sexta-feira, 29 de abril de 2016

Chamados à vida eterna

Por Cardeal Orani João Tempesta*

A nossa morte será precisamente o encontro com Cristo, a quem procuramos servir.



Estamos no final do Tempo Pascal e este domingo antes da Ascensão coincide, neste ano, com o dia primeiro de maio, início do mês mariano e do Dia do Trabalhador. A Igreja irá celebrar nos próximos domingos duas grandes festas: Ascensão e Pentecostes! Por isso a liturgia adquire já um tom de expectativa: somos convidados a ter os olhos postos no Céu, a Pátria definitiva a que o Senhor nos chama. O Evangelho (Jo 14, 23-29) apresenta o final do discurso da despedida. Cristo promete aos seus discípulos enviar o Espírito Santo: “Ele vos ensinará e recordará tudo o que vos tenho dito”. Ele nos dá Sua Palavra e Sua Paz!
O Senhor prometera aos seus discípulos que, passado um pouco de tempo, estaria com eles para sempre. “Ainda um pouco de tempo e o mundo já não me verá. Vós, porém, tornareis a ver-me…” (Jo 14,19-20). O Senhor cumpriu a sua promessa nos dias em que permaneceu junto dos seus após a Ressurreição, mas essa presença não terminará quando subir com o seu Corpo glorioso ao Pai, pois pela sua Paixão e Morte nos preparou um lugar na casa do Pai, “onde há muitas moradas. Voltarei e tomar-vos-ei comigo, para que, onde eu estou, estejais vós também” (Jo 14,2-3).
Os Apóstolos, que se tinham entristecido com a predição das negações de Pedro, são confortados com a esperança do Céu. A volta a que Jesus se refere inclui a Sua segunda vinda no final dos tempos e o encontro com cada alma quando se separar do corpo. A nossa morte será precisamente o encontro com Cristo, a quem procuramos servir nesta vida e que nos levará à plenitude da glória. Será o encontro com Aquele com quem falamos na nossa oração, com quem dialogamos tantas vezes ao longo do dia.
A meditação sobre o Céu deve também estimular-nos a ser mais generosos na nossa luta diária, “porque a esperança do prêmio conforta a alma para que empreenda boas obras” (São Cirilo de Jerusalém). O pensamento desse encontro definitivo de amor, a que fomos chamados, nos ajudará a estar mais vigilantes nas nossas tarefas grandes e nas pequenas, realizando-as de um modo acabado, como se fossem as últimas antes de irmos para o Pai.
Na liturgia deste Sexto Domingo da Páscoa, a Palavra de Deus continua a nos falar da Igreja, dessa Comunidade do Ressuscitado, Comunidade que peregrina já há dois mil anos na história humana, como um povo pobre, frágil, humanamente falando, mas também tão rico e tão forte pela presença do Ressuscitado entre nós.  É, ainda, o Apocalipse, que nos apresenta, de modo belíssimo, a glória da Jerusalém celeste, Esposa do Cordeiro, nossa Mãe católica: “Mostrou-me a Cidade Santa, Jerusalém, descendo do céu, de junto de Deus, brilhando com a glória de Deus” – Esta Jerusalém gloriosa é a Igreja! Ela não nasce de um projeto humano; ela nasce do coração do Pai, que, através do Filho Jesus, doador do Espírito, chamou-nos, reuniu-nos, salvou-nos e fez de nós um novo povo, uma nova cidade, uma nova aliança, início de uma nova humanidade. A Igreja é a verdadeira Jerusalém, a verdadeira Cidade de Deus, que desce do céu e que é santificada pelo sangue do Cordeiro e, um dia, será totalmente transfigurada na glória de Deus. Não na sua própria glória, mas na de Deus, aquela glória que já brilha na face do Cristo ressuscitado!
Ela é a herança e a realização plena do antigo povo de Israel, ela é a plenitude do povo de Israel, é o Israel da nova aliança. Por isso, “nas suas portas estavam escritos os nomes das doze tribos de Israel”. Mas, a Igreja é aberta a todos os povos, suas portas são abertas para todos os lados: “havia três portas do lado do oriente, três portas do lado norte, três portas do lado sul e três portas do lado do ocidente”. A nova Jerusalém é católica, ou seja, universal, pois é aberta a todos, aberta em todas as direções, pois nela todos os povos, todas as culturas terão abrigo. 
O pensamento do Céu, agora que estamos próximos da festa da Ascensão, deve levar-nos a uma luta decidida e alegre, por tirar os obstáculos que se interpõem entre nós e Cristo, deve estimular-nos a procurar sobretudo os bens que perduram e a não desejar a todo custo as consolações que acabam.
Portanto, a Igreja, nova Jerusalém, está toda imersa em Deus e no seu Cristo. Ela mesma é templo de Deus no Espírito Santo! Ela vive na luz do Cristo, apesar de caminhar em meio às trevas deste mundo! Para o mundo, que somente pode enxergar a Igreja na sua realidade exterior, ela é apenas mais uma instituição entre tantas do mundo. Nos Atos dos Apóstolos (15, 1-19) vemos como as dificuldades iniciais foram superadas com oração, partilha, unidade e obediência aos apóstolos: “por isso decidimos, o Espírito Santo e nós”. Assim, as diferenças e crises são superadas na comunhão. 
Por isso, para nós que cremos, para nós que somos Igreja viva, para nós que dela nascemos e nela vivemos, para nós que nos nutrimos de seus sacramentos, ela é este admirável mistério de fé! É isto que queremos dizer quando rezamos: “Creio na Igreja, una, santa, católica e apostólica”. 
Renovemos nossa fé na Igreja e mergulhemos cada vez mais no seu mistério, pois é aí, é aqui que podemos viver na nossa vida o mistério e a salvação do Cristo, nosso Deus.


CNBB, 28-04-2016.

*Cardeal Orani João Tempesta: Arcebispo de São Sebastião do Rio de Janeiro (RJ).   
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