segunda-feira, 2 de maio de 2016

Os LGBT, o Papa e a Família

[unisinos]

“Francisco faz um contundente alerta contra o moralismo que muitas vezes reina em ambientes cristãos e na hierarquia da Igreja Católica, visando fomentar o devido respeito à consciência e à autonomia dos fiéis: “nos custa dar espaço à consciência dos fiéis, que muitas vezes respondem o melhor que podem ao Evangelho no meio dos seus limites, e são capazes de realizar o seu próprio discernimento perante situações onde se rompem todos os esquemas. Somos chamados a formar as consciências, não a pretender substituí-las” (AL 37). Nesta mesma direção, a formação moral das novas gerações deve se realizar de forma indutiva, de modo que um filho possa chegar a descobrir por si mesmo a importância de determinados valores, princípios e normas, em vez de impô-los como verdades indiscutíveis (AL 264)”, escrever Luís Corrêa Lima, professor no Departamento de Teologia da PUC-Rio, em artigo publicado na revista IHU On-Line desta semana.
Segundo ele, “a questão da homossexualidade é colocada lembrando que a Igreja deve assumir o comportamento de Jesus. Ele se oferece a todos sem exceção, com um amor sem fronteiras”.
Eis o artigo.

1. O pontificado de Francisco e o Sínodo

Francisco iniciou o seu pontificado com um firme propósito de renovação pastoral na Igreja Católica. Ele a convoca a ir às “periferias existenciais”, ao encontro dos que sofrem com as diversas formas de injustiças, conflitos e carências. O papa critica uma Igreja ensimesmada, entrincheirada em “estruturas caducas incapazes de acolhimento” e fechada aos novos caminhos que Deus lhe apresenta (FRANCISCO, 2013a). Esta abertura pastoral contemplou também os LGBT (gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais), que constituem uma população com crescente visibilização. Quando o papa retornou do Brasil a Roma, disse algo que teve muita repercussão: “Se uma pessoa é gay, procura o Senhor e tem boa vontade, quem sou eu para a julgar? [...] Não se devem marginalizar estas pessoas por isso” (FRANCISCO, 2013b). Esta declaração inédita na boca de um papa teve desdobramentos.
Nesse mesmo ano, ele convocou o Sínodo dos Bispos para tratar da família e seus desafios atuais, dando início a um período rico e criativo. A mensagem cristã no campo da sexualidade e da família tem uma grandeza e uma beleza inegáveis, mas também problemas e questionamentos inevitáveis. Em certos pontos, há uma notável disparidade entre o ensinamento da Igreja e vida da maioria dos fiéis.
No primeiro questionário preparatório do Sínodo, enviado a todas as dioceses católicas do mundo, perguntava-se, entre muitas outras coisas, que atenção pastoral se pode dar às pessoas que escolheram viver em uniões do mesmo sexo e, caso adotem crianças, o que fazer para lhes transmitir a fé. Entre 2014 e 2015, foram realizadas duas assembleias com três semanas de duração cada uma. Ocorreram muitos debates e entrevistas, produziram-se amplos relatórios, com uma notável repercussão na mídia. O Sínodo é uma instituição consultiva, bem como os seus relatórios e proposições. Após a sua realização, o papa publica uma exortação pós-sinodal, que é o ensinamento oficial da Igreja a respeito dos temas tratados. Neste caso, é o documento Amoris Laetitia, sobre o amor na família.
Mesmo sendo apenas consultivo, o Sínodo traz indicações muito relevantes sobre a situação eclesial, os consensos e as divergências existentes entre os bispos, que são muito importantes para o discernimento do papa. Os relatórios produzidos desde a convocação deste Sínodo apontaram claramente nesta direção: não mudar a doutrina sobre a família, fundada sobre a união exclusiva e indissolúvel entre um homem e uma mulher, mas ao mesmo tempo acolher sem condenar as pessoas que vivem em outras configurações familiares. O valor deste processo, mais do que os textos, é o debate aberto na Igreja sobre temas de sexualidade e família como nunca se viu nas últimas décadas. Isto ajuda a formar uma opinião pública que favorece a pastoral, a reflexão teológica e a recepção criativa da exortação pós-sinodal.
