quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Crescer sem Deus. “A nossa verdadeira religião tornou-se a dúvida”

[unisinos]

À pergunta do subtítulo do livro de Franco Garelli ‘Pequenos ateus crescem’. Realmente uma geração sem Deus? Gostar-se-ia de responder: “Sem Deus talvez não, mas sem a Igreja certamente”.
A reportagem é de Marco Marzano, publicada por il Fatto Quotidiano, 01-08-2016. A tradução é de Benno Dischinger.
São dois os dados que sobressaem entre aqueles apresentados pelo sociólogo de Turim nesta sua nova indagação sobre jovens italianos e a fé.
O primeiro é o aumento, impressionante, em diversas formas (ateísmo, indiferença religiosa, agnosticismo, “ateísmo prático”), do não crer em Deus. O segundo é o crescimento (já relevado por outras pesquisas), entre aqueles que ainda creem, de formas de espiritualidade “faz por ti”, ligadas só debilmente à tradição religiosa e fundadas numa elaboração pessoal, numa peculiar relação com a prece, a divindade, o ultramundano.
São dados que confirmam uma tendência de profundo afastamento dos jovens da Igreja Católica, dos seus símbolos, dos seus rituais, das suas práticas. “Da Igreja Católica salvo o empenho com os pobres e os necessitados”, diz um dos entrevistados pela equipe de Garelli, ou seja, o trabalho da Caritas, a atividade assistencial das paróquias. O restante, ou seja, o magistério verdadeiro e próprio à grande maioria dos jovens não diz propriamente nada. Também do atual Papa agrada a tantos o fato de que pareça mais interessado nas questões sociais e políticas do que naquelas propriamente religiosas.
Diante desta situação, o que pode fazer a Igreja Católica? Deve mostrar-se intransigente e resistir, enrijecida em defesa da tradição ou adaptar-se às inéditas exigências espirituais dos jovens, ir ao encontro deles atualizando a sua mensagem?
O coração diz a muitos de nós, de esquerda, e com simpatias reformadoras que, para enfrentar esta situação, a Igreja deveria finalmente modernizar-se, abrindo-se aos valores difundidos na nossa sociedade: à liberdade de consciência, à autonomia do sujeito, ao pluralismo das relações afetivas. Os hierarcas católicos, caso queiram encontrar a complacência dos jovens, deveriam parar de condenar a homossexualidade, aceitar o sexo pré-matrimonial, conceder o sacerdócio às mulheres, etc.
Mas a razão adverte que o número de não crentes, como é confirmado pela pesquisa de Garelli, está entre os jovens em aumento exponencial e isto significa que é sempre mais amplo o número de pessoas completamente estranhas ao “mercado religioso”.
Na Grã Bretanha todas as reformas que os progressistas auspicam foram feitas (pela Igreja anglicana): as igrejas estão mais vazias do que nunca. Também aqueles que mantiveram algum interesse pela dimensão espiritual não estão interessados em cultivá-lo numa dimensão eclesiástica, ou seja coletiva, que implique em um pertencimento estável, uma fidelidade de fundo, uma continuidade vinculante.
A isto somos refratários nós contemporâneos, também na dimensão da fé. A cifra que caracteriza a existência dos jovens ocidentais é aquela da incerteza, não só aquela induzida pelo mercado e suportada como um fardo injusto, mas também aquela escolhida e tornada estilo de vida. A nossa verdadeira religião tornou-se a dúvida. Aqueles que ainda são cristãos se tornaram implicitamente protestantes.
Que espaço têm as igrejas, aquelas reformistas e aquelas conservadoras, num tal cenário? Nenhum ou quase nenhum. Ao deixar a velha via pela nova, as instituições como a Igreja correm o risco somente de perder também os extremos resíduos de sua antiga potência cultural.
Por querer abrir as portas a quem em paróquia não entrará em todo caso jamais, a Igreja expor-se-ia ao risco de perder “aquilo que resta dos católicos”, ou seja, aquelas atualmente poucas e portanto preciosas ovelhinhas que, sobretudo no interior dos movimentos eclesiais ou nas paróquias do Norte, ainda olham para ela com confiança. Para não falar daquilo que a Igreja correria o risco de perder se realmente se tornasse “pobre”, se renunciasse a haveres, contribuições, isenções, privilégios, instituições de crédito. Ou ao desastre que uma virada progressista comportaria fora da Europa, por exemplo, na África, onde o catolicismo (tradicionalismo) cresce entre os fiéis e os sacerdotes.
Adotando este ponto de vista, se compreende como o atual Pontífice representa uma maravilhosa resposta à crise do catolicismo.
Francisco é um Papa pleno de humanidade, um extraordinário comunicador capaz de dar a impressão de que esteja aí para mudar, sem que depois nada mude realmente, sem que nenhuma reforma autêntica jamais seja introduzida para modificar os seculares arranjos internos. Grande retórica que vem acompanhada por fixidez institucional.
Em suma, a Igreja não parece ter perdido a sua milenar sabedoria: os hierarcas sabem que as únicas reformas aceitáveis para não comprometer o futuro da organização são aquelas cosméticas.
Por isso evitaram colocar no degrau mais alto da organização um Gorbatchov, isto é, um verdadeiro reformador que, como ocorreu na Rússia comunista dos anos 1980 com o início da perestroika, que, subtraindo ao edifício um pouco de tijolos com a intenção de reforçá-lo e renová-lo, provocou seu desmoronamento definitivo. Isto à Igreja Católica, para sorte sua, ainda não sucedeu.
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