quarta-feira, 8 de junho de 2016

Gerar

Por Dom José Alberto Moura*

Tudo que o homem cria deve buscar um resultado de serviço ao semelhante e ao planeta.

 


Fazer surgir um ser, a partir do nada, somente pode acontecer com a ação divina. O ser humano, quando cria algo, sempre o faz tendo algo já existente, mesmo sendo a própria inteligência preexistente. O ato criativo de Deus, no entanto, se dá por sua própria natureza, com o seu ser que faz surgir outros seres com ação comum da própria unidade das tríplices pessoas. O pai gera o Filho com a ação do amor do Espírito Santo.
No ato criativo fora de suas pessoas elas mesmas agem para dar existência a tudo. O ser humano, criado à imagem e semelhança de Deus, só cria, no entanto, com a base de sustentação divina, que lhe dá possibilidade de ter e usar a inteligência para criar algo. Mas esta nova criatura, para ter o êxito de seu surgimento, deve apresentar a conotação de servir a todos, vivendo à semelhança divina, que tem a ação geracional do amor. Tudo o que o ser humano cria, para obter seu resultado de serviço ao semelhante e ao planeta, deve servir a todos, como o desenvolvimento da ciência, da tecnologia, da economia, da cultura, da educação, da saúde, etc. Se não for para servir, é uma criação fadada ao desserviço a todos, com resultado infeliz para todos.
Na união com Deus o ato criativo humano tem resultado de benefício à coletividade, pois, em sua utilização, favorece o bem estar social. A Bíblia fala da ação divina criadora da alegria em ajudar o ser humano: “Eu estava a seu lado como mestre de obras; eu era seu encanto, dia após dia, brincando... alegrando-me em estar com os filhos dos homens” (Provérbios 8,30.31). Desse modo, todo ato criativo humano tem hipoteca social. Teríamos, então, mais desenvolvimento sustentável, pois, tudo serviria para o bem da inclusão social, a defesa do planeta e a justiça para todos, com a alegria de promover o bem comum. Superar-se-iam a degradação do meio ambiente, a poluição, a concentração de renda e de todos os recursos nas mãos de minorias, a disparidade exorbitante de pobreza e riqueza, o uso do desenvolvimento da ciência e de tudo o mais para privilegiar elites...
Paulo lembra a graça da fé inoculada pelo Espírito Santo, que enche de bom orgulho a quem é dócil a Ele: “Por ele tivemos acesso, pela fé, a esta graça, na qual estamos firmes e nos gloriamos” (Romanos 5,2). Quem vive a graça da fé não desanima em fazer o bem, usando da própria inteligência para perceber o sentido da própria ação e tornar a própria vida um serviço real à promoção do bem do semelhante, mesmo nas dificuldades da vida. Usa dos dons divinos recebidos gratuitamente para ajudar a construção de uma sociedade justa. Teríamos, então, mais solidariedade e união para criarmos novas possibilidades de superação dos mecanismos de injustiça, de degradação do meio ambiente, de exclusões sociais e todo tipo de discriminação.
Deus é comunhão de pessoas que nos criou para também promovermos comunhão entre nós e a natureza. Em união com ele somos capazes de ser mais criativos para vivermos com mais entendimento, mútuo apoio e inter-ajuda. Seremos mais capazes de criar meios de formação melhor da família, da juventude, da política e da economia, para melhor distribuição de possibilidade de vida digna para todos. Deus nos dotou de inteligência suficiente para sermos capazes disso.


CNBB, 18-05-2016.

*Dom José Alberto Moura: Arcebispo de Montes Claros (MG). 
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