sábado, 28 de janeiro de 2017

Um caminho diferente

[domtotal]
Por Ana Maria Casarotti*

A leitura que a Igreja propõe neste sábado é o Evangelho segundo Mateus 5, 1-12.

 


Jesus viu as multidões, subiu à montanha e sentou-se. Os discípulos se aproximaram, e Jesus começou a ensiná-los: “Felizes os pobres em espírito, porque deles é o Reino do Céu”.  Felizes os aflitos, porque serão consolados.  Felizes os mansos, porque possuirão a terra. Felizes os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados.  Felizes os que são misericordiosos, porque encontrarão misericórdia.  Felizes os puros de coração, porque verão a Deus.  Felizes os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus.  Felizes os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino do Céu.  Felizes vocês, se forem insultados e perseguidos, e se disserem todo tipo de calúnia contra vocês, por causa de mim.
“Fiquem alegres e contentes, porque será grande para vocês a recompensa no céu. Do mesmo modo perseguiram os profetas que vieram antes de vocês.”
Leitura do Evangelho de Mateus 5,1-12 (Correspondente ao 4° Domingo do Tempo Comum, ciclo do A do Ano Litúrgico.)
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Hoje lemos as bem-aventuranças, muito conhecidas, mas não sempre entendidas na sua riqueza e variedade. Para entender melhor seu sentido, tentemos imaginar a cena descrita no texto evangélico.
No domingo passado, aprofundamos em Jesus que percorre Galileia anunciando a boa nova. Hoje vemos Jesus subindo um monte acompanhado de uma multidão que, com desejo de segui-lo, escuta sua palavras, recebe seu consolo.

Quem são essas pessoas?

Nos versículos que precedem o Sermão da Montanha, Mateus diz: "Doentes atingidos por diversos males e tormentos: endemoninhados, epilépticos e paralíticos, numerosas multidões da Galileia, da Decápole, de Jerusalém, da Judeia e do outro lado do rio Jordão começaram a seguir Jesus" (Mt 4, 24-25).
Pessoas ficaram impressionadas com suas atitudes no meio do povo, e sua pessoa os atrai, desejam escutá-lo e possivelmente receber algum milagre, alguma cura. A procissão de todos os que sofrem, dos marginalizados em busca de cura de suas mais diversas enfermidades...
Imaginemos essa cena, e cada um e cada uma de nós faz parte desse grupo dos que seguem Jesus. É um caminho que oferece dificuldades. Não sabemos até onde deseja ir, mas confiamos nele, mais ainda, necessitamos dele.
Gente sem importância, sem poder, sem reconhecimento social... A procissão de todos os que sofrem, dos marginalizados em busca de cura de suas mais diversas enfermidades...
Jesus cura a todos. Mas tem algo a mais a oferecer-lhes: a possibilidade de formarem um novo Povo de Deus, um povo que se esforce por construir um mundo melhor!
A cena se passa num monte que, na Bíblia, significa lugar da revelação divina: lembremo-nos do Sinai, onde Javé, por meio de Moisés, revelou-se ao povo de Israel.
Jesus senta-se para falar, assumindo, assim, a posição típica do mestre na cultura hebraica. Moisés assinala um limite até onde o povo, que peregrinava no deserto procurando a Terra Prometida, podia aproximar-se dele. Jesus apresenta muita proximidade com todos e todas que estão ali. Não há limite, qualquer pessoa pode estar perto dele. Nesse gesto, Jesus apresenta-nos que suas palavras são para todos e todas, sem distinção nenhuma.
Acomoda-se um grupo de pessoas: são seus discípulos e discípulas que, sentados a seus pés, escutam-no com as multidões.
Que revelação nos quer fazer Jesus neste sermão? Quer anunciar-nos e apresentar-nos, a nós, seus seguidores e seguidoras, o caminho que leva à felicidade e à santidade.
Todo ser humano quer e busca ser feliz e tem como vocação pessoal a santidade. Essas duas realidades: alegria e santidade - parecem, não raro, opostas.
Jesus apresenta-as intimamente ligadas. Por isso, baseado na sua experiência, o apóstolo Paulo escreve aos Coríntios: "Irmãos, fiquem alegres. Procurem a perfeição e animem-se. Tenham os mesmos sentimentos, vivam na paz, e o Deus do amor e da paz estará com vocês" (2 Cor 13, 11).
Que visão tenho eu dos cristãos? Rosto compungido, corpo arcado pelo peso de penitências, vida marcada por tristeza, depressão, solidão... ou alegria animada, solidária e contagiante?
Como ser santo e alegre nos dias atuais, tão angustiosos e trágicos, eivados de problemas?
Acreditou-se – e ainda se acredita – que a santidade é algo que só se adquire à custa de um imenso esforço; que sua chave se encontra em cansativa força de vontade; que ela é sinônimo de perfeição plena, ausência de erros e de fragilidades, privilégio, portanto, de poucas pessoas que a ela são chamadas.
Jesus, nesse discurso das Bem-Aventuranças, aponta-nos o caminho de acolhida da alegria, generosidade, liberdade, capacidade interior que ele nos oferece para fazer parte do seu povo e viver assim a Lei do Amor. Por isso disse o papa Francisco: “As bem-aventuranças são a carteira de identidade do cristão, que o identifica como seguidor de Jesus. Somos chamados a ser bem-aventurados, seguidores de Jesus, enfrentando os sofrimentos e angústias do nosso tempo com o espírito e o amor de Jesus”. 
Aceitar, permanecer, crescer e perseverar na construção deste Reino no mundo: eis o caminho a percorrer na rota da santidade!
À primeira vista, as atitudes de vida propostas por Jesus não foram, em seu tempo, nem são ainda hoje, valorizadas: como podem ser felizes os pobres, os sofredores, os perseguidos?
A resposta se encontra na segunda parte de cada uma das oito sentenças enunciadas por Mateus que confluem, todas elas, para o mesmo ponto: a participação no Reino de Deus já agora, em germe e em esperança e, plena e perfeita, na eternidade, vivendo de sua Vida, usufruindo de seu Amor e gozando de sua Paz perpétua!
A concretização desses valores se expressa de muitas maneiras. Atestam-no, ao longo da história, homens e mulheres que os viveram até as últimas consequências. O texto mostra esta pluralidade de expressões. Todas elas apresentam uma marca comum: a prática do mandamento único do amor.
Jesus nos convida a participar desta multidão, entrar no Reino de Deus e abraçar a proposta do Evangelho como um caminho que nos leva a viver neste terra com um espirito diferente. Responder assim aos apelos do Reino de Deus e fazer parte da construção do povo de Deus.
Como escreve o cardeal Gianfranco Ravasi: "O cristão 'bem-aventurado', portanto, é aquele que eleva o olhar para o alto, para o eterno e o infinito, e escuta uma mensagem contra a corrente, desconcertante e até provocatória." (Texto completo: "As Bem-aventuranças, caminhos de montanha ou de planície que levam ao céus. Artigo de Gianfranco Ravasi)

Deixo ecoar no meu interior aquela bem-aventurança que me sinto chamado especialmente a abraçar.
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