sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Falando em misericórdia

[abim]
Por Ivan Rafael de Oliveira


“Falai-lhes das misericórdias infinitas de Deus”, foi uma recomendação dada por São Francisco Xavier para atender em confissão a pecadores habituados ao vício. Já para as pregações, exortava esse santo jesuíta em sua epístola:
“Moderai sempre as vossas observações pela doçura da voz, benevolência no olhar, escolha de expressões, e que um sorriso amável acompanhe as vossas palavras; além disso, fazei ver que um sentimento de caridade é o que unicamente vos inspira”.
Pregar a misericórdia de Deus e a caridade para com os pecadores em nada é novidade para a Igreja fundada por Jesus Cristo, para a Igreja que cultua a Santíssima Virgem, que é Mãe de Misericórdia. Mas numa época em que outras virtudes e predicados de Deus são omitidos, essas palavras, tomadas isoladamente, bem podem causar equívocos de interpretação.
Uma pessoa que exercitasse apenas uma parte de seu corpo, deixando o resto definhar, acabaria por prejudicar e perder o corpo inteiro. Com isso em vista, a Igreja sempre pregou as verdades inteiras, sem esconder dos fiéis as obrigações que cada qual deve cumprir para salvar sua alma.
As belas palavras acima citadas, dirigidas a um jesuíta que partia em missão, longe de perderem o espírito apostólico, aumentam ainda em fecundidade quando lemos outros princípios contidos na mesma carta do grande apóstolo das Índias, São Francisco Xavier.
Aconselhando o melhor modo de converter as almas através da pregação, escreveu o Apóstolo das Índias: Fazei (nas pregações) sobressair a majestade infinita de Deus e a enormidade do pecado que o ultraja. Imprimi nos espíritos a crença da aterradora sentença que será fulminada contra os réprobos no dia do julgamento final”.
“Apresentai com todos os recursos da eloquência, os suplícios eternos para os que forem condenados. Falai, finalmente, da morte e da morte súbita aos que vivem na indiferença e no [esquecimento] da sua salvação, com uma consciência carregada de crimes”.
“A todas essas considerações, acrescentai a da paixão e morte do Salvador dos homens, mas fazei-o de uma maneira tocante, patética, própria para excitar nos corações uma viva dor dos pecados cometidos, e a comovê-los até as lágrimas. Eis aí o que eu desejo que exponhais e torneis bem claro nos vossos sermões”.
São Francisco bem sabia que “a repreensão é de si mesma desagradável e amarga”, mas não hesita em advertir: “Encontrareis cristãos que não creem na presença real de Jesus Cristo no Santíssimo Sacramento do Altar. Esta incredulidade vem do afastamento dos sacramentos ou do seu contato habitual com os pagãos, maometanos e heréticos; outras vezes pelo escândalo que dão outros cristãos, e, digo-o com grande pesar e vergonha, pelos Padres cuja vida desonra o seu ministério! O povo, vendo-os subir ao altar sem preparação e sem respeito, supõe que eles próprios não têm fé na presença de Jesus Cristo no sacrifício da missa”.
Muitos hoje alegariam que tal linguagem já não está mais conforme o espírito moderno, e que as pessoas do século XXI não entendem mais essa forma de “radicalismo”. Mas essa linguagem seria, por acaso, conforme o espírito pagão da Índia do século XVI? Teria a decadência moderna ido tão fundo, que os próprios católicos de hoje estariam menos receptíveis à lei de Deus que os hindus de São Francisco?
Esse célebre santo jesuíta bem poderia hoje ser acusado de querer transformar o púlpito em um lugar de torturas. Mas os milhares de almas que, graças ao apostolado de São Francisco Xavier, hoje cantam as glórias eternas de Deus, saberiam defendê-lo.
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Todas as citações do artigo procedem da carta de São Francisco Xavier ao Padre Gaspar Barzeu, escrita em Goa, em 1549. Fonte: São Francisco Xavier, Apóstolo das índias, autor J. M. S. Daurignac, editora Livraria Apostolado da Imprensa, 1959, quinta edição.
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