terça-feira, 18 de abril de 2017

Classicismo pagão e desvario neopagão

[ipco]
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Emergindo de um arvoredo sombreado e ameno, e tendo como fundo de quadro as montanhas de delicados contornos e as águas plácidas do porto de Hong Kong, alteia-se, dominando a cidade com seu vulto a um tempo forte e esguio, o famoso Pagode Branco.
Trata-se de uma construção de caráter religioso, pois o pagode é uma capela ou templo. Notável por seu mérito artístico, o Pagode Branco pode ser apresentado como um tipo característico de certa arquitetura religiosa chinesa. E como tal espelha ele, pelo menos em muitos de seus traços, a psicologia, a índole, o espírito da religião para cujo uso foi concebido e plasmado.
É bem certo que neste monumento não se nota o “quid” excelso, absolutamente imponderável, impalpável, mas impressionante e vivo, que marca os ambientes altamente impregnados pela influência católica, e que nos imerge por assim dizer numa atmosfera sobrenatural: basta lembrar certos lugares como a Sainte Chapelle de Paris, por exemplo, ou Assis, ou ainda certas cenas como o Sumo Pontífice entrando em São Pedro na sédia gestatória, ou a procissão do Santíssimo Sacramento em Lourdes.
Não obstante, neste monumento se manifestam tantos elementos de equilíbrio, harmonia, delicadeza e distinção, que nele poderia instalar-se sem desdouro – assim pensa pelo menos o autor deste comentário – uma igreja católica. Quanto nos sorri a ideia de uma China enfim convertida à única Igreja de Deus, e este pagode consagrado ao culto da Rainha do Céu e da terra!
Uma torre inteiramente isolada de qualquer conjunto arquitetônico é obra difícil de se realizar com verdadeiro gosto. Pois facilmente cai nos extremos. Se se procura dar-lhe ares de força fica exposta a parecer vulgar e brutal. Se, pelo contrário, se a constrói muito esguia, é difícil que não dê a impressão de caniço insignificante.
Com quanto amor ao equilíbrio, à harmonia, ao bom senso enfim, os construtores desta torre souberam evitar ambos os excessos! A altura é perfeitamente proporcionada ao diâmetro da base. E, para tornar o edifício realmente leve, cada andar suporta outro menor. A leveza é realçada por parapeitos finamente trabalhados, e por magníficos beirais “franzidos”, quase diríamos “flexíveis”, que se terminam tão delicadamente que parecem até flutuar no ar, prontos a se deixarem ondular com suavidade se por eles perpassar o sopro de alguma brisa. Para corrigir o que os beirais e os parapeitos pudessem ter de excessivamente frágil, cada andar constitui um octógono robusto, de paredes absolutamente lisas, aberto em cada faceta tão somente por um arco de linhas severas, coerentes e simples. Dir-se-ia que o octógono considerado em si mesmo tem toda a precisão, a força e o peso de um sólido raciocínio, e os parapeitos e beirais toda a leveza, a graça, a nobreza de uma suave fantasia.
Para terminar esta apreciação, imagine o leitor que um incêndio destruísse o teto do último andar. E procure um outro desenho que o substituísse bem. Dificilmente encontraria ideia melhor. Dir-se-ia que este teto é uma flor cuja corola tenha sido voltada para a terra. Os olhos acompanham insensivelmente as nervuras da corola, chegam até a haste, e se comprazem em acompanhar a sequência dos anéis sempre mais finos que a compõem, detêm-se um último instante no ornato final, e perdem-se no céu…
Não é este o momento de fazer uma análise da religião chinesa. Sem nos esquecermos de que a gentilidade é o reino do demônio, é preciso reconhecer que o império do espírito das trevas não chegou a ponto de apagar entre os chineses um certo amor ao bom senso, ao equilíbrio, à beleza, que se patenteia de modo esplêndido neste edifício. E de quantas outras culturas antigas se poderia fazer o mesmo elogio! É o que explica a dileção, o cuidado, o gosto com que a Igreja, nos países de missão, se acerca destes restos, por vezes ainda palpitantes de velhas civilizações, conservando-os, estudando-os, purificando-os das sordícies pagãs, para finalmente lhes infundir outro espírito e os assumir e os integrar no imenso acervo da cultura católica.

 
Volvamos os olhos, da torre alva, esbelta, forte e delicada em que a razão e a fantasia tão harmoniosamente se fundem, para este pobre aleijão, que faz pensar num aerólito de cristal que se tivesse espatifado em terra, desfazendo-se em cacos, e dando no seu conjunto a impressão desordenada, disforme, escarrapachada (para certas realidades, só certos vocábulos!), algum tanto ridícula de tudo que se desmancha e estatela (mais uma vez. para certas realidades só certos vocábulos) no chão depois de uma pesada queda. Este violento e desastrado conjunto de aberrações é uma capela interconfessional desenhada para uma grande universidade do Novo Mundo. Mas segundo os cânones de certa “arte” internacional, poderia igualmente servir de capela católica, budista ou maometana em qualquer parte do globo [Bruce Goff’s proposed chapel for the University of Oklahoma ( Bruce Goff’s Crystal Chapel )].
Encontra-se nesta produção tão típica do mundo moderno neopagão algo que exprima ainda as qualidades humanas que no próprio paganismo antigo se afirmavam? Ou pelo contrário se diria que se exprime neste estilo precisamente o contrário daqueles predicados, e que estamos em presença de um monumento erguido em homenagem à extravagância, à desproporção, à incongruência, ao grotesco enfim? Se um demônio, com permissão divina, sacudisse com ódio e brutalidade uma capela, não é bem assim que ela ficaria?
Triste verificação que serve de pequeno pórtico a uma grande conclusão. O neopaganismo hodierno, fruto envenenado da apostasia, é de uma espécie mil vezes pior que o paganismo antigo, deforma muito mais a fundo o homem, a arte, a civilização e a vida, levando-os a um nível infra-humano em que triunfa sem restrições o Poder das Trevas. É em outros termos a vitória de Satanás através da vitória do maniqueísmo.
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