domingo, 26 de março de 2017

Ensinai a todos os povos

[ocampones]



“Ide”,  disse então Jesus, “e ensinai todos os povos, ensinando-os a observarem todas as coisas que eu vos mandei. Eis que eu estarei convosco todos os dias, até à consumação dos séculos”.
A convivência prolongada, durante vinte séculos, por parte de nossa civilização, com estas palavras tão simples escondeu-lhes toda a imensa revolução que elas causaram. Esta foi, de fato, a primeira vez na história humana que em qualquer povo e mesmo em qualquer religião surgiu uma pessoa que teve a idéia de que havia alguma coisa que deveria ser levada a todas as pessoas em toda a terra, sem distinção alguma, estivessem ou não preparadas para recebê-la, e que havia ademais alguém ou algum grupo identificável ao qual se atribuía a responsabilidade concreta pelo cumprimento desta ordem. Tanto quanto sabemos, em toda a história, jamais houve alguém que houvesse ousado conceber uma idéia tão arrojada como esta. As religiões não cristãs tendiam a ensinar seus preceitos apenas aos que considerassem como estando preparados para tanto, e usualmente dentro de certos limites geográficos.
Mas foi a partir do cumprimento desta ordem de Cristo que gradualmente passou-se a perceber, no ocidente, que havia outras coisas que também deveriam ser estendidas a todos os povos e a todos os homens, e a lista destas coisas foi aumentando com o decorrer da história. Foi a partir da convivência com esta ordem de Cristo que passou-se a perceber que também o ensino deveria estender-se para todos, assim como a saúde, a liberdade política, os direitos trabalhistas, os direitos humanos, o acesso à justiça, e assim sucessivamente. E que, ademais, deveria haver canais institucionalmente identificáveis dos quais exigir a realização concreta destes direitos. A história da civilização ocidental, pois, partindo daquelas simples palavras de Mateus, tem sido a história da difusão gradativa de um número cada vez maior de direitos para todos os homens sem exceção. Isto tornou-se uma característica tão profundamente marcada no ocidente que os homens têm sido erroneamente levados a supor que se trata de algo que deveria ser óbvio, evidente e característico de toda e qualquer civilização desenvolvida em qualquer lugar e época. A história mostra, porém, que esta suposição é infundada.
Pode-se fazer uma avaliação um pouco mais realista do tremendo impacto que estas palavras de Cristo causaram sobre o curso normal das civilizações se considerarmos as cartas que foram remetidas à Europa pelo mais famoso dos primeiros missionários cristãos enviado às Índias na época dos grandes descobrimentos dos anos 1500. Conta-se nelas que, ao chegar à Índia, São Francisco Xavier teria ficado profundamente chocado com alguns brâmanes que, ao reconhecerem que sua doutrina e seus milagres provinham do alto, pediram-lhe que ele lhes ensinasse em caráter reservado a doutrina do Deus dos cristãos e, pensando que com isto cairiam nas suas graças, prometeram-lhe que jamais diriam uma palavra a ninguém do que ele lhes ensinasse. Aparentemente estes brâmanes não concebiam como sendo decente que uma doutrina à qual se reconhecia uma procedência divina saísse de um círculo restrito de pessoas.
Francisco Xavier, por outro lado, porém, recém chegado à Índia, não parece ter percebido a verdadeira raíz de onde emanava aquela proposta que lhe pareceu tão absurda. Ele não parece ter-se dado conta da revolução que exigiu da mente dos homens a ordem de Cristo que para ele parecia ser um imperativo moral pertencente à lista das coisas evidentes. O missionário limitou-se a manifestar a sua indignação diante da proposta brâmane dizendo, sem pensar duas vezes, que nada ensinaria ao brâmanes se eles não prometessem antes que o divulgariam a quantas pessoas pudessem fazê-lo.
Tão evidente era para Francisco Xavier que os ensinamentos divinos deveriam ser oferecidos a todos sem exceção que sua resposta à proposta dos brâmanes foi educada mas brusca, isto é, não acompanhada de qualquer explicação. Isto foi, porém, para o jovem brâmane que a ouviu pela primeira vez, um choque tão grande quanto aquele que a proposta brâmane havia sido para Francisco Xavier.
