quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Membros da comissão sobre diaconato feminino de Francisco expressam opiniões diferentes


Os membros da nova comissão do Papa Francisco para estudar se as mulheres podem atuar como diaconisas na Igreja Católica expressaram, no passado, uma variada gama de opiniões sobre o assunto, com alguns claramente apoiando a possibilidade e outros dizendo que não há precedentes históricos sólidos em que se basear.
A reportagem é de Joshua J. McElwee, publicada por National Catholic Reporter, 09-08-2016. A tradução é de Isaque Gomes Correa.
Pouquíssimos membros da comissão – compreendendo seis homens e seis mulheres e coordenados pelo arcebispo Luis Ladaria – fizeram comentários públicos desde que seus nomes foram anunciados em um breve comunicado de imprensa emitido pelo Vaticano em 2 de agosto.
Sendo que muitos dos especialistas nomeados são teólogos ou acadêmicos de outras áreas, alguns – como a membro e correspondente do National Catholic Reporter Phyllis Zagano, da Hofstra University – escreveram extensivamente sobre o tema no passado.
O padre jesuíta Bernard Pottier, participante da comissão e teólogo do Institut d’Études Théologiques, de Bruxelas, é coautor de um livro sobre o diaconato publicado em 1998 junto com o Pe. Alphonse Borras, sacerdote da diocese belga de Liège. Alphonse Borras é teólogo e trabalha na Universidade Católica de Louvain.
O livro, intitulado “La grâce du diaconat, Questions actuelles autour du diaconat latin” (A graça do diaconato: questões atuais em torno do diaconato latino), está esgotado.
Mas um resumo de seu conteúdo que contém algumas citações da obra foi publicado numa edição de 2001 da revista francesa Recherches de Science Religieuse e está disponível online. [1]
O resumo mostra que os autores defendem a ideia de que vestígios históricos de mulheres que atuavam como diaconisas na Igreja primitiva apontam que elas receberam a ordenação ao diaconato de uma maneira semelhante à de seus homólogos masculinos.
O texto afirma que os autores citam uma obra de 1972 escrita por outro francês – intitulada “The ministry of women in the early church” (O ministério da mulher na Igreja primitiva), de Roger Gryson – para indicar que, nos primeiros séculos da Igreja, as diaconisas “fazem parte indiscutivelmente do clero. Elas recebem uma ordenação conferida pela imposição das mãos e uma oração do bispo”.
No resumo, vê-se que os autores observam que a Igreja latina preservou as fórmulas para a ordenação de diaconisas até 1962, e que os autores se referem ao argumento de um renomado teólogo dominicano – Yves Congar – segundo o qual a ordenação de mulheres ao diaconato “possuía uma qualidade sacramental”.
O resumo diz ainda que os autores criticam a carta apostólica Ordinatio Sacerdotalis, do Papa João Paulo II, publicada em 1994, que diz que a Igreja não tem autoridade para ordenar mulheres, bem como o documento de 1974 intitulado Inter Insignores, da Congregação para a Doutrina da Fé, que explica a postura anterior dessa congregação contra a ordenação feminina.
Os autores, segundo o resumo consultado, dizem que tais documentos são “uma contradição em termos”, na medida em que o Magistério “não pode declarar o caráter infalível (...) de uma doutrina já de posse da Igreja”.
Segundo a mesma fonte, autores concluem o livro afirmando que a questão de diaconisas ordenadas sacramentalmente “ainda precisa amadurecer” e que “não cai na categoria de causa finita”, quer dizer, não é um caso encerrado.
O Pe. Karl-Heinz Menke, membro da comissão papal para o diaconato feminino, da Comissão Teológica Internacional, do Vaticano, e teólogo da Universidade de Bonn, na Alemanha, vem defendendo o oposto: diz que vestígios históricos mostram que as diaconisas na Igreja primitiva não ocupavam uma função sacramental.
Em artigo de 2013 publicado na revista alemã Theologie und Philosophie, Menke afirma: “Há provas evidentes de que, a partir do século III em diante, havia diaconisas. Porém é igualmente incontestável que elas nunca foram consideradas com tendo uma função sacramental”.