Na preparação da segunda assembleia, foram enviadas às dioceses perguntas sobre a atenção às famílias que têm “pessoas com tendência homossexual”, e sobre como cuidar destas pessoas à luz do Evangelho e propor-lhes as exigências da vontade de Deus sobre a sua situação. As dioceses alemãs e suíças responderam criticamente. Com base nas ciências humanas e na medicina, a orientação sexual é uma disposição inalterável e não escolhida pelo indivíduo. Por isso, falar simplesmente de “tendência homossexual” provocou irritação e foi percebido como uma expressão discriminatória (CEA, 2015, n. 40). A maior parte dos fieis considera justo o desejo de pessoas homossexuais de terem relacionamentos amorosos e formarem uniões. A exigência de que vivam em abstinência sexual foi considerada injusta e desumana. É inaceitável que homossexuais sejam considerados apenas como destinatários de uma pastoral, vistos como pessoas doentes ou precisando de ajuda. Deseja-se que sejam tratados com respeito e que seja apreciada a sua participação na Igreja. A impossibilidade de qualquer tipo de analogia entre o matrimônio (heterossexual) e a união homossexual, afirmada no primeiro relatório sinodal, não é aceita. Deseja-se que a Igreja reconheça, estime e abençoe as uniões homossexuais, ajudando os membros destas uniões a viverem valores importantes que têm, sim, analogia com o matrimônio (CES, 2015, n. 40).
Os questionários sinodais também foram respondidos por Juan Masiá, jesuíta radicado na Japão e pesquisador de bioética. Para ele, é necessário promover a acolhida de pessoas e de uniões homossexuais, bem como de famílias assim constituídas, na vida cotidiana e sacramental das comunidades eclesiais, sem discriminação. Deve-se reconhecer respeitosamente a legislação civil sobre as uniões homossexuais. É necessária uma revisão da hermenêutica bíblica, moral e teológica sobre a sexualidade à luz das ciências humanas, especialmente sobre a sexualidade pluriforme e as exigências educativas para uma convivência inclusiva. Não se pode afirmar taxativamente como ensinamento da Igreja a impossibilidade de analogia, mesmo remota, entre uniões homossexuais e o desígnio de Deus sobre o matrimônio. Seria presunçoso possuir o conhecimento certo e definitivo deste suposto desígnio divino (MASIÁ, 2015).
Mesmo com estas contribuições questionadoras, prevaleceram no Relatório Final do Sínodo os ensinamentos tradicionais da Igreja sobre a família fundada na união heterossexual e indissolúvel, juntamente com um olhar de misericórdia e uma busca de acolhimento dos que não vivem neste modelo. No encerramento da última assembleia sinodal, o papa fez um balanço bem realista das divergências entre os bispos:
Aquilo que parece normal para um bispo de um continente, pode resultar estranho, quase um escândalo – quase! –, para o bispo doutro continente; aquilo que se considera violação de um direito numa sociedade, pode ser preceito óbvio e intocável noutra; aquilo que para alguns é liberdade de consciência, para outros pode ser só confusão. Na realidade, as culturas são muito diferentes entre si e cada princípio geral [...] se quiser ser observado e aplicado, precisa ser inculturado (FRANCISCO, 2015c).
Muitos bispos, bem como a maioria dos fiéis de suas respectivas dioceses, não concordam com as posições dos alemães, dos suíços e do jesuíta radicado no Japão. As exortações pós-sinodais são elaboradas a partir dos consensos alcançados nas assembleias sinodais. E, neste aspecto, a Exortação Amoris Laetitia não é diferente. O magistério da Igreja em nível universal deve levar em conta os diferentes contextos dos Continentes e dos países. A tarefa de articular convergências e chegar a um denominador comum é complexa e difícil.
O papa Bento XVI certa vez relatou a missão que recebeu quando era cardeal, no tempo de João Paulo II, de coordenar o trabalho dos bispos para a elaboração do Catecismo da Igreja Católica. O livro deveria mostrar em que a Igreja hoje crê e como se pode crer razoavelmente. Ele confessa que ficou assustado com esta missão e duvidou que isso fosse exequível. Como é que pessoas vivendo em diferentes Continentes, não apenas geográficos, mas também intelectuais e espirituais, poderiam chegar a um texto com coesão interna e compreensível em todos os Continentes? Ele considera um prodígio o cumprimento desta missão (BENTO XVI, 2012). Diante da complexidade de se obter consensos e ao mesmo tempo de se respeitar as diferenças, o magistério tende a ser cauteloso nas inovações. A evolução das ciências, o senso dos fiéis e a teologia podem ajudar a Igreja a amadurecer seu juízo, mas isto leva tempo e este amadurecimento não é homogêneo. Porém, as igrejas locais, suas iniciativas apostólicas e a reflexão teológica podem avançar mais, criando um ambiente eclesial favorável para mudanças futuras de maior alcance.

