sexta-feira, 14 de abril de 2017

Para quem não quer sofrer

[domtotal]
Por Gilmar Pereira*

Quanto mais se deseja a vida, mais se sofre com suas limitações e menos vida se experimenta.

 

As marcas da paixão também são as marcas da ressurreição. (Reprodução)

Superar não é destruir algo. Portanto, a superação do sofrimento não implica que ele será apagado simplesmente, trata-se de outra coisa. O que fazer, então?
Primeiro separe a dor do sofrimento. Eles não são a mesma coisa. Duas pessoas podem passar por uma dor similar, mas sofrer de maneiras diferentes. Não é estranho isso? Pois bem, a dor tem certa objetividade. Uma doença faz o corpo sentir dor. O excesso de trabalho pode causar fadiga. Tudo isso se trata com remédios, boa alimentação, repouso. O sofrimento, não. Ele é uma dor interna, algo que afeta os sentimentos. Entender isso é importante para readquirir a paz do coração.
Sofrer significa “aguentar” e se forma por outras duas palavras latinas, “sob” e “carregar”. No português, quando se estudam frases, costuma-se perguntar quem sofre a ação do verbo, o que dá uma ideia de receber. Talvez aqui entremos no centro do sofrimento: ser imputado uma carga, receber algo sem que o queira. Nesse ponto você não pratica a ação, mas a recebe, o que se traduz em limitação e perda da liberdade.
Sofrimento é a experiência de se sentir reduzido, limitado, privado e, deste modo, de ter menos vida. À medida que revela a finitude humana, o sofrimento aponta para a morte. Sofre quem não admite seu fim, quem não aceita os limites impostos pela natureza ou por outrem, quem não tem controle sobre a vida. Entramos, pois, no paradoxo do sofrimento: quanto mais se deseja a vida, mais se sofre com suas limitações e menos vida se experimenta.
João da Cruz dizia: “Para chegar a saborear tudo, não queiras ter gosto por nada”. Isso quer dizer que, quando desejamos demais algo, que não nos vem ou nos vem diferente do que esperávamos, sofremos. Com isso, não saboreamos ou tiramos proveito. Quando não se deseja algo e a mesma coisa nos vem, inesperadamente, podemos aproveita-la melhor. Se você quer ganhar um ovo de páscoa e recebe uma caixa de bombons, não fica contente. Se não espera ganhar nada e lhe vem a mesma caixa, alegra-se. O desejo, conforme os budistas, é a raiz do sofrimento.
O excesso do desejar faz com que a pessoa se oriente exclusivamente para o desejado e perca todo o restante. Por isso algumas pessoas conseguem viver felizes apesar de suas dores e doenças, porque seu olhar se volta para as outras realidades das quais participa e se alegra com e por elas. Convivendo com pacientes oncológicos em estágios avançados, vi entre os que aceitaram a possibilidade da morte a maior alegria. Diante daquele possível, tido como certo, o atual tinha maior validade e grandeza. Cada segundo era vivido em sua justa intensidade e as pequenas coisas ganhavam mais cor. O câncer gerava dor, limitava objetivamente a vida, contudo não roubava a alegria de viver de muitos. Oscilavam sim, entre alegria e sofrimento, mas a “mais vida” era obtida na qualidade do viver e não na quantidade de dias.
Quando algo deixa de ser o centro da vida, deixa de sugar as energias e fazer sofrer. Traição, doença, demissão, morte de um ente, tudo isso são perdas que geram dor e que, apesar de serem sentidas, não podem fazer com que alguém se centre nelas. Quem medir o próprio valor pelo apreço do outro e não considerar que pode construir relações melhores vai continuar a sofrer pela traição. Quem não olhar para a própria capacidade e ficar se ressentindo da ausência de trabalho, não conseguirá sair em busca de um novo emprego. Quem nega a doença, não busca sua cura. Aquele que não faz experiência da memória agradecida de quem perdeu, sofre continuamente pela morte. Supera-se quando se ergue o olhar e se vê que há mais pessoas para amar e mais coisas para viver. Uma dor passada não pode orientar desesperadamente o futuro.  A resposta está no presente.
Um mal objetivo aconteceu? Ok. Ele causa dor e sofrimento. Depois de sentido, há de se colocar a pergunta: o que eu faço agora? Ficar parado no mal sofrido é propagar a dor pelo tempo na memória. Descentrar-se da dor, permite sua superação. Suas causas continuarão lá no passado, farão parte da sua história, mas não terão o poder de lhe fazer infeliz. Buscar saídas para um mal sofrido que tem solução é descentrar-se. E, para o que não pode ser solucionado, resta aceitar e viver para além do limite imposto, o que também é descentrar-se.
Cristo Ressuscitado é o exemplo da superação do sofrer. Quando aparece aos discípulos, continua carregando em seu corpo redivivo as marcas da paixão. Não obstante, por ter acolhido a morte, tais marcas se tornaram sinais de sua glória. As marcas da paixão também são as marcas da ressurreição. Superar não é apagar, é dar novo sentido. Sem apegar-se ao passado dolorido e projetá-lo no futuro, tenho o hoje para viver. E aqui é que se deve centrar-se minha preocupação. Nem um fio de cabelo me é dado pelo preocupar.  Só nos resta viver com o limite próprio da vida. A qualidade da vivência é que faz um instante eterno.

*Gilmar Pereira é mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, graduado em Teologia pela FAJE e em Filosofia pelo CES-JF. Palestrante, ministra cursos e presta assessoria na área de comunicação e religião. E-mail: gilmar_jf@hotmail.com. 
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