quinta-feira, 28 de julho de 2016

A moral sexual no Matrimônio cristão: é pecado sentir prazer?

[comshalom]
Por Robson Oliveira



Questão: Grande parte das críticas que se levantam contra a moral sexual resume-se a afirmação de que ela possui caráter meramente religioso. Portanto, continuam as repreensões, não é justo nem necessário que os descrentes sigam essas orientações. Para estes críticos, o ato sexual, mesmo fora do matrimônio, não obedece a qualquer norma ou fim, a não ser a satisfação imediata do apetite sexual. A prole, na medida em que não se encontra neste nível imediato e até pode impedir sua execução, é muito especialmente negada como fim deste ato. Para eles, os filhos não são fruto natural de uma relação sexual. O objetivo dessa reflexão é mostrar que não se pode agir como se o ato conjugal não tivesse um fim em si mesmo, independente da vontade dos cônjuges. Para isso, a reflexão apresentará dois momentos: uma abordagem teológica e outra filosófica.

Abordagem Teológica

É muito comum se dizer que o ato conjugal não precisa visar de modo algum a prole, mas que o fim do ato conjugal é tão simplesmente o bem dos esposos. Com isso se quer dizer que o único e razoável fim para o ato sexual entre esposos é o gozo deste mesmo ato, que sacia temporariamente o apetite sexual. É com este espírito que se diz ordinariamente aos recém-casados: “vocês têm de aproveitar o casamento um pouco, viajar, curtir um ao outro…”,como se os filhos fossem empecilho natural a união dos esposos. Os cristãos, porém, não deviam ter esse problema de compreensão, pois para os que tem fé, especialmente de origem judaica, a prole é já um modo parcial de  realização das promessas feitas ao Pai dos crentes, Abraão: descendência mais numerosa que as estrelas do céu (cf. Gn 22,17). Além disso, as santas mulheres do Antigo Testamento sofriam por não terem filhos: “Faze-me ter filhos também, ou eu morro“, disse Raquel a seu marido Jacó (Gn 30,1), demonstrando indiretamente o gozo e a realização que é para a casal de Deus ser co-criador do gênero humano. E finalmente, a fecundidade matrimonial precisa ser vista como um dom para o homem desde o princípio: “Crescei e multiplicai-vos” (Gn 1,26). Por detrás da insegurança dos casais de fé com relação a sua prole está, certamente, a falta de confiança na Palavra de Deus. Os que dizem ser cristãos, mas não reconhecem o Senhorio de Deus nesta parte de sua vida, precisam admitir que não há mais fé verdadeira no domínio de Deus sobre toda a natureza. São cristãos incompletos, portanto. Aos católicos, que não têm apenas a Palavra de Deus Escrita, mas também a Palavra de Deus Pregada como fundamento da sua fé – além do Magistério – é ainda mais clara a questão. Diversas vezes o Magistério Ordinário definiu que o ato conjugal deve estar sempre aberto à transmissão da vida (cf. CIC §2366), além de prever o bem dos esposos. Só por razões graves o ato sexual deve separar a união do casal da abertura à vida. Com efeito, o fim dos apetites humanos é a satisfação de uma potência. Ora, um dos fins naturais do ato conjugal é a prole. Logo, os cristãos católicos, seja por causa da Fé na Palavra de Deus, seja pela obediência refletida no Magistério Ordinário, não podem tentar separar esses fins, a não ser por motivo grave.
Mas e os que não têm fé? Eles podem usar do ato conjugal introduzindo artifícios para, sem razões graves, espaçar ou impossibilitar gravidezes? É o que veremos.

