segunda-feira, 18 de julho de 2016

Ser moderno: apostasia ou dever sagrado?

[ipco]
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Publicamos hoje quatro clichês, dois quais dois reproduzem obras de arte do séc. XV, e os outros dois obras de nossos dias.
Os dois quadros do séc. XV são da autoria de Giovanni da Fiesole, o famoso Fra Angélico, e representam respectivamente a Anunciação de Nossa Senhora, e S. Domingos em oração.
O trabalho em metal é da autoria do artista H. Breucker, e também tem por tema a Anunciação. A escultura de A. Wider, outro artista contemporâneo, representa São Bento, o Patriarca dos Monges do Ocidente.
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Já que nossa secção é eminentemente comparativa, entremos em matéria comparando as duas Anunciações.
A cena famosa da aparição do Arcanjo S. Gabriel a Nossa Senhora constituiu para a humanidade uma hora de graça. Abriu-se o Céu que a culpa de Adão havia cerrado, a dele baixou um espírito de luz e pureza, trazendo consigo uma mensagem de reconciliação e de paz. Essa mensagem se dirigia à criatura mais formosa, mais nobre, mais cândida e mais benigna que nascera da estirpe de Adão. Postas em presença as duas Pessoas, o diálogo se estabelece. Conhecemos pelo Evangelho qual foi a elevação e a simplicidade inefável das palavras então pronunciadas. Tratando de tal tema, a tarefa do artista consiste em exprimir nas fisionomias, nas atitudes, nos gestos, no ambiente, nas cores, nas formas, os valores morais do incomparável acontecimento.
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Se tivéssemos impressão a cores, nossos leitores poderiam sentir melhor quanto Giovanni da Fiesole foi feliz neste objetivo. A nobreza própria à natureza angélica, sua fortaleza leve e toda espiritual, sua inteligência e pureza, tudo enfim se espelha admiravelmente na figura altamente expressiva de S. Gabriel. Nossa Senhora é menos etérea, menos leve, menos impalpável diríamos quase. E com razão, pois é criatura humana. Entretanto, um que de angélico se nota em toda a compostura da Rainha dos Anjos. E sua fisionomia excede em espiritualidade, nobreza e candura a do próprio emissário celeste. Descrito assim cada um dos personagens, consideremos a atitude de um e outro. O Anjo é superior a Nossa Senhora por natureza. Entretanto a Virgem é superior ao Anjo por sua santidade, e por sua incomparável vocação de Mãe de Deus. Daí a alta dignidade que ambos – a Virgem e a Anjo – exprimem, e também a recíproca veneração com que se falam. Mas esta atitude tem ainda outra razão mais profunda. Invisível, Deus entretanto manifesta Sua presença na luz sobrenatural que parece irradiar de ambos os personagens e comunicar o esplender de uma alegria pura, tranquila, virginal, a toda a natureza. Sente-se quase a temperatura suavíssima, a brisa levíssima e aromática, a alegria que perpassa em toda a atmosfera. Como pintar melhor uma hora de graça? Com um senso profundo das coisas, Fra Angélico soube encontrar as linhas e cores necessárias para exprimir todo o conteúdo teológico e moral do episódio evangélico mil vezes famoso. Seu quadro é, porém, mais do que isto: vale por uma pregação, pois forma, eleva, anima para o bem, quem o contempla.
Antítese berrante de tudo isto é a Anunciação moderna. Se um débil mental ou um doente com muita febre se pusesse a divagar sobre a Anunciação, concebê-la-ia talvez assim. Extravagância suma, carência dos valores mais rudimentares, de qualquer expressão já não diremos elevada ou sobrenatural, mas simplesmente equilibrada e sadia, tudo enfim se conjuga para fazer da obra moderna a antítese brutal chocante do quadro do século XV. Este é uma maravilha de espiritualidade e de fé. A outra é produto de uma mentalidade que não sabe ver senão a matéria, de uma psicologia fechada ao sobrenatural, de um temperamento que se compraz plenamente em horizontes sem beleza, sem nobreza, sem nada daquilo que para a alma é luz, oxigênio, vida, esperança de eternidade.
Em sua alocução de 24 de maio de 1953, o Santo Padre define o chamado espírito moderno como “o pensamento materialista transposto na ação”. A arte de que temos aqui um espécime é o pensamento materialista transposto na arte.