2. A Amoris Laetitia (AL)

A Exortação do papa sobre a família é uma ampla dissertação, partindo da premissa de que a alegria do amor vivido nas famílias é também o júbilo da Igreja (AL 1). Muitas situações e questões contemporâneas são contempladas, lançando luzes sobre a vida familiar concreta. A Exortação está longe de ser um texto doutrinado abstrato e frio. A grande novidade está na forte sensibilidade pastoral, com matizes muito cuidadosos na aplicação da doutrina. Para o papa, nem todas as discussões doutrinais, morais e pastorais devem ser resolvidas com intervenção do magistério. Naturalmente, é necessária na Igreja uma unidade de doutrina e práxis, mas isto não impede que haja diferentes maneiras de interpretar alguns aspectos da doutrina ou algumas consequências que dela decorrem. Em cada país ou região, pode-se buscar soluções mais inculturadas, atentas às tradições e aos desafios locais (AL 3).
Francisco faz um contundente alerta contra o moralismo que muitas vezes reina em ambientes cristãos e na hierarquia da Igreja Católica, visando fomentar o devido respeito à consciência e à autonomia dos fiéis: “nos custa dar espaço à consciência dos fiéis, que muitas vezes respondem o melhor que podem ao Evangelho no meio dos seus limites, e são capazes de realizar o seu próprio discernimento perante situações onde se rompem todos os esquemas. Somos chamados a formar as consciências, não a pretender substituí-las” (AL 37). Nesta mesma direção, a formação moral das novas gerações deve se realizar de forma indutiva, de modo que um filho possa chegar a descobrir por si mesmo a importância de determinados valores, princípios e normas, em vez de impô-los como verdades indiscutíveis (AL 264).
Um dos desafios levantados é o das diversas formas de “uma ideologia, genericamente chamada gender (gênero), que nega a diferença e a reciprocidade natural de homem e mulher”. Afirma-se que ela promove uma identidade pessoal e uma intimidade afetiva radicalmente desvinculadas da diversidade biológica entre homem e mulher. Não se deve ignorar que o sexo biológico (sex) e o papel sociocultural do sexo (gender) podem se distinguir, mas não se separar (AL 56).
A questão da homossexualidade é colocada lembrando que a Igreja deve assumir o comportamento de Jesus. Ele se oferece a todos sem exceção, com um amor sem fronteiras. Às famílias que têm filhos homossexuais, reafirma-se que cada pessoa, independentemente da própria orientação sexual, deve ser acolhida e respeitada na sua dignidade, evitando-se toda discriminação injusta, agressão e violência. Um respeitoso acompanhamento deve ser assegurado, para que quantos manifestam a tendência homossexual disponham da ajuda necessária para compreender e realizar plenamente a vontade de Deus em sua vida. Porém, os projetos de equiparação das uniões homossexuais ao matrimônio são rejeitados por não haver comparação entre tais uniões e o desígnio divino sobre o matrimônio e a família (AL 250-251). A acolhida de pessoas homossexuais, já ensinada no Catecismo (n.3528), é trazida para o contexto das famílias com filhos homossexuais, onde isto é mais urgente. A oposição feita à equiparação das uniões homossexuais ao matrimônio, majoritariamente expressa no Sínodo, é reiterada na Exortação.
Em toda e qualquer circunstância, perante quem tenha dificuldade de viver plenamente a lei de Deus, deve ressoar o convite para percorrer o caminho do amor. A caridade fraterna é a primeira lei dos cristãos, conforme o mandamento de Jesus: “amai-vos uns aos outros, como eu vos amo” (Jo 15,12). Ela constitui a plenitude da lei (Gal 5,14). Sem diminuir o ideal evangélico, deve-se acompanhar com misericórdia e paciência as possíveis etapas de crescimento das pessoas, que se constroem dia a dia. A misericórdia do Senhor nos incentiva a realizar o bem possível (AL 306 e 308).
Não se pode dizer que todos os que estão numa situação chamada “irregular” vivem em estado de pecado mortal, privados da graça santificante. Um pastor não pode estar satisfeito apenas com a aplicação da lei moral aos que vivem nesta situação, como se fossem pedras atiradas contra a vida das pessoas. Por causa de condicionamentos ou de fatores atenuantes, pode-se viver na graça de Deus, amar e também crescer na vida da graça e da caridade, recebendo para isso a ajuda da Igreja que inclui os sacramentos. Por isso, deve-se lembrar aos sacerdotes que o confessionário, onde comumente se ministra o sacramento da penitência, não é uma sala de tortura, mas o lugar da misericórdia do Senhor. E a Eucaristia não é um prêmio para os perfeitos, mas um remédio generoso e um alimento aos que necessitam (AL 301, 305 e nota 351).
A questão do acesso aos sacramentos pelos que vivem em situação “irregular”, sobretudo os divorciados recasados, foi bastante polêmica desde a convocação do Sínodo. Há décadas que fiéis, pastores e teólogos buscam uma solução para isto. O papa não dá uma solução taxativa e abrangente, mas abre caminho aos pastores para que, no acompanhamento dos fiéis e no respeito ao seu discernimento, possam ministrar-lhes os sacramentos. As considerações sobre os fiéis em situação “irregular” também se aplicam aos que vivem em outras configurações familiares.

