sexta-feira, 8 de julho de 2016

A cruz de Cristo e os crucificados do mundo

Por Tânia da Silva Mayer*

O misto de provas inexistentes e traição invejosa condenou Jesus à perversidade da cruz.

 

A cruz é epifania do amor que supera a morte e sobrevive ao nada.


Jesus passou pela história fazendo o bem. E isso é algo que não podemos negar. Suas palavras e suas atitudes, todas proclamadoras do Reino de justiça e paz, inauguraram um tempo novo, no qual os filhos e filhas de Deus, nas suas singulares existências, se relacionam com fraternidade. Tal fraternidade é já experimentada na relação de Jesus com as pessoas, sobretudo com os que se encontravam com a vida ameaçada. No entanto, o anúncio da proximidade de Deus, no advento do seu Reino, parece traçar o horizonte da cruz na qual Jesus iria morrer. Sua liberdade de ser para Deus e para o próximo, à medida que anunciava o Reino, denunciava uma religiosidade despreocupada com as vítimas dos sistemas, religioso, político e econômico.

O misto de provas inexistentes e traição invejosa condenou Jesus à perversidade da cruz. E numa morte violenta, entregou sua vida num acontecimento de amor capaz de derrubar as armas e as cruzes que violentavam os inocentes da história. A cruz de Jesus é um acontecimento de revelação. Revelação do amor que é mais forte que a morte; revelação da maldade que habita o coração dos homens. A maldade dos homens revelou ao mundo que o Filho de Deus é o maldito, aquele que foi feito maldição por nós, conforme testemunhou Paulo aos Gálatas: “Cristo pagou para nos libertar da maldição da lei, tornando-se ele mesmo maldição por nós”[1].

No entanto, a cruz é epifania do amor que supera a morte e sobrevive ao nada. Ela é a nítida manifestação, aos olhos dos puros de coração, de que não há lugar para a violência, para a indiferença e para a exclusão, no Reino anunciado por Jesus. A cruz revela aos puros de coração a verdade obscurecida, mas não derrotada, pela tragédia da morte. Isso está claro na profissão de fé, adiantada, do centurião romano, no Evangelho de Marcos. Ele que não esteve com Jesus e não ouviu as suas palavras, compreendeu o mistério da fé que orientaria o seguimento dos cristãos e das cristãs ao longo da história: o homem Jesus crucificado é o Filho de Deus.

O olhar sensível para o corpo crucificado é o que faz o centurião afirmar que o morto na cruz é o Filho de Deus, tal qual Paulo que ousa dizer que ele tornou-se maldição por nós. O acontecimento da cruz, enquanto tragédia e violência contra Jesus é proclamação de que a vida deste homem é importante para Deus. E é essa importância que permite a fé afirmar ao mundo que a cruz não é loucura e nem escândalo, pois os que creem a reconhecem como sabedoria de Deus. Precisamente, a cruz é sabedoria de Deus, pois ela é o rompimento com os esquemas que vitimam os inocentes e com as cruzes que assassinam os que têm o seu direito de viver roubado. Por vezes, o acontecimento da cruz é estendido àqueles e àquelas que têm suas vidas negadas pelas injustiças sociais, religiosas, econômicas, sexuais, e o horizonte de vida plena e abundante, que irrompe do amor mais forte que a morte, é confrontado com dramática da história de cada pessoa, nem sempre feita de manhãs de ressurreição.

O teólogo espanhol, Jon Sobrino, bem compreendeu que os pobres e excluídos são sacramento de Deus e do seu Filho Jesus que foi crucificado pela maldade dos homens. Para ele, uma teologia que pretende ser a inteligência da fé deve ser também a inteligência do amor e isso significa assumir a misericórdia como princípio para descer da cruz os povos crucificados. Nesse sentido, a teologia deve preocupar-se com os pobres crucificados com Cristo pelas injustiças dos homens, seja no campo social, econômico, político, moral e sexual.

É impossível negar o fato de que muitas pessoas são expostas à injúrias, violências físicas e outras tantas violências, bem como têm suas existências elevadas ao status de “anormais” pelo motivo de divergirem da heteronormatividade da cultura e das religiões. Hoje, no Brasil, uma pessoa LGBTI é morta a cada 28 horas por sua condição sexual. Os crimes por homofobia são motivados desde o ódio e aversão pessoal a um sistema de crenças socioculturais que deslegitimam as sexualidades variantes da norma. Em menos de dez dias, dois casos de assassinato ganharam relevância nas redes sociais. A respeito de ambos, suspeita-se que a causa seja homofobia. Certamente, a homofobia tem condenado à cruz dezena de pessoas LGBTIs. O que poderíamos dizer, também, a respeito da violência contra a mulher? As mulheres têm sido vítimas constantes de um patriarcalismo machista que as rebaixa como um gênero de segunda categoria. São violentadas todos os dias. Os índices revelam os números elevados de casos de estupros diários. Novamente, as redes sociais têm divulgado esses casos absurdos, quase que periodicamente. Talvez as mulheres, sobretudo as pobres, sejam as que mais são crucificadas ao longo da vida.

Uma teologia sensível à cruz de Cristo e à dramática da história humana contemplará o corpo do homem Jesus crucificado nos corpos violentados da história, nas pessoas que sofrem e têm suas existências negadas ou interrompidas por causa de sua orientação sexual, do sexo e gênero, por causa da cor da pele, pelos números de sua conta bancária, pelo seu credo e religião, etc. Como Paulo que, ao se dirigir aos Colossenses, afirma completar em sua carne os sofrimentos que faltam a Cristo, podemos afirmar, muito sensivelmente, que muitas pessoas completam em seus corpos, ao longo da vida, os sofrimentos de Cristo, como solidariedade a ele na sua Paixão. Oxalá despertemos para tempos novos, em que o frescor da Ressurreição sopre leve no rosto dos que tombaram pelo caminho, carregando o lenho das suas cruzes.


[1] Gl 3,13.

*Tânia da Silva Mayer é Mestra e Bacharela em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (Faje); Cursa Letras na UFMG. É editora de textos da Comissão Arquidiocesana de Publicações, da Arquidiocese de Belo Horizonte. Escreve às sextas-feiras.
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