sábado, 11 de junho de 2016

Os tesouros de Santa Maria Antiqua: cristandade emerge das cinzas da Roma Imperial

[aleteia]
Por Elizabeth Lev

 

Uma recente restauração e exposição mostram como os cristãos colocaram a sua marca em Roma depois que os imperadores saíram de cena

 



Por 1200 anos o Fórum Romano prosperou como centro legislativo, administrativo e religioso de Roma. A partir do pequeno reino fundado em 753 a.C. até o SPQR (Senatus Populusque Romanus, que pode ser traduzido como “O Senado e o Povo Romano”), e o poderoso Império, a pequena área aberta do Fórum passou de um mercado do centro da cidade a centro do mundo. Mas o que aconteceu depois? Quando o Império caiu em 476, o Fórum simplesmente deixou de existir?
Não, isso não aconteceu. Apesar da implosão do governo romano, o Fórum continuou a se desenvolver. Seu instinto de sobrevivência, no entanto, não era mais alimentado pelos antigos deuses pagãos, mas pelo cristianismo. Como os templos foram sendo abandonados gradualmente, igrejas cristãs vieram a redefinir o espaço do Fórum.

Estes anos misteriosos, muitas vezes pejorativamente chamados de Idade das Trevas por falta de registro histórico, recebem um testemunho marcante em uma exposição que acontece no Fórum até 30 de outubro de 2016. A mostra “Santa Maria Antiqua em Roma e Bizâncio” revela 300 anos de história depois que os imperadores romanos saíram de cena.
A exposição está alojada na Igreja de Santa Maria Antiqua, uma igreja do século VII, situada nas ruínas do palácio imperial. Coberta por um deslizamento de terra causado por um terremoto em 847, a igreja foi descoberta em 1904 e ficou fechada para trabalhos de restauração que duraram 40 anos. Esta exposição será a primeira vez que o público geral poderá visitar a igreja em meio século.

Caminhar em direção à igreja é como estar em um túnel do tempo da história. Passando sob as plataformas maciças dos templos de muitos deuses de Roma, um passo a mais e acessamos o átrio da igreja. Paredes colossais, os restos do palácio ambicioso do Imperador Domiciano, o piso carrega os traços de Calígula.
Alguns fragmentos de afrescos que se agarram às paredes do que seria a biblioteca de Domiciano. Após a altura vertiginosa da arquitetura Imperial, Santa Maria Antiqua parece íntima. Este espaço deslumbra de uma forma muito diferente. Cada parede, cada coluna, cada superfície contém vestígios de afrescos – um tesouro de arte recontando a vida espiritual do Fórum a partir de quando os reis ostrogodos arrancaram Roma dos Imperadores.

A exposição segue um itinerário construído cuidadosamente. Ao entrar, os visitantes ficam na nave, onde várias estátuas permanecem como sentinelas – os novos governantes de Roma que permitiram que o cristianismo florescesse no Fórum. Uma rainha olha vagamente sob sua coroa de pérolas. Ela pode ser Amalasunta, filha de Teodorico, patrocinadora da primeira igreja cristã no Fórum: São Cosme e Damião, construída em 525.
Como que por magia, um ícone da Virgem e do Menino paira no ar da nave. Pintado para esta igreja entre 575 e 600, ficou escondido após o colapso da igreja, mas foi resgatado, levado a uma nova igreja, que se tornou Santa Maria Nova, no templo de Vênus e Roma.
A estrela da exposição é o Papa João VII, cujo breve pontificado, de 705 a 707, trouxe enormes mudanças para a Igreja. Filho do vice-rei bizantino, João tinha os pés tanto na cultura grega como latina, bem como amor pela arte, e ele usou esta igreja como capela da corte. Seu oratório a Maria, na Basílica de São Pedro, foi coberto com deslumbrantes mosaicos – vários estão na exposição.

Santa Maria Antiqua contém algumas das primeiras capelas laterais e a mais antiga capela existente dedicada a um leigo. A primeira capela à direita foi decorada sob o comando do Papa João VII e dedicada aos santos médicos. Cruzando o limiar, cinco médicos são pintados em fila, segurando seus instrumentos, incluindo os mártires Orientais Cosme e Damião, os gêmeos médicos que foram introduzidos em Roma para aliviar as tensões culturais de um novo Imperador Bizantino e suplantar a memória de Rômulo e Remo, os fundadores gêmeos da cidade pagã.
A capela à esquerda é ainda mais notável, construída em meados do século VIII por Theodotus, um rico oficial de justiça. Depois do mármore incrustado, as paredes foram apuradas de alguns dos adornos de pedra para abrir espaço a uma representação dos santos Giuditta e Quirico, mãe e filho martirizados no Oriente.



Estas imagens estão incompletas, mas uma computação gráfica sofisticada preenche as partes ausentes e os espectadores se surpreendem com uma visão de como a capela teria aparecido em sua glória. É uma aplicação de tirar o fôlego da tecnologia na arte.
A área da abside é o material de arte com que os historiadores sonham. Alta, no lado direito da abside, há uma colcha de retalhos ao ar livre. Peças lascaram, revelando várias fases de decoração da igreja.
A iluminação inteligente ajuda os espectadores através da era do “muro palimpsesto”. O afresco mais velho, Maria Regina, mostra uma figura de uma rainha em pé com um cocar de pérolas segurando uma criança com um anjo nas proximidades. O trabalho data de 550, quando Santa Maria Antiqua foi descoberta pela primeira vez, sua identidade cristã como guardiã contra os reis ostrogodos.

Entre 600 e 649, uma Anunciação elegante, que caracteriza “o anjo bonito”, cobriu o trabalho anterior. Então João VII adicionou uma série de Padres da Igreja, como parte de seu grande plano para a decoração da abside. A imensa cena caracteriza anjos, santos e mártires adoradores da cruz. Um pouco de aquarela nas proximidades mostra o que uma vez foi uma explosão de cores para trazer o céu triunfante mais perto da terra.
A igreja é marcante em sua antiguidade, mas também revela alguns dos esplendores mais modernos da arte da igreja. As paredes estão decoradas com falsas tapeçarias pintadas, espalhando narrativas paralelas – Velho Testamento à esquerda e Novo Testamento à direita –, Jonas descansando em um sarcófago de mármore esculpido ao lado. Este estilo de decoração sobreviveu à iconoclastia e modas artísticas, e esses mesmos componentes podem ser encontrados na Basílica Superior de Assis ou na Capela Sistina, mais de meio milênio depois.
Santa Maria Antiqua demonstra amplamente que a beleza – sempre antiga e sempre nova – tem sido há muito tempo uma expressão da Igreja.
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