Abordagem Filosófica

Os que não têm o dado religioso para guiar suas ações levantam objeções a todo tipo de normatização no campo da sexualidade. Dizem que não veem sentido na imposição de regras em um aspecto tão íntimo da vida humana. Afirmam que se a prática sexual possui algum tipo de prazer anexo, não há evidentemente nada de mal em usufruir deste prazer. Se o ato sexual traz alguma satisfação, não há razão de se pôr limites a ela. No entanto, apesar destas premissas bem convincentes, esses mesmos defensores do prazer sexual sem finalidade acham muito constrangedor – e muitas vezes ofensivo – se alguém busca incessantemente a satisfação gustativa, mesmo que para isso tenha que expelir o alimento recém ingerido. O guloso gera no espectador um certo horror. Gula não tem nada a ver com o cafezinho depois do almoço ou o pudim depois da macarronada, mas é aquela ânsia de ingerir alimentos por causa do prazer derivado da ingestão ou do paladar. Em grau profundo, a gula torna-se patologia, fazendo com que o guloso, ato contínuo ao alimentar-se, vomite a refeição para que o alimento não cause o efeito necessário, a nutrição. Neste sentido, poucas coisas são mais deprimentes e reveladoras da condição humana que o vomitório romano, pois demonstram como o homem pode desviar-se da natureza nas suas ações mais cotidianas. Com efeito, nosso tempo reconhece a bulimia como grave doença que abate jovens e adultos em algo tão simples como a alimentação. E o que é a bulimia senão a ação de desfrutar do prazer gustativo sem “sofrer” as consequências da alimentação, a saber: a nutrição? Os bulímicos, para manterem sua autoimagem, pretendem usufruir do prazer anexo ao apetite nutritivo sem assumir a nutrição como fim do ato de nutrir-se. Obviamente, neste ato há uma deturpação da natureza, que há poucos escapa. É a gula no seu estado químico, que certamente já tornou-se patologia física e psiquiátrica.
Ora, se aos que não tem fé repugnam atitudes de esbanjamento, desperdício e bulimia, a eles também deveria repugnar o ato sexual que, deliberadamente e sem razões, impede o apetite reprodutivo de alcançar o fim remoto de sua ação: a prole. A gula e a bulimia, isto é, a prática de alimentar-se e depois, por meio de um intermédio (a pena de ganso ou um comprimido), impedir a consequente absorção dos alimentos ingeridos, causa tanta repugnância por razão da rejeição da natureza deste ato. Quem diria que é justificável desejar o bônus do prazer gustativo dos alimentos sem arcar com o ônus da absorção desses alimentos? O apetite sexual tem como fim intrínseco de sua ação a prole, assim como o fim da alimentação é a nutrição. Os prazeres anexos a estas ações são moralmente lícitas, contanto que não se interponha nada ao desenvolvimento da natureza. Afirmar que nada há demais em que o ato sexual evite sempre a prole é o mesmo que achar natural que toda refeição seja impedida de produzir nutrição, por meio de remédios ou de vômitos.
Outra crítica que se faz é que, na prática, os métodos naturais para espaçamento da prole equivalem aos artificiais, pois impedem a gestação, deixando a ato conjugal com apenas um dos horizontes de sua moralidade: a união dos esposos. No entanto, não é ilícito se um alimento, tomado para nutrir e cujo paladar é agradável, não é absorvido pelo corpo, sem o intermédio da ação humana. Nesse sentido, o uso de métodos contraceptivos naturais e artificiais não se equivalem, pois os primeiros não interferem no desenvolvimento natural do corpo, enquanto os segundos marcam a intervenção do homem a fim de tornar infecundo um ato naturalmente destinado a prole. Os atos conjugais praticados nos períodos inférteis, pelo contrário, não tornam esses atos infecundos. Eles o são naturalmente.
O uso dos métodos naturais são moralmente aceitáveis, portanto, caso se respeitem seus fins. A prole é um desses fins, para o casal cristão ou não.