Não desejamos emitir aqui qualquer opinião sobre o Bramanismo do qual, diante de sua complexidade, devemos reconhecer o pouco que dele conhecemos; mas podemos conjecturar, ao lermos este relato, se aquele jovem, diante da resposta de Francisco, não poderia ter talvez começado a conceber alguma dúvida sobre o caráter divino dos ensinamentos que até aquele momento pretendia adquirir do missionário:
 “Em toda a Costa”, diz uma carta de Francisco Xavier,  “não encontrei senão um brâmane com alguma instrução e que se diz ter sido discípulo de um nobre e célebre colégio. Procurei vê-lo em particular e ele se prestou da melhor vontade, e sobre as questões e perguntas que lhe dirigi, me respondeu que os brâmanes estavam todos comprometidos por um juramento e não podiam revelar nada de suas doutrinas; mas, por amizade e como exceção para comigo, me falaria abertamente.  Fiquei assim sabendo que o primeiro dos seus mistérios é que não existe senão um só Deus, criador do céu e da terra, a quem somente devem culto, e que para ensinarem as leis que eles crêem divinas servem-se de uma língua tão pouco vulgarizada como é o latim entre nós.  Em virtude de seu juramento de segredo recitam suas orações em voz baixa para que ninguém as possa ouvir. Seus livros contém uma profecia anunciando que um dia todos os povos da terra professarão uma única e mesma religião. Este brâmane, então, pediu-me que lhe explicasse também os preceitos do Cristianismo, prometendo-me guardar o mais absoluto segredo.
Tive que responder-lhe que nada lhe diria, se ele não me prometesse, pelo contrário, de publicar, por toda a parte e em alta voz, o que soubesse de nossa religião”.  (Carta de 12/01/1544)
Traços desta mesma diferença de atitudes fundamentais podem ser observados também nas cartas que relatam o desembarque de Francisco Xavier no Japão, tornando-se o primeiro missionário cristão a conhecer aquelas terras. Embora o jesuíta demonstrasse uma sabedoria superior à possuída pelos seus anfitriões e fizesse milagres entre os monges budistas que estes não eram capazes de repetir, o que mais espantou os religiosos orientais ao verem Francisco Xavier não foram estas prodígios, mas o fato de que ele havia se deslocado de uma terra mais distante do que a Índia ou a África apenas para lhes pregar o Evangelho:
 “De todos os povos que tenho visto”,  diz Francisco Xavier em outra carta, “nenhum pode ser comparado ao japonês pela sua natureza. É de uma perfeita probidade, franco, leal,  engenhoso, ávido de honras e de dignidade. A honra é para ele o primeiro de todos os bens. É pobre, mas a pobreza entre eles não é desprezada. Quase todos sabem ler, o que para nós será de grande auxílio para lhes fazer aprender as orações e os principais pontos da doutrina cristã.
Tenho tido muitas conferências com alguns dentre os mais distintos bonzos,especialmente com aquele, que pelos seus merecimentos, título e muita idade, já octogenário, goza do respeito e da admiração de todo o país. Ele é entre os bonzos uma espécie de bispo e tem o título de Ninchit. O que vos parecerá surpreendente é que ele nos estima muito e que tanto o povo como os bonzos buscam com empenho a nossa conversação. O que singularmente lhes causa admiração, porém, é que tenhamos percorrido seis mil léguas com o único fim de lhes anunciar o Evangelho”. (Carta de 03/11/1549)
Esta atitude, estranha para os japoneses, incompreensível para os brâmanes, impensável em qualquer civilização antes do Cristianismo, é, entretanto, tão essencial à mensagem evangélica que incorporou-se à civilização ocidental sob a forma de um número sempre crescente de nuances, muitas vezes necessitando apenas de uma circunstância política ou econômica imprevista para vir a manifestar-se de uma nova maneira. As manifestações e as ampliações contínuas desta tendência básica em nossa história é, a nosso ver, o mais importante dos fatores que tem impedido o desagregamento de nossa civilização, apesar de nela ter-se chegado, em matéria de educação, ao pragmatismo caraterístico dos períodos finais das civilizações.
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