3. Em busca de caminhos

Como o próprio papa alertou, as culturas são muito diferentes entre si, e cada princípio geral precisa ser inculturado para ser observado e aplicado, com a devida atenção às tradições e aos desafios locais. E os fiéis, obedecendo à própria consciência, muitas vezes respondem o melhor que podem ao Evangelho no meio dos seus limites, com discernimento perante situações onde se rompem todos os esquemas. As conferências episcopais trazem contribuições importantes a esta inculturação e à pastoral, que são fruto de reflexões e práticas contextualizadas em diferentes realidades, com suas tradições e desafios.
A Exortação anterior do papa Francisco, Evangelii Gaudium, faz menção a um documento dos bispos franceses (EG, nota 60) reafirmando a doutrina da Igreja a respeito do matrimônio. Mas os bispos vão além. Eles repudiam a “homofobia”, empregando explicitamente este termo, e felicitam a evolução do direito que hoje condena toda discriminação e incitação ao ódio em razão da orientação sexual. Eles reconhecem que muitas vezes não é fácil para a pessoa homossexual assumir sua condição, pois os preconceitos são duradouros e as mentalidades só mudam lentamente, inclusive nas comunidades e nas famílias católicas. Estas são chamadas a acolher toda a pessoa como filha de Deus, qualquer que seja a sua situação. E numa união durável entre pessoas do mesmo sexo, para além do aspecto meramente sexual, a Igreja estima o valor da solidariedade, da ligação sincera, da atenção e do cuidado com o outro (CEF, 2012). Mesmo que não se equiparem ao matrimônio, são reconhecidos valores positivos nas uniões homoafetivas.
Outra menção do papa (EG nota 59) é um documento dos bispos norte-americanos sobre o ministério junto a pessoas homossexuais, com diretrizes para a assistência pastoral. Os bispos abordaram a questão do batismo de crianças criadas por uniões do mesmo sexo. Eles não aprovam a adoção de crianças por estas uniões. No entanto, aceitam que elas sejam batizadas se houver o propósito de que sejam educadas na fé da Igreja Católica (USCCB, 2006). Os bispos suíços, por sua vez, trataram da bênção de pessoas homossexuais. Eles afirmam que estas pessoas podem ser abençoadas, mas não a contração de uma união homossexual para não haver semelhança com o matrimônio sacramental (CES, 2002, nº3). Com isto, algumas possibilidades se abrem. No Ritual de Bênçãos da Igreja, por exemplo, há bênção de uma residência, com orações pelos que nela residem, bênção do local de trabalho e bênçãos para diversas circunstâncias. Portanto, pode-se abençoar pessoas homossexuais sem contrariar as normas da Igreja.
No Brasil, os bispos contemplaram este tema num documento sobre a renovação pastoral das paróquias. Eles tratam das novas situações familiares com realismo e abertura, incluindo as uniões do mesmo sexo. Os bispos reconhecem que nas paróquias participam pessoas unidas sem o vínculo sacramental e outras em segunda união. Há também as que vivem sozinhas sustentando os filhos, avós que criam netos e tios que sustentam sobrinhos. Há crianças adotadas por pessoas solteiras ou do mesmo sexo, que vivem em união estável. Eles exortam a Igreja, família de Cristo, a acolher com amor todos os seus filhos. Conservando o ensinamento cristão sobre a família, é necessário usar de misericórdia. Constata-se que muitos se afastaram e continuam se afastando das comunidades porque se sentiram rejeitados, porque a primeira orientação que receberam consistia em proibições e não em viver a fé em meio à dificuldade. Na renovação paroquial, deve haver conversão pastoral para não se esvaziar a Boa Nova anunciada pela Igreja e, ao mesmo tempo, não deixar de se atender às novas situações da vida familiar. “Acolher, orientar e incluir” nas comunidades os que vivem em outras configurações familiares são desafios inadiáveis (CNBB, 2014, nº217-218).
