segunda-feira, 4 de julho de 2016

A fé nos que têm pés de barro

Por Felipe Magalhães Francisco*

Nossa Senhora e os santos e santas ocuparam o lugar afetivo da fé, nos fiéis.


Se nossas práticas religiosas têm fim em si mesmas, tornando-se absolutas, são idolátricas.

A idolatria é um assunto muito delicado. Católicos são considerados idólatras pelos evangélicos, por causa das imagens de santos e santas e da devoção à Nossa Senhora. Os católicos, prontamente, teologizam, mesmo que com argumentação frágil, não serem idólatras. A grande percepção que falta para os fiéis dos dois lados, no entanto, é a presença da idolatria nas duas tradições religiosas.
Certamente, a doutrina católica cuida, com diligência, para que a teologia subjacente às devoções não ultrapasse o limiar do específico da fé cristã. Esse cuidado, contudo, não significa que, nas práticas religiosas, tanto dos clérigos quanto dos leigos e leigas, não haja sinais idolátricos. Por muito tempo, o catecismo católico difundiu uma imagem de Deus distante, controlador, que conquistava respeito a partir do medo. Nossa Senhora e os santos e santas ocuparam o lugar afetivo da fé, nos fiéis. A linha da afetividade, bem sabemos, é muito tênue.
Igualmente, nos meios evangélicos, tem crescido uma religiosidade de cunho mais personalista. As fachadas dos templos sustentam banners e placas com grandes imagens de seus líderes. Fiéis se alvoroçam para adquirir toalhas com o suor sagrado de seu líder religioso, capaz de inúmeros e estupendos milagres. A força de uma ação sagrada está não na fé, que move montanhas, mas nas mãos e vozes dos pastores e pastoras, bispos e bispas e, até mesmo, de apóstolos.
Entre os jovens católicos, cresce uma religiosidade de cunho visual, na qual a adoração ao Santíssimo Sacramento, legitimamente aceita pela Tradição, ganha ares idolátricos, quando não há verdadeira compreensão do que significa a presença real de Jesus na eucaristia. Também entre os adultos tal tipo de religiosidade idolátrica ganha expressão. O culto eucarístico fora da missa não tem mais seu caráter comunitário e espiritual: mas é ocasião de psicologismos e surtos psicossomáticos religiosos.
O que significa, então, idolatria, já que mesmo as religiosidades legitimamente aceitas pela Tradição, podem se tornar idolátricas? Idolátrica é a situação na qual aquilo que é relativo, torna-se absolutizado. Para a fé judaico-cristã isso significa: todas as coisas são relativas, isto é, estão em relação à alguma outra coisa; só Deus é absoluto. O absoluto é aquilo que, para existir, não depende da existência de nada mais. “Eu sou aquele que sou” (Ex 3,14).
Um exemplo a respeito da eucaristia. Jesus se deu no pão e no vinho, sob os quais deu graça, para que seus discípulos e discípulas fizessem parte de sua vida. Isso significa que Jesus nos deu a si mesmo na eucaristia para que comamos e bebamos de seu corpo e sangue eucaristizados. É próprio da eucaristia a manducação e a finalidade disso é que tenhamos parte em Jesus, para que o Espírito nos configure sempre à sua vida. O culto eucarístico fora da missa, popularmente conhecido como adoração ao Santíssimo Sacramento, precisa se inserir nessa dinâmica: levar-nos à participação na eucaristia, a fim de que estreitemos nossos laços com aquele que se dá para nosso alimento. Fora disso, torne-se religiosidade com fim em si mesma, ou seja, idolatria. Aproximarmo-nos do Corpo e Sangue do Senhor precisa, necessariamente, desdobrar-se em consequências éticas, caso contrário, a eucaristia serve apenas para nossa própria condenação, como afirma Paulo (cf. 1Cor 11,29).
A mesma teo-lógica pode ser aplicada às outras questões relacionadas às nossas religiosidades. Se nossas práticas religiosas têm fim em si mesmas, tornando-se absolutas, são idolátricas. Isso significa que cultuamos um deus criado à nossa própria imagem e não o Deus de Jesus. Esse Deus, plenamente revelado a nós pelo rosto de Jesus, é absoluto. E o que caracteriza esse ser absoluto é o amor: a relação plenamente realizada entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo, desde toda a eternidade, basta para que esse Deus uno e trino exista. Nós, criaturas, somos realização de um amor que é sempre desdobrar-se de excesso amoroso desse Deus. É nele que somos chamados a depositar nossa confiança. Tudo o mais são absolutização de coisas, situações e pessoas relativas, dependentes de relação para subsistirem: todos têm pés de barro.

* Felipe Magalhães Francisco é mestre em Teologia, pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia. Coordena a Comissão Arquidiocesana de Publicações, da Arquidiocese de Belo Horizonte. Coordena, ainda, a Editoria de Religião deste portal. É autor do livro de poemas Imprevisto (Penalux, 2015). Escreve às segundas-feiras.
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