segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Igreja já tem candidatas a diaconisas


Ministra da Palavra e coordenadora de comunidades eclesiais de base (Cebs), uma vida toda dedicada ao serviço dos pobres, Célia Aparecida Leme, de 55 anos, é candidata na medida certa a diaconisa, se a Igreja instituir o diaconato feminino – hipótese bastante provável, depois de o papa Francisco ter nomeado, na semana passada, uma comissão para estudar a questão.
A proposta entusiasma agentes de pastoral, teólogos e teólogas, a começar pelas mulheres, mesmo se prevendo resistência a mais essa revolução do papa. “Se eu fosse chamada pela comunidade da paróquia Santa Rosa de Lima, em Perus, onde atuo, gostaria de ser ordenada diaconisa e me sinto preparada para essa missão”, disse Célia.
A reportagem é de José Maria Mayrink, publicada por O Estado de S. Paulo, 07-08-2016.
Funcionária municipal do setor de supervisão da cultura e solteira, ela é formada em Teologia pela Faculdade Nossa Senhora da Assunção, da Arquidiocese de São Paulo. Na paróquia de nove comunidades e dirigida por dois padres, Célia lê e comenta trechos da Bíblia, como ministra da Palavra. Na falta do sacerdote, preside celebrações.
O rito da celebração é igual ao da missa, só não tem a consagração eucarística, que apenas os padres e bispos podem fazer. A mesma coisa ocorre nas cerimônias presididas pelos diáconos permanentes para homens casados. O povo aceita bem a liderança das mulheres.
Essa sensibilidade feminina, acrescenta Célia, aplica-se bem à diaconia, palavra que em grego significa “serviço”. Os diáconos e diaconisas da Igreja Primitiva ajudavam os apóstolos a cuidar dos pobres. “Ajudar o bispo na assistência aos pobres continua sendo sua vocação”, afirma o jornalista Pedro Fávaro, casado e pai de duas filhas e um filho, há 18 anos diácono permanente da Diocese de Jundiaí. “É incomensurável a quantidade de mulheres que atuam no serviço à Igreja, sejam leigas ou religiosas, nos limites, na periferia da humanidade, como diz o próprio Francisco.”
Adesão
“As mulheres vão aderir em grande número ao diaconato”, prevê a teóloga Maria Clara Bingemer, professora do Departamento de Teologia da Pontifícia Universidade Católica (PUC), no Rio. “Alunas minhas já manifestaram interesse.” A instituição do diaconato feminino será muito útil para o Brasil, na avaliação da teóloga, porque 70% das comunidades da Igreja não têm eucaristia, por falta de padres para celebrar missa. Maria Clara não tem dúvida de que haverá oposição de grupos conservadores, porque a ordenação de diaconisas vai abrir uma porta para a discussão sobre a admissão de mulheres no sacerdócio.
Será inevitável, concorda o teólogo padre José Oscar Beozzo, estudioso da História da Igreja. Como o diaconato é o primeiro grau do sacramento da Ordem, por que, sendo admitidas a ele, as mulheres não poderiam também chegar ao sacerdócio e ao episcopado, os dois graus superiores? Beozzo acredita que a instituição do sacerdócio feminino seria o passo seguinte. Igrejas protestantes históricas já ultrapassaram essa questão, algumas têm mulheres até no episcopado.
“Sinto esperança e alegria por essa abertura efetiva para nós mulheres na Igreja”, disse a teóloga Maria Cecília Domezi, professora de Teologia e de História da Igreja no Itesp, Faculdade de Teologia de São Paulo. Será um processo difícil, prevê a teóloga, porque mexe em uma tradição de 2 mil anos.
País tem hoje 5 mil diáconos
Restaurada pelo Concílio Vaticano II, encerrado em 1965, a instituição do Diaconato Permanente foi bem aceita pela maioria das dioceses brasileiras. Hoje há cerca de 5 mil diáconos em atuação no Brasil, 3.849 deles são filiados à Comissão Nacional dos Diáconos, da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).
Na área da Arquidiocese de São Paulo, eles são 75. Em sua grande maioria, são homens casados. Solteiros que se tornam diáconos não podem se casar após a ordenação.
Os diáconos leigos participam das celebrações eucarísticas (missas) ao lado dos padres, mas não podem fazer a consagração da hóstia nem ouvir a confissão dos fiéis. Eles podem pregar o Evangelho, distribuir a comunhão, celebrar casamentos e fazer as exéquias (encomendação dos defuntos), embora não lhes seja permitido administrar a Unção dos Enfermos (antes conhecida como Extrema Unção).
Também recebem a Ordem do Diaconato os seminaristas que se preparam para o sacerdócio. Eles são chamados de diáconos transitórios, têm os mesmos poderes dos diáconos permanentes e costumam fazer estágio nas paróquias antes de serem ordenados padres.
Caso seja aprovada a instituição do diaconato feminino pela Igreja, as mulheres teriam as mesmas atribuições dos homens do Diaconato Permanente. A Igreja estima que elas seriam em maior número do que os homens.
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