quarta-feira, 6 de julho de 2016

Lefebvrianos: o dito e o não dito

[unisinos]


Estamos esperando pelo sucessor de Francisco (esperando que seja melhor do que ele)! Essa é a síntese da decisão tomada pela Fraternidade Sacerdotal São Pio X (lefebvrianos). O comunicado do superior geral, Dom Bernard Fellay (29 de junho), publicado depois de três dias de reflexão com os seus colaboradores diretos, os superiores das comunidades e a consulta com os outros dois bispos, Tissier de Mallerais e Dom De Galarreta (Anzère, Suíça, 25 a 28 de junho), representa mais um "não" à solução do desvio cismático do movimento. A reportagem é de Lorenzo Prezzi, publicada no sítio Settimana News, 04-06-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Depois do prolongamento das discussões com a Comissão Ecclesia Dei e o encontro direto com o papa, no dia 1º de abril de 2016, havia se difundido a percepção de uma possível solução. O próprio Francisco tinha falado disso em uma entrevista ao jornal católico francês La Croix (9 de maio).
A uma pergunta sobre o tema, ele respondeu: "Eles amam a Igreja. Dom Fellay é um homem com quem se pode dialogar. Não é assim com outros elementos um pouco estranhos, como Dom Williamson, ou outros que se radicalizaram. Eu acho que, como já disse na Argentina, eles são católicos a caminho da plena comunhão. (…) Dialoga-se bem, faz-se um bom trabalho".
Os pontos críticos são sempre os mesmos: o magistério, a tradição, a aceitação do Vaticano II. O comunicado tem uma parte de "dito" e uma parte de "não dito".
O "dito": voltar a proclamar "a doutrina católica", denunciando os erros "encorajados, infelizmente, por inúmeros pastores, até pelo próprio papa"; a fraternidade "não está à procura de um reconhecimento canônico, acima de tudo, reconhecimento a que ela tem direito como obra católica": a restauração "não poderá ser realizada sem o apoio de um papa que favoreça concretamente o retorno à santa tradição"; a fraternidade reza "para que o papa tenha a força de proclamar integralmente a fé e a moral".
A eventual solução canônica nunca foi o problema central – volta-se a falar com insistência de prelazia –, enquanto o elemento inadmissível para os lefebvrianos é o Vaticano II. Embora Dom Guido Pozzo, secretário da Ecclesia Dei, observou que "o reconhecimento canônico por parte da Santa Sé é condição essencial para que uma obra católica esteja em plena comunhão eclesiástica, em conformidade com o direito (…) o reconhecimento canônico não é um fato notarial, é condição essencial".
Há uma parte de "não dito", não menos importante. À tentativa de alguns amigos dos tradicionalistas de deslizar sobre as diferenças doutrinais para se concentrar nos elementos canônicos, a fraternidade opõe o seu inadmissível pedido de anular um Concílio cujos documentos foram assinados no seu conjunto até mesmo pelo seu fundador, Dom Lefebvre, que depois se arrependeu.
Não aparece no texto a ameaça, antigamente muito enfatizada, de possíveis novas ordenações episcopais. Um elemento positivo que acompanha o silêncio sobre as posições ímpares de Williamson, expulso da fraternidade, mas não desprovido de consensos dentro das tropas tradicionalistas.
O "não" a Roma esconde a incapacidade de Fellay de manter unido o rebanho no possível retorno à plena comunhão eclesial. Para esconder essa fraqueza radical – uma identidade que só pode existir contra alguém – há a paradoxal e obsessiva referência ao papa.
Não funcionou a "proximidade eclesiológica" do Papa Bento XVI. Parece não funcionar a "proximidade dialogante" do Papa Francisco. O que Fellay e os seus não entenderam é que a sua questão foi central, durante algum tempo, e agora é periférica. O seu retorno podia condicionar a Igreja. Hoje e amanhã, só poderá condicionar as suas biografias.
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