quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Francisco cria comissão para estudar diaconisas, nomeando membresia equilibrada em termos de gênero


O Papa Francisco criou uma comissão para estudar a possibilidade de permitir que mulheres atuem como diaconisas na Igreja Católica, dando sequência a uma promessa feita em maio passado naquilo que pode ser um movimento histórico no sentido de pôr fim à prática da instituição de ter um clero somente masculino.
A reportagem é de Joshua J. McElwee, publicada por National Catholic Reporter, 02-08-2016. A tradução é de Isaque Gomes Correa.
O pontífice nomeou um número igual de especialistas homens e mulheres como membros da comissão, a ser coordenada por Dom Luis Francisco Ladaria, jesuíta que trabalha como o segundo em comando na Congregação para a Doutrina da Fé.
Em um comunicado que anunciava a criação da comissão nesta terça-feira, 09-08-2016, o Vaticano afirmou que o papa decidiu estabelecer o grupo “depois de intensa oração e de uma amadurecida reflexão” e que quis que ela estude particularmente a história do diaconato das mulheres “especialmente no que diz respeito aos primeiros tempos da Igreja”.
O nome formal dado ao grupo é “Comissão de Estudo sobre o Diaconato das Mulheres”. Os membros da comissão incluem especialistas em teologia patrística, eclesiologia e espiritualidade.
Entre outros nomes, destacam-se a Irmã Mary Melone (franciscana), reitora da Pontifícia Universidade Antonianum em Roma, e Phyllis Zagano, pesquisadora sênior na Hofstra University, em Nova York, colunista do National Catholic Reporter.
Incluídos no grupo estão seis membros do corpo docente de universidades pontifícias, quatro membros da Comissão Teológica Internacional e um membro da Pontifícia Comissão Bíblica.
Entre os nomeados estão seis padres, quatro leigas e duas religiosas.
Como é sabido, Francisco prometeu criar esta comissão durante um encontro no Vaticano com cerca de 900 líderes das congregações religiosas femininas de todo o mundo, que estavam em Roma para a reunião trienal da União Internacional das Superioras Gerais – UISG.
Durante uma sessão de perguntas e respostas com o pontífice no dia 12 de maio, elas contaram a Francisco que mulheres haviam atuado como diaconisas nos primórdios da Igreja e, em seguida, perguntaram: “Por que não construir uma comissão oficial que poderia estudar a questão?”
“Estou de acordo”, respondeu o papa. “E vou falar para fazer uma coisa desse tipo”.
Mais tarde, em coletiva de imprensa com os jornalistas em junho, o papa disse que havia pedido ao Cardeal Gerhard Müller, prefeito da Pontifícia Congregação para a Doutrina da Fé, e à Irmã Carmen Sammut, presidente da UISG, para comporem uma lista de pessoas que ele poderia levar em conta na composição do grupo.
A abertura do papa em estudar a possibilidade de mulheres servirem como diaconisas poderá representar uma mudança histórica para a Igreja Católica mundial, que não ordena mulheres para o clero.
O Papa João Paulo II afirmou em sua carta apostólica de 1994 Ordinatio Sacerdotalis que “a Igreja não tem absolutamente a faculdade de conferir a ordenação sacerdotal às mulheres”, citando a escolha feita por Jesus de somente homens para servirem como os seus doze apóstolos.
Muitos historiadores da Igreja dizem, no entanto, que há provas abundantes de que mulheres serviram como diaconisas nos primeiros séculos da Igreja. O apóstolo Paulo menciona uma deles, Febe, em sua carta aos Romanos.
Na era moderna, a Igreja Católica reinstituiu o papel do diácono permanente na sequência das reformas do histórico Concílio Vaticano II, de 1962 a 1965. Esta função papel é, em geral, aberta a homens casados que atingiram a idade de 35 anos.
Tais homens são ordenados, de forma parecida à dos padres, porém só podem conduzir certos ministérios na Igreja.
Embora não possam celebrar a missa, por vezes eles conduzem os trabalhos de oração, oferecem o sacramento do batismo e, até mesmo, administram paróquias na qualidade de administradores pastorais na ausência de padres.

A lista completa dos membros da nova comissão:

Dom Luis Francisco Ladaria, secretário da Congregação para a Doutrina da Fé, jesuíta, atuando na comissão como o presidente;
Irmã Nuria Calduch‑Benages, M.H.S.F.N., membro da Pontifícia Comissão Bíblica;
Profa. Francesca Cocchini, docente na Universidade La Sapienza e no Instituto Patrístico Augustinianum, Roma;
Mons. Piero Coda, diretor do Instituto Universitário Sophia, loppiano, e membro da Comissão Teológica Internacional;
Pe. Robert Dodaro, O.S.A., diretor do Instituto Patrístico Augustinianum, Roma, e docente de patrologia;
Pe. Santiago Madrigal Terrazas, S.I., docente de Eclesiologia na Pontifícia Universidade Comillas, Madri;
Irmã Mary Melone, S.F.A., reitora magnífica da Pontifícia Universidade Antonianum, Roma;
Pe. Karl‑Heinz Menke, docente emérito de teologia dogmática na Universidade de Bonn e membro da Comissão Teológica Internacional;
Pe. Aimable Musoni, S.D.B., docente de Eclesiologia na Pontifícia Universidade Salesiana, Roma;
Pe. Bernard Pottier, S.I., docente no Institut d’Etudes Théologiques, Bruxelas, e membro da Comissão Teológica Internacional;
Profa. Marianne Schlosser, docente de teologia espiritual na Universidade de Viena e membro da Comissão Teológica Internacional;
Profa. Michelina Tenace, docente de teologia fundamental na Pontifícia Universidade Gregoriana, Roma;
Profa. Phyllis Zagano, Docente na Hofstra University, Hempstead, Nova York.
Numa breve entrevista ao National Catholic Reporter nesta terça-feira, Zagano disse que a criação da comissão era uma “oportunidade maravilhosa à Igreja como um todo para que ela olhe a questão da restauração das mulheres ao diaconato”.
“Acho que o importante é que o Santo Padre, em nome da Igreja, vai poder tomar uma decisão num sentido ou noutro sobre se as mulheres podem retornar ao diaconato ordenado”, disse ela.
A pesquisadora, autora de “Women Deacons: Past, Present, Future” junto com Gary Macy e com o diácono William Ditewig em 2011, disse esperar que a comissão “tenha um debate aberto e honesto sobre a história das mulheres no diaconato, sobre as possibilidades de restaurar as mulheres a ele”.
“O debate anterior – o único debate nos tempos modernos – foi o documento de estudo feito pela Comissão Teológica Internacional em 2002, que deixou a questão em aberto”, disse. “É uma boa oportunidade para o Santo Padre tomar uma decisão num ou noutro sentido. Acho que é um sinal de esperança”.
Em um comunicado à imprensa na tarde de terça-feira, um bispo dos EUA saudou a notícia da formação da comissão. O arcebispo de Chicago Dom Blase Cupich, a quem Francisco recentemente nomeou para a Congregação para os Bispos, deu as boas-vindas ao movimento.
“Desde os primeiros dias da Igreja, as mulheres com razão atuaram em cargos importantes de liderança”, disse Cupich. “Mesmo assim, a Igreja precisa fazer mais e melhor. As mulheres merecem ser trazidas mais para dentro dos processos decisórios da Igreja”.
“Estou ansioso para aprender mais sobre o trabalho da comissão (…) na medida em que [os membros] trazem os seus consideráveis talentos para levar adiante este importante tema na vida da Igreja”, declarou o arcebispo.
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