Questão: A Ética e a Moral Teológica sustentam que o ato sexual, para ser legítimo, deve ser aberto à vida, isto é, não pode impedir ou tentar impedir voluntariamente que o fim do ato sexual, a concepção, aconteça. Por isso, toda ação que pretenda separar a possibilidade da transmissão da vida artificialmente repugna a reflexão filosófica e a moral teológica. No entanto, o uso dos ritmos inférteis das mulheres não repugna a moral, pois são ações que não introduzem intermediários para dificultar ou impedir a geração da vida. Mas existem os que acham os métodos naturais tão ilícitos quanto os artificiais. Dizem: se o ato sexual deve estar aberto à vida, usar os períodos inférteis para manter relações sexuais é igualmente anti-ético. Logo, os casais que usam os métodos naturais (tabelinha, temperatura, método da saliva ou Billings) são hipócritas, pois acusam os métodos artificiais mas fazem o mesmo com  os naturais. No entanto, não é bem assim.
Os que identificam o uso dos métodos naturais aos métodos artificiais pensam deste modo: não importam os meios se o fim é o mesmo. Não há erro mais crasso. Os meios são importantes, sim, para alcançar um fim justo. Ou alguém defende que conseguir manter sua família roubando e trabalhando é a mesma coisa? Ou que passar nas provas do colégio estudando ou colando equivalem?Pelo contrário, alguns meios – ainda que alcancem o fim desejado – são prejudiciais. Por exemplo, os que pretendem usufruir dos benefícios da alimentação, mas sem aceitar o fim desta ação, que é a nutrição e a absorção destes alimentos no organismo, podem facilmente cair em um erro moral, que pode transformar-se até em um problema médico. A bulimia é um caso em que se deseja o prazer gustativo sem aceitar também o fim da alimentação. É uma doença que indica um problema na relação do indivíduo com um bem naturalmente lícito: o alimento. No entanto, escolher alimentos que, apesar do prazer gustativo, impactam menos na dieta não tem nada de imoral, contanto que não se interponham instrumentos ou ações para, deliberadamente, impossibilitar a absorção dos alimentos, restando do ato próprio da alimentação apenas o prazer anexo ao alimentar-se.
Os métodos naturais de espaçamento de filhos são, portanto, moralmente lícitos, do mesmo modo que o cafezinho depois do jantar não é gula. E hoje, mais que ontem, o conhecimento e divulgação desses métodos é bastante útil. Pois estes métodos colocam freios ao apetite sexual, que pode tornar-se feroz e desordenado em nome da “obediência à lei do multiplicai-vos”. Não se diga que por detrás de uma família grande se esconde um coração generoso e de uma família pequena, corações pequenos. Assim como não se pode dizer que de corpos esbeltos deduz-se ascética e de gordinhos, gula. Em famílias grandes também pode haver apetites sexuais irrefletidos, que redundam em prole numerosa – graças a Deus -; e em famílias pequenas podem esconder-se suores e lágrimas, por causa do dever de educar, também anexo à vocação matrimonial. Ora, quanto ao prazer sexual – que é semelhante ao prazer gustativo, na medida em que orienta a ação respectiva para um fim que transcende a própria ação –também é lícito desfrutar do prazer anexo ao ato sexual, desde que sejam usados os ciclos naturais do homem e da mulher para ordenar o legítimo uso desse apetite humano. Deve-se notar, porém, que entre o início da instalação do vício da gula e o a gula instalada, há um espaço onde não se sabe exatamente o que é vício e o que ainda é lícito. O mesmo ocorre com o ato sexual: há uma busca do prazer sexual que é lícita aos casados, mas que, no entanto, pode dar lugar ao vício da luxúria, que é a desordem do apetite sexual e caracteriza-se pela satisfação do apetite sexual com a concomitante rejeição do fim mesmo desse apetite, que é a prole. Há de se cuidar para que não se caia na armadilha da moral laxa e para isso, importa não raro o olhar de fora, de um conselheiro, para que não se passe por prudência ou cuidado o que é simplesmente calculismo e egoísmo frios.
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