quarta-feira, 22 de junho de 2016

Sexo antes do casamento é pecado? Nossa resposta a um desabafo.

[padrepauloricardo]
Por Equipe Christo Nihil Praeponere

 

Enquanto continuarmos achando que as cadeias do nosso pecado são apenas pulseiras de adorno, a verdade do Evangelho de Cristo jamais nos libertará. 

 


Em reação ao vídeo "Por que o sexo antes do casamento é pecado?", um rapaz nos direcionou a seguinte mensagem no Facebook:
"Sério, como a religião cega as pessoas. Então quer dizer que, se duas pessoas estão namorando há pelo menos, digamos, uns três anos, mas ainda não se uniram em sagrado matrimônio, com toda aquela hipocrisia (sic) de pompa e circunstância e o famoso clichê de 'até que a morte os separe', não podem fazer sexo?! Se o fizerem, então suas almas estão condenadas eternamente ao fogo do inferno? Então só se ama alguém de verdade se essas duas pessoas colocam uma porcaria (sic) de aliança de ouro no dedo um do outro? A maior prova de que casamento em si não significa nenhum pouco de prova de amor de verdade, é a quantidade desses que são destruídos por adultério ou traição.
Sexo antes do casamento não é pecado coisa nenhuma. Sabe o que é verdadeiro pecado? Trair a quem se ama, trair a confiança de um amigo, humilhar as pessoas, ser preconceituoso, difamar, dar falso testemunho. Na própria Bíblia mesmo está escrito: 'Não julgueis, para não serdes julgados'! Então, sejam menos mesquinhos e respeitem a escolha de cada um, pois por trás de muitos 'casamentos maravilhosos' existem homens e mulheres nojentos (sic) e podres de alma. Em contrapartida, existem aqueles que não se casaram, fizeram sexo mesmo assim e se amam de verdade, sem pecado algum! Pronto, está dito, doa a quem doer."
O "desabafo" desse internauta é uma ocasião propícia para falarmos novamente da castidade no namoro, esse tema que se tornou tão complicado nos últimos tempos, até mesmo em ambientes cristãos. Assim como esse rapaz se dispôs a dizer o que pensa, "doa a quem doer", também nós faremos o mesmo aqui, pois acreditamos que, ao lado do dever de manifestar a verdade, os católicos têm a missão de repelir os erros que a contrariem. Os grandes doutores da Igreja, de fato, não "pregavam" apenas dos púlpitos das igrejas: eles debatiam e corrigiam, com caridade, quem quer que se encontrasse em algum caminho tortuoso. Assim, humildemente, esperamos que estas palavras ajudem as pessoas afastadas a se encontrarem com a fé e a aceitarem a doutrina moral da Igreja.
Como ponto de partida, tomemos a tese central de nosso comentarista: a de que "sexo antes do casamento não é pecado coisa nenhuma".
Quem o autoriza a dizê-lo com tanta certidão?
Ninguém, absolutamente. Ele simplesmente põe a frase, mas a fonte é ele mesmo. Mais adiante, ele até cita uma passagem bíblica, mas, aparentemente, serve-se dela apenas como um recurso retórico. Se acreditasse no todo da revelação divina contido nas Sagradas Escrituras, nosso comentarista certamente não diria que "sexo antes do casamento não é pecado coisa nenhuma", porquanto os primeiros cristãos já ensinavam, em consonância com a própria tradição judaica, que a fornicação é pecado (cf. At 21, 25; 1 Cor 6, 18; Gl 5, 19; Ef 5, 3).
Mas, a pergunta é importante, o que é verdadeiro pecado? Nosso comentarista tem um rol de bons exemplos: "Trair a quem se ama, trair a confiança de um amigo, humilhar as pessoas, ser preconceituoso, difamar, dar falso testemunho". Seguramente, não há o que questionar: essas coisas são realmente pecaminosas.
A questão que precisa ser colocada é: de que modo nosso comentarista chegou a essa conclusão? Como descobriu que tal e qual coisa são erradas, e o que faz com que ele as chame de pecado?
"Pecado" significa, de acordo com a Primeira Epístola de São João, "transgressão da Lei" (1 Jo 3, 4). Santo Agostinho é um pouco mais minucioso e, em uma definição que já se tornou célebre, diz: "Peccatum est dictum vel factum vel concupitum contra legem aeternam — O pecado é a palavra, a ação, ou o desejo contra a lei eterna" [1]. Para sabermos o que é pecado, portanto, é preciso que conheçamos essa "Lei" de que fala o apóstolo São João, essa "lei eterna" de que fala Santo Agostinho.
Mas o que fazer para conhecê-la?
São duas as suas fontes: a razão humana e a revelação divina.
