quinta-feira, 22 de setembro de 2016

O grande "gelo" entre o Papa Francisco e os bispos: o desafio que divide a Igreja

[ihu]



Existe um desconforto às vezes profundo entre os bispos e o papa, e Bergoglio explica, mas não muda. E, silenciosamente, eles protestam e resistem: "A misericórdia não é suficiente".
A reportagem é de Carlo Di Cicco, publicada no sítio Tiscali, 18-09-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Entre os bispos e o Papa Francisco está em curso uma partida importante, talvez a mais importante para que o futuro da Igreja Católica seja diferente do passado, mais próximo das necessidades das pessoas e mais distante das alianças com os poderosos e os poderes do mundo.
Trata-se de uma partida de resultado não óbvio, que se joga com arte refinada do florete e não com as espadas. Tão refinada que nem sempre aparece aos olhos de todos, mas apenas dos especialistas das coisas eclesiásticas. Especialistas que, há algum tempo, vão detectando sinais de um certo desconforto com o qual muitos bispos e cardeais, não só na Cúria romana, mas em diferentes partes do mundo, acompanham os pedidos do Papa Francisco, que quer levar a Igreja a trabalhar no fronte da misericórdia.
Não se trata de uma operação simples, porque, na Igreja, convivem muitas culturas, muitas sensibilidades, muitas histórias e muitas tradições. A intenção do papa é de respeitar as diversidades, na medida em que se movem no contexto inovador da misericórdia.
Isso significa passar de uma Igreja percebida pelas pessoas como uma estrutura rígida à qual as pessoas devem sacrificar grande parte da sua vida a uma Igreja percebida como estrutura próxima das pessoas, capaz de entender e compartilhar as suas dificuldades, esforços, feridas. Uma Igreja samaritana que se detém para enfaixar e curar as fraquezas, em vez de impiedosa que passa ao largo daqueles que não são perfeitos. Uma Igreja que, caminhando ao lado das pessoas, se comporta como Jesus, bom pastor que acolhe a todos e respeita os tempos de todos para se pôr a agir de acordo com o Evangelho.
Os bispos, em sua maioria, compartilham essa indicação no plano dos princípios, mas cresce o número daqueles que não entendem aonde Bergoglio efetivamente quer levar a Igreja, sem indicar, ao mesmo tempo, as regras que ajudem no caminho da conversão.
O desconforto de vários bispos, também italianos, apenas raramente se tornou público, mas, até agora, tenta se espalhar através de murmurações, boatos, fofocas: um modo que Francisco rejeita e repreende. Mas são rumores fundamentados, recolhidos e contados também por uma revista católica italiana considerada de renome e informada. Lá, leem-se desafogos documentados – embora anônimos – de muitos bispos. Estes se sentem repreendidos pelo papa, em vez de compartilhados, e enfatizam que dar a prioridade a uma Igreja em saída e hospital de campanha para os mais fracos, os pobres e os sofredores pode fazer sentido, mas o que fazer com todo o restante sobre o qual se ergueram as comunidades diocesanas e paroquiais?
Nas reformas iniciadas no Vaticano, ele tenciona levar na direção de realizar uma Igreja da misericórdia, para a qual são necessários bispos bons pastores mais do que burocratas e administradores.
Justamente nestes dias, ao se encontrar com os bispos recém-nomeados, ele lhes lembrou da necessidade de que "a misericórdia forme e informe as estruturas pastorais das nossas Igrejas. Não tenham medo de propor a Misericórdia como resumo daquilo que Deus oferece ao mundo, porque o coração do homem não pode aspirar a nada maior".
Bergoglio não se sente isolado no grande projeto de içar a bandeira da misericórdia como bandeira da Igreja do Concílio. Como Bento XVI, "meu venerado e sábio predecessor", ensinou, é "a misericórdia que põe um limite ao mal. Nela, expressa-se a natureza totalmente peculiar de Deus – a sua santidade, o poder da verdade e do amor". Ela é "o modo com o qual Deus se opõe ao poder das trevas com o seu poder diferente e divino", justamente "o da misericórdia". Portanto, não se deixem assustar pela prepotente insinuação da noite.
"O rosto da Misericórdia é Cristo." Assim, "sejam bispos capazes de acompanhar", como o bom samaritano. "Sejam bispos com o coração ferido por tal misericórdia e, portanto, incansável na humilde tarefa de acompanhar o homem que, ‘por acaso’, Deus colocou no caminho de vocês." O primeiro acompanhamento é para os sacerdotes, aqueles que estão no meio das pessoas todos os dias. Muitos problemas existem porque nem sempre o clero serve o povo de Deus, mas se serve dele. Requer-se uma requalificação do clero.
Francisco não se deixa intimidar por resistências verdadeiras ou supostas. Ele joga o jogo do consentimento sopesado também com os núncios. Ao se encontrar com eles para um jubileu sem precedentes, Francisco lhes lembrou que, em Roma, está Pedro, "no papa que a providência quis que houvesse".
"Obrigado – disse ele aos núncios – pela fidelidade com que vocês interpretam com o coração indiviso, com a mente íntegra, com a palavra sem ambiguidades aquilo que o Espírito Santo pede a Pedro para dizer à Igreja neste momento. Obrigado pela delicadeza com que vocês ‘auscultam’ o meu coração Pastor universal e tentam fazer com que esse fôlego alcance as Igrejas às quais sou chamado a presidir na caridade."
Ele não discute a fidelidade, mas a considera como um pré-requisito para fazer os núncios. Por isso, ele também lhes recorda o mandato de fidelidade a uma Igreja da misericórdia e da proximidade às pessoas. "Que a relação de vocês com a comunidade civil se inspire na imagem evangélica do Bom Pastor. Que o verdadeiro poder da Igreja brote do coração de Cristo, e, portanto, seja o poder da Misericórdia. Essa consciência nos impulsiona a dialogar com todos e, em muitos casos, a nos fazer voz profética dos marginalizados pela sua fé ou pela sua condição étnica, econômica, social ou cultural: que o seu grito se torne o nosso e, juntos, possamos despedaçar a barreira de indiferença que, muitas vezes, reina soberana para esconder a hipocrisia e o egoísmo."
O papa não esconde que se trata de um projeto de longo prazo que requer anos e, por isso, confessa que "uma das minhas grandes preocupações diz respeito à seleção dos futuros bispos".
Com o tempo, o papa e os bispos vão se entender melhor? Francisco está convencido disso, ao ressaltar "a exigência que cada vez mais devemos assumir": a de "operar em uma rede unitária e coordenada".
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