Skanderbeg, que, de 1443 a 1467, em sucessivas batalhas, conseguiu libertar o território pátrio da tirania islamita. Com a morte desse grande guerreiro, os muçulmanos voltaram e dominaram todo o país. Muitos católicos fugiram então para outras regiões.
Entre estes estavam dois amigos, Giorgio e De Sclavis, que em despedida se dirigiram a um santuário de Nossa Senhora em Scutari, no qual se venerava uma milagrosa pintura da Santíssima Virgem.
Monumento em homenagem a Skanderbeg na capital albanesa

Quando rezavam fervorosamente diante da Mãe de Deus, sua santa imagem desprendeu-se da parede onde estava, e começou a flutuar em direção ao Mar Adriático. Os dois fiéis albaneses a seguiram, atravessando a pé enxuto o oceano, até atingir Roma [representação ao lado]. Souberam então que uma misteriosa representação da Virgem, vinda do céu, pousara num altar de uma igreja inacabada na cidade de Genazzano (Itália). Para lá foram eles, reconhecendo, assim que chegaram, a celeste Senhora de seu país. O afresco passou a ser conhecido pela famosa invocação de Nossa Senhora do Bom Conselho de Genazzano [Quadro abaixo].
Nossa Senhora de Genazzano

Os anos correram e, em 1912, a Albânia conseguiu mais uma vez sua independência. Mas sua história a partir de então foi uma sucessão de mudanças de regimes e de ocupações, até cair, em 1945, sob o poder dos comunistas. Uma garra de ferro dominou então esse sofrido país, declarado em 1967 pelos vermelhos “o primeiro Estado ateu do mundo”.
Como em todos os países em que o comunismo tomou o poder, uma de suas primeiras medidas foi executar uma drástica reforma agrária para desestabilizar a conservadora classe agrícola, forte obstáculo para seus desígnios.
“No dia 6 de fevereiro de 1967, o ditador [Enver Hoxha] deu início à ‘revolução cultural chinesa’. Tal revolução se estendeu, com idêntica intensidade e ferocidade, até os mais remotos rincões do país, especialmente contra a Igreja Católica. Cerraram-se todos os templos e mesquitas. [...] Esta terrível situação prosseguiu até 4 de novembro de 1990, dia em que, com a celebração de uma Santa Missa no cemitério católico de Shkodër [Scutari], teve início uma nova época para a religião e para a profissão da fé” [i].
Em 1991 os sem-Deus foram vencidos, mas conservaram poder suficiente para, juntamente com o Partido Socialista, eleger o atual Presidente da República. A Albânia tornou-se uma das nações com menor prática religiosa no mundo; os católicos constituem apenas 10% da população.

A satânica ocupação comunista

Tão logo os vermelhos tomaram o poder, começou a perseguição. No domingo, 25 de março de 1945, foram fuzilados dois padres seculares, Andrea Zadeja e Lazer Shantoja, e dois frades franciscanos, Lek Luli e Anton Harapi. O Pe. Shantoja foi brutalmente torturado, tendo os braços e as pernas quebrados, podendo se mover apenas apoiado nos cotovelos. Ficou num estado tão terrível, que sua própria mãe pediu aos seus algozes que acabassem de matá-lo[ii].
“A perseguição movida por essa falsa ideologia atingiu todos os crentes, clero, religiosos e leigos — jovens e velhos, de extrato social e cultural diferentes. Os crentes eram mortos selvagemente, humilhados em iníquos julgamentos públicos, acusados de supostas conspirações, tudo para eliminar o Santíssimo Nome de Deus da nação albanesa. Muitos corpos dos mortos foram também mutilados, enterrados sob o lixo, atirados aos cães, lançados em fossas comuns”[iii].
Um sobrevivente, o jesuíta Jan Gardin, descreveu em seu diário as torturas que presenciou durante sua prisão. Apesar do horror da descrição, vamos dá-la por inteiro, porque por ela se vê até aonde vai o ódio religioso — melhor dizendo —, infernal, dessa seita intrinsecamente perversa:
“A maior parte deles [dos condenados], recebia varadas nos pés descalços; a carne das pernas e das nádegas eram cortadas, inseriam sal grosso sob a pele, e então as coziam de novo; os pés eram colocados em água fervente até que a carne soltasse, e então eram esfregados com sal; os tendões de Aquiles eram feridos com fios incandescentes. [Alguns dos condenados] eram pendurados pelos braços por três dias, sem alimento; colocados em gelo e água gelada até quase congelar; eram-lhes aplicados choques elétricos nos ouvidos, nariz, boca e órgãos genitais; agulhas incandescentes sob as unhas; eram forçados a comer 1 quilo de sal, e a reter água durante 24 horas; ovos cozidos ainda quentes eram postos sob as axilas; os dentes eram-lhes arrancados sem anestésico; eram amarrados em carros e arrastados; deixados em celas solitárias sem comida ou água até quase morrer; forçados a beber a própria urina e a comer o próprio excremento; postos em buracos com excrementos até o pescoço; postos em camas de pregos e cobertos com material pesado; colocados em caixas cheias de pregos, que eram então rodadas rapidamente”[iv].
Muitos leigos foram torturados e alguns martirizados por não denunciarem os “crimes” do clero. Houve paróquias inteiras cujos fiéis pediram para serem presos no lugar de seus padres.
Não podendo dar aqui uma biografia de cada um dos 38 mártires, escolhemos a esmo a de alguns, por mostrarem a ferocidade com que os comunistas executavam esses servos de Deus.