A razão humana, porque a lei eterna de Deus reflete nas criaturas racionais uma outra lei, a que damos o nome de "natural": por ela, as pessoas são capazes de dizer, usando a própria razão, se determinados atos, palavras ou desejos são bons ou ruins; é por causa dessa lei, inscrita no próprio coração humano, que uma pessoa sem nenhuma instrução religiosa sabe, por exemplo, que matar, tomar a propriedade alheia, mentir ou "trair a quem se ama" são condutas más e devem ser evitadas. Não é necessário ser católico apostólico romano e ir à Missa todos os domingos para ter consciência de que determinadas coisas são pecado. Um esquimó que, sem culpa própria, nunca tenha ouvido falar de Cristo, pode muito bem "cumprir por obras a sua vontade conhecida por meio do ditame da consciência" [2] — palavras do Catecismo da Igreja Católica.
A revelação divina da Lei, no entanto, era necessária não só para elevar o homem ao conhecimento da fé — que supera e transcende a nossa mera capacidade racional —, mas até mesmo para deixar sólidas aquelas verdades que poderíamos alcançar pelo simples uso de nossa faculdade racional, já que, com o pecado original, o ser humano ficou debilitado até mesmo para reconhecer a lei natural. Um dos motivos da revelação, portanto, foi a fraqueza da condição humana após a queda de Adão e Eva: com a mente turva e os sentimentos perturbados, ficou difícil para o homem alcançar as verdades de sua própria natureza.
O mal do sexo fora do casamento é uma dessas verdades que podem ser apreendidam com o simples uso da razão. Santo Tomás de Aquino, por exemplo, ao dialogar com quem não era cristão em sua famosa obra Suma contra os gentios, reúne um monte de argumentos para mostrar que, sim, "a simples fornicação é pecado contra a lei divina" [3].
A fornicação é errada, portanto, não simplesmente "porque a Igreja quis assim". A razão humana testemunha a maldade do sexo fora do compromisso conjugal e, para confirmar a inquietude da nossa consciência, vem em nosso auxílio a revelação do próprio Deus, que condenou essa conduta ainda na Antiga Lei (cf. Dt 17, 23; Tb 4, 13), reiterando essa proibição na Nova Aliança, seja pelas palavras de seu Filho (cf. Mt 5, 28), seja pelas palavras dos Apóstolos (já referidas acima) e dos seus sucessores [4].
A palavra "proibição", no entanto, provoca arrepios e traz imagens sinistras à imaginação das pessoas. É justamente por estar associada ao advérbio "não" que a nossa sociedade tende a enxergar a castidade como um fardo pesado e custoso de se carregar. Anos a fio de doutrinação ideológica nas escolas somam a esse preconceito as fogueiras da Inquisição, a rigidez da educação religiosa e... o argumento está pronto: o que esses católicos querem, na verdade, é "controlar as mentes" das pessoas e castrar os seus impulsos sexuais!
Nesse momento, é preciso conter um pouco a própria imaginação (ou a memória, às vezes) e tentar enxergar as coisas como elas realmente são.
"Castidade" não é um conjunto de normas sexuais carregadas de sanções punitivas. É verdade que existe uma pena para quem livre e conscientemente se afasta de Deus. Das coisas que Nossa Senhora mostrou aos três pastorinhos de Fátima, em Portugal, uma das primeiras foi o inferno, que é para onde vão "as almas dos pobres pecadores" que não se convertem. Mais do que um temor (sadio!) do castigo eterno, porém, o Evangelho de Cristo veio trazer ao homem a lei do amor. É por isso que, no episódio do programa "A Resposta Católica" sobre o sexo antes do casamento, Padre Paulo Ricardo insiste bastante no fato de o sexo fora do casamento ser uma forma de usar o outro, não de amar! Para perceber isso, basta tirarmos as vendas passionais que temos diante dos olhos. Como pode ser amor o ato egoísta de duas pessoas que se entregam totalmente no sexo, mas, ao amanhecer do dia, cada um se levanta de volta para sua casa? Como pode ser "natural" a fornicação, se transforma uma pessoa em objeto, tanto mais quanto se procura de todos os modos evitar a possibilidade dos filhos? Como pode ser amor que uma menina perca a sua virgindade sem sequer saber se o outro está disposto a perder a sua vida por ela, colocando uma aliança em seu dedo — aliança que nosso comentarista chama de "porcaria"?
É verdade que uma aliança, por si só, não significa nada. Nisto nosso comentarista está certo, "por trás de muitos 'casamentos maravilhosos' existem homens e mulheres podres de alma". O sinal da aliança é importante, todavia, porque carrega consigo a imagem do compromisso: lembra que o amor não é uma simples atração, mas um ato firme da vontade, que quer o bem do outro e se dispõe a isso, sim, por toda a vida — "até que a morte os separe", porque as pessoas não são objetos para uso de "uma noite" e descarte logo em seguida.
