quarta-feira, 22 de junho de 2016

Sobre a superstição da alegria

Por Fabrício Veliq*

Ela deve ser vista como característica do Espírito sobre o qual nos movemos e existimos.

 


Nós cristãos, na maioria das vezes, vivemos em certo paradoxo: ao mesmo tempo em que pregamos que, por meio de Cristo, temos uma nova vida plena e cheia de liberdade e real felicidade, ao mesmo tempo, não dificilmente, tememos a felicidade por vê-la como prenúncio de algo ruim. Por diversas vezes, pensamos: “mas, e todos aqueles que sofrem por causa do evangelho? Se não sou um deles, então não posso me sentir feliz e devo esperar que, brevemente, Deus mandará algo para provar minha fé e confiança Nele”.
Pensamentos assim não são difíceis de se encontrar nas diversas denominações que vemos por aí, surgindo a ideia de que a alegria não passa de um momento passageiro aqui na Terra. Nesse sentido, a ideia da alegria se transforma em mera superstição para quem pensa desse jeito, mesmo que ele não o perceba.

Querendo nós ou não, desde Agostinho, vivemos em um cristianismo que tem como modelo principal a negação do corpo e a negação dos prazeres que as sensações nos proporcionam. Diferentemente da visão bíblica em que a imagem humana de Deus era entendida como comunhão natural de todas as pessoas, trazendo um conceito social da Imagem de Deus (Moltmann), Agostinho pensava que a imagem de Deus em nós se encontrava na alma, de maneira que tem, em sua teologia, grande concentração no mistério de “Deus e a alma”. Em seu pensamento, no caminho para o conhecimento de Deus o homem se aprofunda cada vez mais sobre si mesmo, uma vez que olhando cada vez mais para si, alcançando cada vez a profundidade de sua alma, encontra a presença de Deus. Uma vez que tudo o que vem dos sentidos pode estar fundado sobre um engano desses sentidos sobre mim, o melhor que devo fazer para encontrar a Deus é voltar-se para mim mesmo.

Não é difícil perceber a grande influência que o pensamento de Agostinho teve sobre a mística Ocidental e seu caminho de “ascensão à Deus” como desenvolvido por diversos místicos como Teresa D´Ávila, Thomas Merton, Eckart, dentre outros místicos desse período, bem como sobre toda a teologia protestante, a começar por Lutero que era agostiniano. Embora as teses de Agostinho sejam extremamente valiosas para o desenvolvimento do cristianismo ocidental, não podemos deixar de apontar que a depreciação do corpo e o incentivo à sua mortificação que encontramos na teologia agostiniana também trouxeram questões complicadas para o Ocidente, tais como a que começamos esse texto.

Ao pensarmos que a vontade de Deus para nós seja o martírio, o sofrimento e a dor para o aperfeiçoamento de nossa alma, tendemos a esquecer a real consequência do sacrifício de Cristo que “nos transportou para o Reino do Filho do seu amor” (Cl 1,13), de maneira que somos livres para nos alegrarmos e vivermos em alegria.

Dessa forma, a alegria não deve ser condenada ou temida como um momento anterior à tribulação, mas deve ser vista como uma das características do Espírito sobre o qual nos movemos e existimos. Quando entendemos isso, o paradoxo do início do texto é mudado, passando a ser: “uma vez que fomos ressuscitados com Cristo, vivemos em alegria e paz, mas sofremos por ansiar que o Reino de Deus venha e se faça presente em sua plenitude. Enquanto aguardamos, em nossa alegria sofremos com o mundo e, com ela, contagiamos àqueles que estão perto de nós, mostrando que a dívida que havia contra a humanidade foi cancelada (Cl 2,14). Nossa alegria, por estar ancorada sobre aquele que “tem pensamentos de paz, e não de mal” para nossas vidas (Jr 29,11).

Com isso em mente, precisamos sempre nos lembrar que o evangelho é um convite à alegria que leva ao sofrimento e engajamento diante da tristeza do mundo para sua transformação e restauração, e não uma tristeza no mundo que visa uma alegria eterna no além. Entender isso é o primeiro passo para a luta cristã contra todo tipo de opressão que, em nome do evangelho, destrói vidas em nosso dia-a-dia.

O convite de Filipenses 4 persiste em chamar: “Alegrai-vos sempre nos Senhor. Outra vez vos digo: “alegrai-vos!”


*Fabrício Veliq é doutorando em teologia pela FAJE, formado em matemática pela UFMG, graduando em filosofia pela UFMG, mestre em teologia pela Faculdade Jesuíta de Belo Horizonte (FAJE). Atualmente ministra cursos de teologia no curso de Teologia para Leigos do Colégio Santo Antônio, ligado à ordem Franciscana. É protestante e ama falar sobre teologia em suas diversas conversas por aí.
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