sexta-feira, 3 de junho de 2016

Como a renúncia de Bento XVI mudou o papado para sempre


Quando o Papa emérito Bento XVI renunciou ao posto de pontífice três anos atrás, acrescentou uma nova dimensão ao papado, disse recentemente seu secretário pessoal Dom Georg Gänswein.
Gänswein permanece como prefeito da Casa Pontifícia, trabalhando diretamente com ambos Bento XVI e Papa Francisco.
A reportagem é de Andrea Gagliarducci, publicada por Catholic News Agency, 31-05-2016. A tradução é de Luisa Somavilla.
O arcebispo falou sobre o pontificado de Bento e suas decorrências em sua apresentação de 20 de maio do livro Oltre la crisi della Chiesa ( "Além da Crise da Igreja"), escrito padre Roberto Regoli, um historiador e professor da Pontifícia Universidade Gregoriana. O livro pretende ser a primeira avaliação do pontificado de Bento XVI baseada na história.
Gänswein ressaltou que há apenas um Papa legítimo - Francisco. No entanto, durante os últimos três anos, os católicos têm vivido "com dois sucessores de Pedro vivos entre nós". Ele disse que Bento e Francisco "não estão em concorrência um com o outro, por mais que ambos tenham uma presença extraordinária".
Para Gänswein, o anúncio da renúncia de Bento XVI, em 11 de fevereiro de 2013, marcou a introdução de uma nova instituição na Igreja Católica: o Papa emérito.
O Papa Bento, disse ele, usou uma frase-chave em seu discurso de renúncia: "Munus Petrinum". Esta frase é usualmente traduzida como "ministério petrino". De acordo com o arcebispo, a palavra latina "munus" tem muitos significados: serviço, compromisso, guia, presente, até mesmo admiração.
"Bento XVI considerou seu comprometimento como uma participação nesse ministério petrino", disse o arcebispo. "Isso significa que ele deixou o trono papal, mas não abandonou este ministério."
Bento XVI agora atua "em uma dimensão colegial e sinodal" e um "ministério comum" que parece ecoar seu lema episcopal e papal: "cooperatores veritatis'', “cooperadores da verdade”, disse ele.
Assim, "desde a eleição do Papa Francisco, não há dois Papas, mas existe um ministério de fato, ampliado, com um membro ativo e outro contemplativo".
O arcebispo disse que é por isso que Bento não renunciou ao seu nome papal nem abriu mão de sua batina branca.
"Esta é a razão pela qual a denominação correta para ele é 'Vossa Santidade'. Esta é, finalmente, a razão pela qual ele não se retirou para um monastério isolado, mas permanece dentro dos muros do Vaticano, como se ele simplesmente desse um passo ao lado para dar espaço ao seu sucessor e a uma nova etapa na história do papado ", disse Gänswein.
Esta é a forma como Bento XVI "transformou de maneira profunda e duradoura" o ministério papal durante o seu "pontificado excepcional".
Gänswein também refletiu sobre o significado da eleição de Bento XVI. Ele disse que a eleição foi "certamente o resultado de um choque", cuja interpretação chave havia sido feita pelo próprio cardeal Joseph Ratzinger em sua homilia para a missa pré-conclave em 18 de April de 2005.
O então cardeal Ratzinger refletiu sobre o choque de duas forças. Ele criticou uma possível "ditadura do relativismo" que não reconhece nada como definitivo e cujo objetivo final consiste unicamente no ego e no desejo de alguém".
Com isso, Gänswein disse, Ratzinger pôs em contraste os objetivos cristãos de Jesus Cristo, o Filho de Deus, e "o homem de verdade". Esta é "a medida do verdadeiro humanismo".
Este confronto é sintetizado no que Gänswein descreveu como "a luta dramática" entre dois partidos no conclave. Ele classificou um como "Sal da Terra", nome dado a partir do título de uma entrevista do tamanho de um livro feita com o cardeal Ratzinger, reunindo os cardeais Lopez Trujillo, Ruini, Herranz, Rouco Varela e Medina Estevez.
Do outro lado, há o chamado "grupo de São Galo", reunido em torno dos cardeais Daneels, Martini, Silvestrini e Murphy-O'Connor. Este é o grupo, Gänswein observou, que o próprio Daneels, "divertidamente descreveu como ‘uma espécie de clube da máfia'".
Gänswein disse que "a ditadura do relativismo" está sendo divulgada através de novas mídias que mal poderiam ser imaginadas em 2005.
De uma vez por todas, Gänswein rejeitou a ideia de que Bento XVI tenha renunciado por causa dos escândalos ou do "ano negro" de 2010.
Aquele ano foi marcado por novos escândalos de abuso sexual do clero europeu, e seguiram-se controvérsias, como a do bispo lefebvrista Richard Williamson, cuja excomunhão foi levantada sem o conhecimento de suas observações minimizando o número de mortes de judeus no Holocausto.
Gänswein disse que havia mais razões pessoais para o papa considerar 2010 como "um ano negro".
Esse foi o ano da morte de Manuela Camagni, uma das quatro mulheres leigas consagradas pertencentes a Memores Domini e membro do grande movimento de Comunhão e Libertação, que faziam parte da Casa Pontifícia. Ela morreu depois de ter sido atingida por um carro.
"O sensacionalismo da mídia desses anos, desde o caso Williamson até a onda de ataques crescentes contra o papa, não o abateram tanto quanto a morte de Manuela", disse Gänswein.
O mordomo papal, Paolo Gabriele, foi então exposto como a fonte de informações confidenciais sobre o papado, nomeadas pelas notícias de "Vatileaks".
O arcebispo sublinhou que "como o Papa estava chocado com a morte repentina de Manuela Camagni, ele acabou sofrendo muito com a traição de Paolo Gabriele".
Mas ele disse que Bento não renunciou devido a esses fatores, ou devido a outras "notícias picantes". Em vez disso, como o ex-pontífice disse em seu anúncio de renúncia, sua decisão foi baseada em sua idade avançada e na diminuição de sua força, o que o levou a acreditar que ele não podia mais exercer o ministério que lhe fora confiado.
"Nenhum traidor ou qualquer jornalista poderia pressionar o papa a essa decisão", Gänswein ressaltou, pois "o escândalo era muito pequeno" em comparação com o "passo histórico bem ponderado" de Bento XVI em sua renúncia.
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