A tarefa de inculturar princípios gerais em diferentes contextos, bem como a de ajudar os fiéis a formarem sua consciência, deve ser assumida pela teologia. O papa exorta os teólogos a prosseguirem no caminho do Concílio Vaticano II, de releitura do Evangelho na perspectiva da cultura contemporânea. Estudar e ensinar teologia deve significar “viver em uma fronteira”, na qual o Evangelho encontra as necessidades das pessoas às quais é anunciado de maneira compreensível e significativa. Deve-se evitar uma teologia que se esgote em disputas acadêmicas ou que contemple a humanidade a partir de um castelo de cristal. Ela deve acompanhar os processos culturais e sociais, especialmente as transições difíceis, assumindo os conflitos que afetam a todos. Os bons teólogos, como os bons pastores, devem ter “cheiro de povo e de rua”, e com sua reflexão derramar “óleo e vinho nas feridas dos homens”, como o bom samaritano do Evangelho (FRANCISCO, 2015a).
Para o papa, o teólogo deve enfrentar o trabalho árduo de distinguir a mensagem de vida da sua forma de transmissão, de seus elementos culturais nos quais em um determinado tempo ela foi codificada. Não fazer este exercício de discernimento leva inevitavelmente a trair o conteúdo da mensagem. Faz com que a Boa Nova, verdadeiro sentido do Evangelho, deixe de ser nova e deixe de ser boa, tornando-se uma palavra estéril, vazia de toda sua força criadora, curadora e ressuscitadora. Assim se coloca em perigo a fé das pessoas de nosso tempo. A doutrina cristã não deve ser um sistema fechado, privado de dinâmicas capazes de gerar interrogações, dúvidas e questionamentos. Pelo contrário, ela tem rosto, corpo e carne, que se chama Jesus Cristo. É sua vida que é oferecida de geração em geração a todos os seres humanos, em todas as partes do mundo (FRANCISCO, 2015b).
A releitura do Evangelho na perspectiva da cultura contemporânea passa pelos estudos de gênero, que envolvem a diferença e a reciprocidade entre homem e mulher. Convém fazer alguns esclarecimentos e considerações. O termo “teoria de gênero”, do qual derivam as suspeitas de “ideologia de gênero”, é uma má tradução do inglês gender theory, pois neste caso theory não significa teoria, mas o conjunto de estudos teóricos. Os estudos de gênero são bastante heterogêneos. Às vezes eles se entrelaçam, mas outras vezes correm em paralelo sem se encontrar. Não há uma teoria unificadora contendo uma explicação abrangente. O que há é um acordo geral em considerar os complexos comportamentos, direta ou indiretamente concernentes à esfera sexual, como fruto de dimensões diferentes, não totalmente independentes e por sua vez complexas: o sexo anatômico, a identidade e o papel de gênero, e a orientação sexual. Não há uma coerência necessária entre o sexo anatômico, a percepção da própria identidade como masculina ou feminina, o desejo e a prática sexual. Na diversidade bio-psíquica de homem e mulher, há indivíduos heterossexuais e homossexuais, bem como indivíduos cisgêneros e transgêneros, que se identificam ou não com o sexo a eles atribuído ao nascerem.
Há uma perspectiva cristã de gênero propondo não renunciar à diferença entre homem e mulher e à sua importância fundamental, que tem raiz no sexo biológico e constitui o arquétipo do qual se origina a humanidade. Que não se pense nos processos sociais e culturais prescindindo in­teiramente do componente bioló­gico, da estrutura genética e neuronal do sujeito humano. Mas também que se evidencie o papel da cultura e das estruturas sociais, reconhecendo-se o mérito dos estudos de gênero em captar a relevância das vivências pessoais na definição da identidade de gênero. Isto contribui para a superação de preconceitos causadores de graves discriminações, que levaram e ainda levam à marginalização dos LGBT (PIANA, 2015).

