sexta-feira, 12 de agosto de 2016

As "intenções do Vaticano II" e o diaconato feminino: Menke e a paralisia da tradição. Artigo de Andrea Grillo


"Poderíamos resumir a tese de Menke assim: a elaboração da ‘unidade triádica’ do ministério ordenado – episcopado, presbiterado e diaconato – e a atestação histórica da ausência de mulheres integradas dentro de tal unidade impedem que a Igreja ‘ordene mulheres’, mas não impede que a Igreja lhes atribua autoridade, embora não no nível sacramental do Ordo."
A opinião é do teólogo italiano Andrea Grillo, leigo casado, professor do Pontifício Ateneu S. Anselmo, de Roma, do Instituto Teológico Marchigiano, de Ancona, e do Instituto de Liturgia Pastoral da Abadia de Santa Giustina, de Pádua.
O artigo foi publicado no seu blog Come Se Non, 10-08-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Eis o texto.
Quando eu apresentei as minhas reservas sobre a entrevista concedida pelo professor Karl-Heinz Menke ao jornal Die Welt, há alguns dias, eu já assinalava que, em 2013, ele tinha escrito um longo e documentado artigo sobre o tema do "diaconato feminino", com o título: Die triadische Struktur des Ordo und die Frage nach einem Diakonat der Frau, in: Theologie und Philosophie 88 (2013) 340-371 (A estrutura triádica da Ordem e a questão do diaconato feminino) e me reservava o direito de comentá-lo ao seu tempo.
Agora, gostaria aqui de discutir a sua tese de fundo, que é uma tese "especulativa", ou seja, sistemática, embora alimentada por uma grande riqueza de dados históricos. O texto, de fato, é acompanhado por uma quantidade imponente de "notas" (nada menos do que 123), muitas das quais são ricas em referências bibliográficas e em discussões com outros autores que se pronunciaram sobre o mesmo tema.
De fato, não pretendo resumir as 30 densas páginas do seu estudo cuidadoso, mas busco apenas fazer com que emerjam as linhas de fundo e alguns limites, que prejudicam, a meu ver, uma adequada compreensão da questão atual em torno do "diaconato feminino".
Procedo deste modo: em primeiro lugar, apresento a estrutura do estudo nas suas grandes arcadas (1); depois, examino alguns "pontos críticos" (2) para concluir com algumas questões em aberto que ainda devem ser examinadas (3).

1. Da fidelidade ao Vaticano II à impossibilidade do "diaconato feminino"

Depois de uma premissa não irrelevante sobre o propósito do estudo – restituir ao Vaticano II as suas verdadeiras intenções, sem ser vítima dos "interesses" das diversas escolas – o autor estrutura a sua pesquisa em três passos: o primeiro é dedicado à reconstrução do "desenvolvimento histórico" da relação entre episcopado, presbiterado e diaconato; o segundo é dedicada à "unidade triádica do sacramento da Ordem"; enquanto o terceiro trata da relação entre essa unidade do Ordo e a questão do diaconato feminino.
O centro da argumentação de Menke funciona deste modo: há dois milênios de história, inferimos um critério de "unidade triádica" do Ordo, que se articula em episcopado, presbiterado e diaconato. Elaborado ao longo dos séculos e tendo chega à plena clareza apenas com o Vaticano II, esse "critério hermenêutico" de fidelidade à tradição impõe que se reconheça que tal "ordo" – com essa sua complexidade – sempre foi atribuído, em todos os seus graus, apenas a sujeito do sexo masculino.
O princípio de "unidade triádica" supera todas as oposições tanto entre os diversos graus, quanto entre nível sacramental e nível jurisdicional de exercício da autoridade. Toda forma de distinção residual é rotulada como "gnóstica" ou como "dualista", e a essas posições errôneas são remetidas todas as interpretações do Concílio Vaticano II que antepõem um "interesse pastoral" à verdadeira intenção dos Padres conciliares.
Com base nisso, Menke prossegue à refutação de uma série de estudos possibilistas sobre o diaconato feminino, mostrando a sua contraditoriedade com as verdadeiras intenções do Vaticano II.
Poderíamos resumir a tese de Menke assim: a elaboração da "unidade triádica" do ministério ordenado e a atestação histórica da ausência de mulheres integradas dentro de tal "unidade triádica" impedem que a Igreja "ordene mulheres", mas não impede que a Igreja lhes atribua autoridade, embora não no nível sacramental do Ordo.