O que Deus pede do homem e da mulher, no entanto, não é a "pompa e circunstância" de uma cerimônia luxuosa, não são um vestido e um terno caros, nem carreiras profissionais bem sucedidas ou salários suntuosos. Quando, para conter a epidemia dos "casamentos clandestinos", a Igreja sabiamente estabeleceu, usando o poder das chaves (cf. Mt 16, 19; 18, 18), que a celebração do casamento deveria ser feita "na presença do pároco" ou de outro sacerdote autorizado, ela foi bem simples em sua colocação:
"Se não se apresenta nenhum impedimento legítimo, proceda-se à celebração do matrimônio em presença da Igreja, na qual o pároco, interrogados o varão e a mulher e entendido seu mútuo consentimento, diga: 'Eu vos uno em matrimônio, em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo', ou use de outras palavras, segundo o rito aceito em cada província." [5]
Essa determinação foi feita pela Igreja no século XVI. É, portanto, uma lei eclesiástica, válida somente para católicos batizados [6]. Nela, como se pode ver, não consta nenhum luxo excessivo, nenhuma imposição de festa, nenhuma "pompa" abusiva, porque, no fim das contas, não é isso que importa para Deus. O importante é que o casal se ame (de verdade) e queira fazer a vontade divina em suas vidas, o que inclui evitar o pecado — pecado que não é o que um ou outro charlatão arbitrariamente define como tal, mas o que Deus desde a eternidade fixou em sua Lei e transmitiu aos homens, seja através da razão que eles possuem, seja através da revelação que a Igreja guarda como fiel depositária.
Para entender a fundo todas essas coisas, no entanto, nada é tão necessário quanto a . Sem ela, é até possível compreender este ou aquele ponto da doutrina moral católica — a indissolubilidade do matrimônio é outro exemplo de verdade que pode ser alcançada pelo uso de nossa razão [7] —, mas não se é capaz de admirar o conjunto da obra. Quem vê de fora os Dez Mandamentos até consegue enxergar a sua razoabilidade, mas, não tendo fé, fica no superficial: os Mandamentos não passam, então, de algumas "regrinhas de boas maneiras". Quem olha tudo isso, todavia, a partir do Evangelho, a partir da Encarnação do Verbo, a partir do fato de que o mesmo Deus que deu as tábuas da Lei a Moisés enviou ao mundo o seu Filho para dar também a nós a filiação divina pela graça, é capaz de enxergar um mundo completamente novo à sua frente. E isso — eis o que é mais extraordinário — não está reservado a uma pequena elite, a este ou aquele grupo especial, porque Deus o preparou para todos!
Só diante de todo esse conjunto é possível entender, por exemplo, que o pecado humano tenha consequências tão terríveis, como diz o Apóstolo: "O salário do pecado é a morte" (Rm 6, 23). Não se trata de coisa insignificante, de "bagatela", como o demônio e o mundo têm tentado pintar, a fim de seduzir e enganar as pessoas. A lama de imundície em que os homens de nosso tempo chafurdam é a prova viva de que não é a religião que "cega as pessoas", como diz o nosso comentarista; são os nossos sentimentos descarrilados que cegam a nossa razão e nos impedem de ver a realidade que dança, às vezes freneticamente, diante de nossos olhos. Como diz, aliás, o Papa Pio XII, o homem, não raro, procura persuadir-se de que seja falso ou ao menos duvidoso aquilo que, no fundo, não deseja admitir que seja verdadeiro [8].
Para que as escamas caiam de nossos olhos, não nos vai adiantar "tomar" o lugar de Deus e tentar definir o que é certo e o que não é, o que é pecado e o que não é. Tudo já está escrito, não só no papel de alguns livros religiosos, mas na carne do nosso próprio coração. O que precisamos fazer é ouvir a voz de Deus, ter fé no que Ele nos revelou e nos arrependermos de nossos pecados.
Enquanto continuarmos achando que as cadeias do nosso pecado são apenas pulseiras de adorno, a verdade do Evangelho de Cristo jamais nos libertará.

Referências

  1. Santo Agostinho, Contra Faustum, XXII, 27 (PL 42, 418).
  2. Catecismo da Igreja Católica, n. 847.
  3. Santo Tomás de Aquino, Contra Gentiles, III, 122.
  4. Cf. Papa Inocêncio IV, Carta Sub catholicae professione, de 6 de março de 1254, n. 18 (DH 835); Inocêncio XI, Decreto do Santo Ofício, de 2 de março de 1679, n. 48 (DH 2148).
  5. Concílio de Trento, Decreto Tametsi, de 11 de novembro de 1563 (DH 1814).
  6. Cf. Código de Direito Canônico, cân. 1108.
  7. Cf. Santo Tomás de Aquino, Contra Gentiles, III, 123.
  8. Papa Pio XII, Carta Encíclica Humani Generis (12 de agosto de 1950), n. 2.
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