4. Exemplos

A renovação pastoral promovida pelo papa também conta com gestos surpreendentes. No início de 2015, Francisco recebeu em sua casa a visita do transexual espanhol Diego Neria e de sua companheira Macarena. A história de Diego é emblemática da condição transexual, do preconceito feroz e do seu enfrentamento. Ele nasceu com corpo de mulher, mas desde criança sentia-se homem. No Natal, escrevia aos reis magos pedindo como presente tornar-se menino. Ao crescer, resignou-se à sua condição. “Minha prisão era meu próprio corpo, porque não correspondia absolutamente ao que minha alma sentia”, confessa. Diego escondia esta realidade o quanto podia. Sua mãe pediu-lhe que não mudasse o seu corpo enquanto ela vivesse. E ele acatou este desejo até a morte dela. Quando ela morreu, Diego tinha 39 anos. Um ano depois, ele começou o processo transexualizador. Na igreja que frequentava, despertou a indignação das pessoas: “como se atreve a entrar aqui na sua condição? Você não é digno”. Certa vez, chegou a ouvir de um padre em plena rua: “você é filha do diabo”! Mas felizmente teve o apoio do bispo de sua diocese, que lhe reconfortou e lhe animou. Diego se encorajou a escrever ao papa Francisco e a pedir um encontro com ele. O papa o recebeu e o abraçou no Vaticano, na presença da sua companheira. Hoje, Diego Neria é um homem em paz (HERNÁNDEZ, 2015).


Outros encontros com LGBT ocorreram, como uma visita a um presídio na Itália em que o papa teve uma refeição à mesa na companhia de presos transexuais. Nos Estados Unidos, Francisco recebeu na nunciatura apostólica o seu antigo aluno e amigo gay Yayo Grassi, e o companheiro dele. Grassi já tinha apresentado o seu companheiro ao papa dois anos antes. Este relacionamento nunca foi problema na amizade entre Grassi e o papa (GRASSI, 2015). Gestos como estes valem mais que mil palavras. Se todas as famílias que têm filhos ou parentes LGBT seguissem o exemplo do papa Francisco, recebendo-os em casa com seus companheiros, muitos problemas e dramas humanos seriam resolvidos.


No Brasil, começam a ser batizadas crianças filhas de uniões homoafetiva. Um batismo de gêmeos (na foto abaixo) ocorreu no Santuário do Cristo Redentor no Corcovado, Rio de Janeiro, em 2014. O padre Omar Raposo, que fez a celebração, declarou: “O batismo é para todos. A Igreja não nega o batismo a ninguém. Ao contrário, é mandato de Cristo que todos sejam batizados” (MACEDO, 2014). Assim a Igreja assume o comportamento de Jesus Cristo, que se oferece a todos sem exceção, com um amor sem fronteiras alcançando os que vivem em outras configurações familiares. A expressão maior deste amor acolhedor e inclusivo é o batismo das crianças.

