terça-feira, 7 de junho de 2016

Construir pontes e não atalhos

Por Dom Anuar Battisti*

Em tempos difíceis, um caminho prudente é buscar ajuda, pedir socorro, somar forças.

 

É tempo de viver as diferenças como caminho de encontro, buscando o união e não o que divide.

Diante de todos os fatos que fazem história em nosso país, e fazem toda a nação permanecer perplexa sem saber o que vai acontecer, nasce em todos nós um sentimentos de insegurança e instabilidade que não contribui em nada. Por outro lado não dá pra ficar em cima do muro esperando acontecer, é preciso agir, buscar, fazer a nossa parte e acreditar que pessoas mudam e mudanças são necessárias.
A nossa confiança vem do Senhor: “Colocai em mim todas as vossas preocupações” (Mt 11,28); porém em tempos difíceis, sempre esperamos tempos melhores. A Palavra de Deus nos alerta: Maldito o homem que confia no homem” (Jer 17,5). Como diz o dito popular: “Confie sempre, mas com um pé atrás”.
Em tempos difíceis, um caminho prudente e eficaz é buscar ajuda, pedir socorro, somar forças, construir pontes que conduzam a um objetivo comum, a uma meta segura para todos. Recordo as palavras do Papa Francisco quando da sua eleição ele dizia: “Um dos títulos do Bispo de Roma é Pontífice, isto é, aquele que constrói pontes, com Deus e entre os homens.
Desejo precisamente que o diálogo entre nós ajude a construir pontes entre todos os homens, de tal modo que cada um possa encontrar no outro, não um inimigo nem um concorrente, mas um irmão que se deve acolher e abraçar. Neste trabalho, é fundamental também o papel da religião.
Com efeito, não se podem construir pontes entre os homens, esquecendo Deus; e vice-versa: não se podem viver verdadeiras ligações com Deus, ignorando os outros.
Por isso, é importante intensificar o diálogo entre as diversas religiões, para que jamais prevaleçam as diferenças que separam e ferem, mas, embora na diversidade, triunfe o desejo de construir verdadeiros laços de amizade entre todos os povos”.
Esse é o maior desafio de toda sociedade, das igrejas, das religiões. É inconcebível para os tempos modernos, viver de concorrência na política, na Igreja, entre as religiões.
Em nenhum setor da convivência humana deve existir o maior, o mais perfeito, o mais importante, o salvador da pátria. Deve primar sempre para ser o melhor, fazer o melhor, buscar o melhor para o bem de todos, onde todos tenham o direto de ser e se manifestar, sem concorrência ou privilégios.
Na medida em que cada um busca a própria satisfação e a salvação dos seus interesses pessoais, a coletividade sai perdendo. “De que adiante ganhar o mundo inteiro e vier perder a sua alma? (Mc. 8,36).
A maior satisfação é ver a felicidade reinar em todos os corações, onde as necessidades são atendidas e trazem um sentimento de realização pessoal. Por isso toda a liderança está sempre dirigida para a construção do bem comum, sendo o melhor, o mais competente, o mais justo, o mais leal, o mais ético, o mais digno da autoridade que lhe foi confiada.
São tempos difíceis, são tempos para construir pontes, estabelecer laços de igualdade, de viver as diferenças como caminho de encontro, buscando o que nos une e nunca o que nos divide.
A religião tem um papel fundamental nesta nebulosidade política e social, pois precisamos re-ligar a nossa limitada condição humana, com o Pai Deus que nos fez à Sua imagem e semelhança, encontrando nesta relação o sentido verdadeiro do nosso peregrinar terrestre. Sem essa relação com Deus, nos tornamos estéreis, perderemos os valores éticos e morais, a vida não tem sentido, tudo não passa de um sonho. Vamos construir pontes e não atalhos.

CNBB, 23-05-2016.

*Dom Anuar Battisti: Arcebispo de Maringá (PR).
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