sábado, 2 de julho de 2016

A Cidade de Deus e a Cidade do Homem

[abim]
Pe. David Francisquini (*)


São Paulo Apóstolo [imagem acima] — na primeira Epístola aos Tessalonicenses — distingue no ser humano o corpo, a alma e o espírito, enquanto em outras epístolas ele se refere apenas ao corpo e à alma, como costuma ser apresentado o ser humano na filosofia aristotélico-tomista. Ao tomar a divisão do homem em três partes, o Apóstolo atendia com certeza à mentalidade e à concepção helenistas de então.
Por ser próvido, Deus protege o homem, dispensando-lhe graças e ajuda, porque a qualquer momento o mal pode se abater sobre ele, tanto na alma quanto no corpo. Com bondade de Pai, Ele fala no fundo de seus corações palavras de confiança e de serenidade, conforme escreve o Abbé Thomas de Saint-Laurent em seu Livro da Confiança:

“Voz de Cristo, voz misteriosa da graça que ressoais no silêncio dos corações, Vós murmurais no fundo das nossas consciências palavras de doçura e de paz. Às nossas misérias presentes repetis o conselho que o Mestre dava frequentemente durante a sua vida mortal: confiança, confiança”.
Convém ressaltar que em outra passagem das Sagradas Escrituras, Deus dá a entender que o germe de deterioração, como a cabeça de alfinete, pode aflorar com frequência nas regiões misteriosas do homem: “Porque a palavra de Deus é viva e eficaz e mais penetrante do que toda espada de dois gumes; chega até à separação da alma e do espírito, das junturas e das medulas, e discerne os pensamentos e intenções do coração. Não há nenhuma criatura invisível em Sua presença mas todas as coisas estão a nu e a descoberto, aos olhos daquele a quem falamos” (Hb. 4,12).
Deus, onisciente e sábio, desvenda os pensamentos humanos e penetra — para empregar a palavra dos Salmos — em seus próprios rins. Para discorrer sobre essas regiões insondáveis do homem, onde nascem as ideias e as resoluções, valemo-nos do velho Simeão ao se referir a Maria Santíssima: “E uma espada traspassará a tua alma, a fim de se descobrirem os pensamentos escondidos nos corações de muitos” (Lc. 2,35).
Confrontando os textos acima, ao utilizar a figura da espada que penetra até a medula ou junção da alma e do espírito, pode-se verificar a existência de uma região misteriosa na qual se originou sua imensa e profunda dor pela maldade dos homens. É aí que o processo revolucionário, pelos atrativos do mundo, não mede esforços para desordenar as paixões humanas.

Por sua grandeza e excelência, o homem aspira pelo maravilhoso, pelo esplendor e pelas harmonias dos conceitos denominados transcendentais unum, bonum, verum e pulchrum. A sua própria constituição ontológica tende para Deus e para tudo que espelha e reflete as perfeições divinas na criação. Tomemos o exemplo de uma criança inocente.
Ela gosta de ouvir contos de fadas, de princesas, de palácios e castelos, de se admirar com eles; idem em relação aos jardins, às flores e às fontes; ela propende a cavalgar o épico e o maravilhoso da vida. Para desviá-la dessas tendências, a Revolução cria desenhos animados monstruosos, brinquedos obscenos que são verdadeiros monstros, velocidades siderais para quebrá-la psicologicamente.
A criança torna-se agitada, nervosa e dominada por torcidas, perdendo assim as referências do respeito, do acatamento e da docilidade. Poder-se-iam acrescentar ainda as inúmeras alusões aos divertimentos eletrônicos, ao mundo virtual com experiências de novas sensações e cacofonias, que vão atuando nessas regiões profundas de sua alma, destemperando-a, desequilibrando-a para a vida.
As crianças assim deformadas rompem com a sua axiologia — isto é, com a ordem das coisas, que é naturalmente boa — e caminha rumo à negação de Deus. Este processo começa o mais das vezes em palavrões, violências e intemperanças de toda ordem. Isso se passa, voltamos a repetir, nas camadas mais profundas da alma.
A partir de então, o caminho para a ação preternatural, ou seja, diabólica, fica aberto para os inimigos de Deus através de uma nova forma no vestir-se, na maneira de se comportar e se expressar, no ver e julgar a realidade, resultando no rompimento do cristal da inocência que comprometerá o procedimento da pessoa.

Pelos novos hábitos, peca-se sem se dar conta de que se está distanciando da fé, de suas relações com Deus, com a Igreja, com o mundo criado no que ele tem de ordenado e deslumbrante. Perde-se também o equilíbrio na vida familiar, onde o pai representa o rei e a mãe, a rainha; quebra-se a harmonia no convívio e cada um vai se refugiar em seu próprio egoísmo.
Peca-se por não se viver segundo os ditames da fé e da prática da verdadeira caridade cristã, ao adotar valores de uma dita cultura que prestigia o orgulho e a sensualidade. Um exemplo: a Ideologia de Gênero que vem sendo imposta em todo o mundo, inclusive no Brasil. Todos esses males conduzem a pessoa a incorrer na presunção de conquistar o Céu sem nada fazer ou aprender para alcançar tão sublime benefício. E, ainda pior, leva a pessoa a cair no desespero da própria salvação eterna.
Trabalho árduo e meticuloso, levado a cabo pelos asseclas de Satanás no processo multissecular, iniciado com a decadência da Idade Média, período histórico mais próximo da Cidade de Deus. Os referidos asseclas de Satanás transformaram-na na Cidade do Homem, em cujos profundos abismos nós hoje nos encontramos.
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(*) Sacerdote da Igreja do Imaculado Coração de Maria – Cardoso Moreira (RJ)
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