O teólogo alemão cita vários estudiosos do tema, entre eles o falecido Aimé Georges Martimort, teólogo francês que participou do Concílio Vaticano II; o Cardeal Gerhard Müller, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé; e o falecido Hans Jorissen, teólogo alemão.
Menke identifica Jorissen como um autor a favor da ordenação feminina ao diaconato e traz citações da própria obra jorisseniana para argumentar que o diaconato feminino na Igreja primitiva não era considerado como estando no mesmo nível do diaconato masculino.
“Mesmo onde as diaconisas são ordenadas estendendo-se as mãos e por epiklesis [invocação do Espírito Santo] analogamente à ordenação de diáconos conforme as Constituições Apostólicas e, sobretudo, no Rito Bizantino, achados históricos não permitem falar das duas ordenações com sendo uma mesma coisa”, escreveu Menke citando Jorissen.
Embora Menke pareça concluir que as provas históricas de diaconisas não apoiam a ordenação de mulheres ao diaconato hoje, ele também defende uma melhor inclusão delas nos cargos de tomada de decisão na Igreja, ao afirmar: “A igualdade de gênero é essencial”.
“Pode parecer utópico, mas o papa poderia – sem infringir a ordenação sacramental – mudar o Direito Canônico de tal modo a permitir que organismos eclesiásticos compostos igualmente de homens e mulheres elejam bispos e também o papa, ele poderia possibilitar que mulheres sejam vigárias-gerais e assumam funções eclesiásticas importantes, e poderia envolvê-las nas tomadas de decisão em todos os níveis”, afirma Menke.
Menke reiterou vários dos pontos que trouxe em seu artigo de 2013 em uma entrevista no dia 4 de agosto ao jornal alemão Die Welt. Aqui, ele em particular salienta que Francisco poderia incluir as mulheres nos cargos de chefia sem ordená-las ao diaconato ao decidir que o cardinalato “deve ser aberto às mulheres e não somente a homens ordenados”.
O teólogo também contou ao jornal alemão que os membros da comissão ainda não foram inteirados do escopo de suas tarefas, mas supôs que o papa quer que o grupo determine se a reintrodução do diaconato feminino serviria à missão da Igreja hoje.
A irmã franciscana Mary Melone, membro da comissão e a primeira reitora da Pontifícia Universidade Antonianum, de Roma, falou em maio sobre a possibilidade de haver diaconisas em uma entrevista ao jornal italiano Corriere della Sera.
Ela conversou com o jornal depois que Francisco prometera à União Internacional das Superioas Gerais – UISG criar uma comissão para estudar o assunto.
“Creio que seria um sinal importante que vai inclusive além do diaconato em si”, disse Melone. Essa afirmação do papa expressa novamente o seu desejo de assegurar às mulheres um papel efetivo nas tomadas de decisão na Igreja”.
“Não é uma questão de poder”, continuou. “Francisco não compreende o ministério ordenado no sentido de poder, mas como um serviço à comunidade”.
“Quando nós mulheres dizemos que é importante estar nos níveis decisórios, onde a Igreja consulta sobre si mesma, não é para ocupar espaços de poder”, afirmou a irmã.
“Estar presente nas congregações vaticanas é um objetivo importante, mas não é o único resultado que as mulheres almejam”, disse. “O fundamental é a consciência de que a autoridade delas ajuda a Igreja a crescer”.
Perguntada sobre as pessoas que farão resistência à ideia de diaconisas por medo de que isso levará à ordenação delas ao sacerdócio, Melone respondeu: “O importante é que não haja uma desculpa para excluir as mulheres da possibilidade de trabalhar no sentido de participar de espaços decisórios dentro da Igreja”.
“Não acho que o sacerdócio ordenado deva ser a única condição para garantir um papel significativo à mulher”, continuou a religiosa. “Por outro lado, claro está que o ministério garante formas de poder negado a outras pessoas”.

Nota
[1] Ver “Bulletin de théologie sacramentaire” disponível em francês aqui.
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