“Sangue de mártires, semente de cristãos”

Nossa Senhora de Genazzano Quem encabeça a lista dos gloriosos mártires albaneses é D. Nikolle Vinçenc Prennushi, arcebispo de Dürres [foto ao lado], franciscano e Primaz da Albânia, sucedendo a D. Gasper Thacia, também mártir do comunismo. D. Vinçenc era um escritor de talento, sobretudo do folclore e de músicas tradicionais do país, escrevia poesias, e traduziu para sua língua os melhores poemas de outros autores europeus. Mas, sobretudo, era um verdadeiro pastor. Pelo que é chamado por alguns o Thomas Becket da Albânia.
D. Prennushi foi intimado pelo ditador comunista Enver Hoxha a separar-se de Roma e a fundar uma igreja nacional, como ocorreu na China comunista. O heróico prelado evidentemente recusou-se. Sob a alegação de que escondia armas em sua igreja, foi então encarcerado, torturado e depois friamente assassinado no dia 19 de março de 1949[v].
Quando começou a perseguição, o Pe. Nikoll Gazulli, da arquidiocese de Shkodra, fugiu. Mas, vítima de traição, foi preso quando voltou para administrar a extrema-unção a um paroquiano. Deram-lhe um tiro nas costas, que o feriu gravemente, mas não o matou. Então, como exemplo para todos, foi pendurado ainda vivo em frente à sua igreja, por vários dias, sem nenhuma assistência, até morrer.
O Pe. Serafin Koda exalou seu último suspiro com a laringe fora da garganta, enquanto o Pe. Papa Josif, sacerdote do rito bizantino católico, tendo caído exausto num pântano, foi nele sepultado vivo. Os padres Lekë Sirdani e Pjetër Çuni morreram criminosamente afogados numa fossa séptica.
O Pe. Anton Musaj tinha apenas 27 anos. Preso pelos comunistas, foi torturado de modo inumano, sendo-lhe quebrados as mãos e os pés. Os sem-Deus o mandaram agonizante para casa, onde ele faleceu alguns dias depois, em meio a terríveis sofrimentos.
D. Frano Gjini era bispo de Lezha. Preso em 1946 sob a alegação de ser espião do Vaticano e dos ingleses, foi torturado de maneira brutal, destripado e fuzilado no muro de um cemitério, em março de 1948[vi].
Nossa Senhora de GenazzanoA única mulher do grupo de mártires é Maria Tuci [foto ao lado], postulante das Pobres Filhas das Sagradas Chagas de São Francisco. Professora, ela ensinava o Catecismo às escondidas. Sua congregação foi dissolvida pelos comunistas, mas ela continuou a ensinar. Foi então detida e encarcerada, sob a alegação de que era cúmplice do assassinato do secretário do Partido Comunista local. Entre as torturas que sofreu, uma foi de ser colocada despida num saco onde fora colocado um gato raivoso; com golpes que os comunistas davam no saco, o gato, querendo fugir, feria violentamente a jovem. Ela resistiu heroicamente também à tentativa de estupro, pelo que foi torturada tão cruelmente, que teve de ser levada ao hospital. Algumas amigas que foram vê-la, dificilmente a reconheceram, pois estava desfigurada. Ela então disse: “Cumpriram-se em mim as palavras de Hilmi Seiti [um dos seus carrascos]: ‘eu te deixarei em um estado tal, que nem teus familiares te reconhecerão’”. Dois meses depois, em outubro de 1950, ela falecia em consequência dos ferimentos recebidos[vii].
         É esse regime intrinsecamente perverso, capaz das brutalidades diabólicas acima reproduzidas, que muitos querem implantar em nosso país. Peçamos a Nossa Senhora Aparecida, Rainha e Padroeira do Brasil, que o proteja das maquinações desses sem-Deus que, com nomes e disfarces diferentes, mas com a mesma ideologia, desejam para nós o regime comunista.
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[i] http://www.religionenlibertad.com/beatificacion-martires-albaneses-del-comunismo-50374.htm
Jorge Soley
Beatificación de 38 mártires albaneses del comunismo
[iii] http://www.ofm.org/ofm/?p=10676&lang=en
The Franciscan Martyrs of Albania
[iv] Id.
[v] Cfr. http://www.tempi.it/testimonianza-e-morte-di-monsignor-prennushi-il-thomas-becket-dalbania-martirizzato-dal-regime-comunista#.V2mF99IrLcs
Testimonianza e morte di monsignor Prennushi, il “Thomas Becket d’Albania” martirizzato dal regime comunista
[vi] https://books.google.com.br/books?id=pgf6GWJxuZgC&pg=PA172&lpg=PA172&dq=Bishop+Frano+Gjini&source=bl&ots=-Txv6DtwYG&sig=1qSSk6reurfdTWdjJhN-HWmDG1w&hl=en&sa=X&ved=0ahUKEwjsmfyHpbzNAhVBD5AKHc0_AkkQ6AEINzAE#v=onepage&q=Bishop%20Frano%20Gjini&f=false
[vii] http://www.santiebeati.it/dettaglio/94615
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