sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Pedofilia no clero, uma crise moral e doutrinária

[abim]
Por Roberto de Mattei (*)



O diário “Il Tempo”, de Roma, dirigido por Gian Marco Chiocci, publicou no dia 8 de outubro ampla reportagem dedicada à difusão da pedofilia no clero italiano. Triste fenômeno, que resultou em 130 sacerdotes condenados e 100 processados. Para erradicá-lo, o padre Nicola Bux declarou em entrevista ao referido cotidiano que “é preciso ter a coragem de dizer que a pedofilia é conexa à homossexualidade. Todos o negam, mas os estudiosos e especialistas afirmam que é assim”. Reportamo-nos à contribuição de Roberto de Mattei publicada em “Il Tempo” sob o título Crise moral e doutrinária.
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A difusão da pedofilia no clero é uma das muitas manifestações da profunda crise moral que explodiu nas últimas décadas dentro da Igreja. Bento XVI, que na Via Crucis de 2005 denunciou a “sujeira na Igreja”, sempre se expressou por uma linha extremamente rigorosa contra os abusos do clero, sublinhando a urgência de uma reforma moral da Igreja. Entre suas muitas declarações nesse sentido, destaca-se a Carta aos católicos da Irlanda, de 19 de março de 2010.
Às vezes, porém, a pedofilia é utilizada instrumentalmente para desqualificar o clero como um todo, e propor a abolição do celibato como solução para o problema. Na verdade, a pedofilia não afeta senão uma parte mínima do clero, e os casos de padres pedófilos não nos devem fazer esquecer a existência de sacerdotes acusados ​​falsamente, como o padre Giorgio Govoni, pároco da Bassa Modenese, acusado por um assistente social no final dos anos noventa de liderar um grupo de “satanistas pedófilos”. O Supremo Tribunal confirmou em 2002 a decisão do Tribunal de Recurso de Bolonha, segundo o qual o sacerdote havia sido difamado injustamente. Mas o padre Govoni, atingido pela vergonha, morreu em 19 de maio de 2000 de ataque cardíaco, no escritório de seu advogado.
Além disso, segundo o sociólogo Philip Jenkins, um dos principais estudiosos da pedofilia no clero, a taxa de padres condenados por abuso infantil varia, de acordo com as áreas geográficas, de 0,2% a 1,7% do total, enquanto que para ministros protestantes ela é de 2 a 3%. Nos Estados Unidos, em particular, a presença de pedófilos entre os pastores protestantes supera de duas a dez vezes aquela existente entre padres católicos.
A estatística é importante, porque o fato de os pastores protestantes serem quase todos casados demonstra que o problema não reside de modo algum no celibato dos sacerdotes. Outro estudo da John Jay College of Criminal Justice da City University of New York, citado pelo sociólogo Massimo Introvigne, afirma que mais de 80% dos padres incriminados por pedofilia são de orientação homossexual.
Isso não estabelece a equivalência entre homossexualidade e pedofilia, mas confirma que a solução do problema não está no casamento dos padres. Deve também ser dito que dentro da Igreja Católica se espalhou uma cultura hedonista e relativista, existindo hoje seminários, faculdades de teologia e instituições religiosas nas quais a homossexualidade, ou pelo menos uma tendência homossexual, é considerada irrelevante do ponto de vista moral e pacificamente tolerada. Mas as práticas homossexuais, que ao contrário da pedofilia não são crime na maioria dos países, continuam a ser um grave pecado para a Igreja Católica e a sua propagação no interior do clero deveria provocar na Hierarquia eclesiástica um alarme que tem faltado.
O verdadeiro problema reside no fato de a crise moral da Igreja vir acompanhada de uma crise doutrinária. A Igreja, em vez de converter o mundo com a lei do Evangelho, parece querer adaptar o Evangelho às exigências do mundo. É o caminho que parece indicar a Exortação Amoris laetitia do Papa Francisco, cujo equívoco de fundo está na ilusão de que, acolhendo com “misericórdia” as tendências amorais da cultura contemporânea, será a sociedade, e não a Igreja, quem vai renunciar à sua identidade.
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Fonte: “Il Tempo”, Roma, 8-10-2016. Matéria traduzida do original italiano por Hélio Dias Viana.

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