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Consideremos agora o quadro que representa S. Domingos. Os elementos espirituais nele transparecem admiravelmente. É mais um retrato da alma que do corpo. O esforço do pensamento, isto é a aplicação na leitura, a tensão serena mas forte do trabalho intelectual, a expressão fisionômica própria a quem está entendendo e nisto se compraz, tudo enfim se exprime aqui com uma discrição, uma intensidade, uma veracidade sem par. E há ainda outros traços de alma que transparecem: o ânimo e o viço do espírito juvenil, o equilíbrio, a candura, a piedade e a temperança do perfeito religioso. Em face desta outra obra prima do séc. XV, consideremos a estátua no séc. XX. Por certo tal comparação mostra diferenças consideráveis, decorrentes de varias fatores: a) os recursos da pintura e da escultura são diversos; b) os talentos e o temperamento dos artistas são diversos também; c) por fim, o espírito dos dois personagens, S. Domingos e S. Bento, também não é o mesmo. Mas há choque, oposição, violento contraste? De modo nenhum. Merece a escultura de A. Wider as censuras que fizemos à obra de H. Breucker? Não.
Pelo contrário, aquela estátua exprime com muita propriedade, precisão e força a idéia que se pode ter do Patriarca dos Monges do Ocidente: modelo de gravidade, de austeridade, de tranqüilidade varonil, de profundo recolhimento, de alta sabedoria. Ninguém pode negar que esta escultura corresponde satisfatoriamente às exigências de uma arte autentica e de uma piedade ortodoxa e equilibrada.
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Somos contra o “moderno”? Por esta palavra se entende o que é, não só próprio, mas típico de nossa época, algo que: a) lhe é inerente; b) a diferencia do passado; c) a distinguirá do futuro. Ora, em matéria de arte – e em muitas outras – uma propaganda hábil, pertinaz, onímoda, vai inculcando cada vez mais certo espírito de materialismo, de sensualidade, de extravagância delirante. O estilo animado por este espírito preside à construção ou reconstrução de cidades inteiras, marca em todas as partes do mundo o aspecto externo e a decoração interior da maioria dos edifícios novos de importância grande, media ou até pequena, expõe suas produções em certames de arte universais, etc., etc.. Contra ele, o “homem da rua” contemporâneo reage instintivamente, mas levemente. De sorte que esse espírito ou já é ou está a caminho de ser o estilo de nosso século, por onde este se diferencia dos anteriores e queira Deus dos posteriores. Se a isto e só a isto se chama moderno, se ser moderno é aceitar a marca, o estigma do materialismo, não só do materialismo cru, mas do materialismo “moderado” com todas as suas colorações e despistamentos, então é inegável que somos antimodernos porque somos católicos.
Mas se se toma em conta que, à margem dessa péssima corrente nosso século conta com artistas animados por outro espírito, e se entende que é moderno tudo quanto é contemporâneo qualquer que seja sua inspiração, não podemos ser antimodernos porque não somos idiotas. Pois outro qualificativo não mereceria quem no oceano da produção cultural do séc. XX julgasse preconcebidamente mau, indistintamente mau, o que é engendrado pelos filhos da luz, e as obras em que se nota a influência do espírito neopagão, isto é, do espírito das trevas.
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Destas duas acepções de “moderno”, qual a mais verdadeira? É um problema de palavras. Todavia uma coisa é positiva: se o estilo materialista não se deve chamar “moderno”, deve-se-lhe arranjar outro nome, pois ainda não apareceu. E este nome deverá levar em conta que a torrente “moderna” contém não só os ingredientes materialistas de que falamos mas ainda os elementos gnósticos e satanistas de que nosso brilhante colaborador Cunha Alvarenga tão bem tem tratado.
Dar nome a esta corrente é tarefa interessante, para a qual convidamos a sagacidade de nossos leitores.
Entretanto, o mais urgente não é isto. O “homem da rua” do séc. XX ainda não aderiu ao “moderno” no fundo de sua alma. Preservemo-lo desta desgraça. Assim seremos “modernos” no sentido de que agiremos em função dos problemas e perigos de nosso século.
É o que nesta folha procuramos fazer, em meio ao estrépito de muitos aplausos, e ao rosnar surdo e furioso de alguns ódios, mas certos, em qualquer caso, de cumprir um dever sagrado.
Publicado originalmente em “Catolicismo” Nº 38 – Fevereiro de 1954  na seção Ambiente, Costumes, Civilizações”000
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