2. Preconceitos eficazes, suposições não demonstradas, dados esquecidos

A trama do texto é densa e complexa. Tento trazer emergir alguns de seus fios problemáticos:
- No texto, assiste-se a uma contínua passagem entre plano histórico e plano sistemático. O Concílio Vaticano II se sustenta – deve ser compreendido no plano histórico. Mas a história é compreendida com base em uma interpretação fortemente sistemática do Concílio Vaticano II. Ora, isso não é propriamente escandaloso. Todo bom teólogo sempre procede assim. Nunca há nem história pura nem dogma puro. O que surpreende, em vez disso, é a "culpabilização" de todos aqueles que não assumem a perspectiva – sistematicamente muito frágil – que Menke pretende inferir diretamente dos dados históricos!
- O princípio sistemático de "unidade triádica" da Ordem é utilizado por Menke como critério hermenêutico para impedir toda diferenciação histórica! Isso é verdadeiramente surpreendente. Não só porque une – sub-repticiamente – condições de fato e suposições sistemáticas de forma muito criativa, mas também muito arbitrária; mas também porque se esquece de que o próprio magistério pós-conciliar, em expressões nada secundárias, alterou profundamente essa "unidade triádica". Portanto, por um lado, há uma ênfase extrema em "dados históricos", que imporia uma leitura sistemática unívoca, o que não existe. Mas a leitura sistemática é tão forte, que se esquece, não casualmente, de uma evolução recente do Magistério, que não, de fato, é coerente com a unidade triádica ressaltada com tanta força por Menke. Tem-se a impressão de que se fala de "unidade triádica" para manter as mulheres fora também do diaconato. Mas, depois, se utiliza a diferença interna a tal unidade de um modo tão forçado a ponto de negar que o diácono age "in persona Christi": deve-se notar que esse "fato" nunca é citado por Menke, mas posto pelo Magistério posterior ao Concílio.
- Tento sintetizar essa pequena e grande contradição interna ao texto. Menke diz: se o Ordo é único – embora diferenciado em seu interior – a lógica que vale para um grau deve valer também para os outros. Mas ele parece se esquecer de que o "diaconato uxorado [casado]" tornou-se novamente possível, no Ocidente, há algumas décadas, enquanto presbiterado e episcopado continuam sendo celibatários. A unidade tem em seu interior uma articulação. Não vemos como se pode excluir, com base nisso, que o sujeito da ordenação diaconal possa ser não apenas um homem casado, mas também uma mulher casada ou, talvez, até uma mulher célibe (com alguns riscos a mais)...
- Fiquei bastante surpreso com as linhas iniciais do texto. Nelas, propõe-se uma "revisão" da interpretação do Vaticano II em relação a "duas escolas": a de Bolonha e a de Roma. Não sei se isso depende da distância do autor em relação à Itália, mas é curioso aprender com um teólogo de Bonn que, na Itália, haveria também uma "escola romana" de interpretação do Concílio. Em Bolonha, seguramente há uma escola, com gerações de mestres, alunos, discussões, publicações, revistas, coletâneas. Em Roma, há alguns autores que escreveram sobre o Concílio Vaticano II, de modo até meritório, mas sem escola, sem revistas, sem coletâneas, sem debates... Além disso, Menke, em nota, cita os "autores menores" – Gherardini e De Mattei, autores não de estudos, mas de panfletos – e esquecer o maior – Marchetto, que, ao contrário, escreveu importantes coletâneas de resenhas: encontrar toda essa aproximação no limiar de um artigo que quer ser muito acurado no plano do dado histórico desperta uma certa impressão.