5. Considerações finais
O pontificado de Francisco iniciou com um firme propósito de renovação pastoral da Igreja, voltando-se às periferias existenciais, criticando com consistência uma Igreja ensimesmada, entrincheirada em estruturas caducas incapazes de acolhimento e fechada aos novos caminhos que Deus lhe apresenta. O Sínodo dos Bispos sobre a família, com perguntas questionadoras, e a Exortação Pós-sinodal inovadora são passos muito importantes neste caminho. Cabe aos fiéis terem a coragem de obedecer à própria consciência e responder sem medo ao Evangelho em situações onde os esquemas se rompem. Cabe aos pastores buscarem criativamente as formas de inculturação dos princípios gerais, atentos às tradições e aos desafios locais. Cabe aos teólogos viverem na fronteira, assumindo com vigor os conflitos que afetam a todos.
O caminho da renovação pastoral é longo pois muitas estruturas caducas estão fortemente arraigadas na mente e na prática de várias comunidades eclesiais, em muitos ambientes. Certa vez, o papa deu um conselho precioso: “é melhor ficar longe dos sacerdotes rígidos, eles mordem” (FRANCISCO, 2015d). Não são só os sacerdotes rígidos que causam dano a tantas pessoas, mas também alguns movimentos religiosos e fiéis rigoristas. O papa Bento XVI já havia afirmado com lucidez que o cristianismo não é um conjunto de proibições, mas uma opção positiva. E acrescentou que é muito importante evidenciar isso novamente, porque essa consciência hoje quase desapareceu completamente (BENTO XVI, 2006). É muito bom que os papas reconheçam esse problema, pois há no cristianismo uma tradição multissecular de insistência na proibição, no pecado, na culpa, na ameaça de condenação e no medo. A historiografia fala de uma “pastoral do medo”, que com veemência culpabiliza as pessoas e as ameaça de condenação eterna para obter a sua conversão. Isto não se restringe ao passado, mas inunda o presente e devasta muitas pessoas, sobretudo os LGBT.
O ponto de partida do ensinamento cristão deve ser sempre o seu conteúdo positivo que é Boa Nova. O testemunho e a pregação de Francisco são primorosos quanto a isto, incluindo a Amoris Laetitia que começa com a alegria do amor vivido nas famílias. Mas os frutos são virão se as práticas e a pregações rigoristas forem neutralizadas, se todos forem devidamente alertados a ficarem longe delas. Os que sintonizam com o papa, onde quer que estejam, têm um papel imprescindível nesta grandiosa tarefa. A alegria do amor familiar deve inundar também os que vivem nas diversas configurações familiares.
Bibliografia:
BENTO XVI. Entrevista de Bento XVI em previsão de sua viagem à Baviera (I). 16/8/2006. .
____. Carta. In: Catecismo jovem da Igreja Católica. 2012.
CEA (CONFERENCIA EPISCOPAL ALEMANA). Respuestas de la conferencia episcopal alemana… . 2015. .
CEF (CONFÉRENCE DES ÉVÊQUES DE FRANCE). Elargir le mariage aux personnes de même sexe? Ouvrons le débat! 2012. .
CES (CONFÉRENCE DES ÉVÊQUES SUISSES). Note pastorale 10. 2002. .
____. Rapport de l’Eglise catholique de Suisse... . 2015. .
CNBB. Comunidade de comunidades: uma nova paróquia. 2014.
FRANCISCO. Solenidade de pentecostes. Homilia. 19/5/2013a.
____. Encontro com os jornalistas durante o voo de regresso. 28/7/2013b.
____. Carta. 3/3/2015a.
____. Mensagem. 1-3/9/2015b.
____. Discurso. 24/10/2015c.
____. Discurso. 20/11/2015d.
GRASSI, Y. Em Francisco, não há espaço para a homofobia. 6/10/2015. .
HERNÁNDEZ, A. B. El bendito encuentro entre Francisco y Diego. 26/1/2015. .
MACEDO, R. Igreja abençoa filhos biológicos de casal gay. 20/11/2014. .
MASIÁ, J. Sexualidad pluriforme y pastoral inclusiva. 2015. .
PIANA, G. Sexo e gênero: para além da alternativa. 16/7/2014. .
USCCB. Ministry to persons with a homosexual inclination: guidelines for pastoral care. 2006. .
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