3. As questões verdadeiras e, por isso, esquecidas

No coração do seu texto, Menke diz três coisas extremamente significativas, que eu reproduzo por extenso:
"Naquilo que se segue, faremos a tentativa de inferir a intenção dos textos (conciliares, sobre a hierarquia) a partir da sua pré-história" (p. 340).
"Já desde o final do século II, o agir ex persona Christi perante a Igreja é uma ‘tríade’. Nenhum Padre da Igreja atesta que uma mulher tenha assumido esse múnus sacramental" (p. 368)
"A partir do século III, há ‘diaconisas’, mas é igualmente incontestável que elas não são consideradas como sujeitos de um múnus sacramental" (p. 368).
Se a teoria do "múnus triádico" está clara apenas no século XX, como se pode fazer uso dela como critério de discernimento absoluto para textos dos séculos III e IV?
Aqui, fica evidente a tensão entre uma releitura do Vaticano II com base em "fatos" que o precedem e, ao mesmo tempo, uma interpretação dos fatos com as categorias conciliares, mas propostas em uma interpretação deles nada pacífica.
De todos os modos, o que falta, de um modo totalmente decisivo, é qualquer referência ao "devir cultural" das categorias da "auctoritas" e do "gênero". O ser "mulher" no século IV e nos séculos XX e XXI não é um dado irrelevante para abordar plenamente a questão. Também não é irrelevante a relação que houve e há entre o exercício da autoridade e essa condição natural/cultural do ser mulher.
Para evitar cair na "ideologia do gênero", não se pode, porém, esquecer totalmente a relação cultural entre gênero, poder e vida eclesial. Justamente a pretensão de "isolar-se da história comum" para uma reconstrução asséptica do "tema hierárquico" – assim como parece ser conduzida por Menke – indica claramente uma "escolha de escola", não desprovida de consequências pesadas sobre a análise e sobre a síntese elaborada e proposta. E, talvez, indique também uma dificuldade em captar a "questão feminina na Igreja" no seu significado mais profundo e mais radical, isto é, não como problema nem de iurisdictio nem de ordo, mas de reconhecimento de uma experiência do homem/mulher e de Deus mais rica e mais profunda, justamente por ser diferenciada e não unificável precisamente em nível de "gênero".
Concluo com algumas perguntas. Deixo-as em aberto, intencionalmente, porque permanecem também para mim como questões, às quais não sei dar uma resposta clara:
A leitura do Vaticano II e da sua teoria do "ordo", proposta por Menke, é um ato de fidelidade ao texto conciliar ou um "uso interessado" do texto? Talvez devêssemos admitir com muito mais serenidade que uma oposição entre "texto verdadeiro" e "uso interessado" é uma falsa oposição. Justamente pelo fato de que o Vaticano II não é apenas "objeto", mas também "sujeito" da tradição: tal tradição, em relação com o Concílio, não pode ser reconstruída simplesmente "a partir do seu passado", mas também "a partir do seu futuro". Caso contrário, o Concílio é reduzido, substancialmente, a uma passagem irrelevante.
Aquilo de que Menke acusa abertamente os seus contraditórios – ou seja, de submeter o texto aos interesses do contexto pastoral de recepção – não deveria ser dirigido, acima de tudo, à sua tentativa de solução da questão do diaconato feminino, mediante um "uso sistemático" do Vaticano II interpretado como "fechamento" em vez de "abertura"? Esse "uso" do Vaticano II certamente não é da escola de Bolonha, mas é, precisamente por isso, tão diferente da chamada "escola de Roma"? O seu "interesse" explícito de "negar a questão do diaconato feminino" pode ser lido em continuidade com o Concílio, ou deve ser interpretado como uma perigosa forma de "imunização do Vaticano II"?
Em outras palavras, a "conclusão" sobre o diaconato feminino, para Menke, está realmente "no fim" do texto, como uma lógica e coerente conclusão, ou não seria, em vez disso, o interesse principal que o levou a construir toda a sua fina "máquina histórico-dogmática" em função puramente defensiva? Só para que a Igreja possa se permitir reconhecer, também aqui, que não têm qualquer autoridade justamente sobre a atribuição da autoridade?
A leitura do ensaio não permite responder definitivamente a essas perguntas. Mas, por isso, também não permite pensar a abertura à "autoridade feminina na Igreja" como destinada "necessariamente" a lugares diferente do "ministério ordenado". Essa "necessidade" não é nada evidente, senão para uma auto lógica arriscadamente autorreferencial. A questão, por isso, é mais complexa do que uma tese sistemática imposta não "pelo", mas "ao" Vaticano II.
Portanto, a discussão está apenas no seu início. Mas devemos reconhecer abertamente que, graças também a esse ousado aprofundamento proposto pelo professor Menke, a tradição não estará condenada à paralisia, mas poderá se reconhecer autorizada a seguir em frente, com confiança e sem enrijecimentos, "nos passos do Vaticano II".
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