quarta-feira, 18 de maio de 2016

Mulher padre: nunca?


“Não parece que o Novo Testamento, tomado isoladamente, permita resolver, de forma clara e definitiva, o problema do possível acesso das mulheres ao presbiterato”, escreve Francesco Strazzari, em artigo publicado por Settimana, 13-05-2016. A tradução é de Ramiro Mincato.
Eis o artigo.
Em seguida às inúmeras referências feitas pelo Papa Francisco à necessidade de repensar o papel das mulheres na Igreja, o último, em ordem de tempo, da quinta-feira, 12 de maio, dirigido às superioras gerais, é útil (necessário) fazer referência ao Documento de Trabalho, elaborado na primavera de 1976, pela Pontifícia Comissão Bíblica, sobre o tema do papel das mulheres nas Escrituras.
O texto traz a assinatura, além daquela do Presidente da Comissão e prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, Cardeal Franjo Seper, e do secretário, Mons. Albert Deschamps, dos membros que faziam parte da Comissão. São pessoas renomadas no campo da exegese bíblica. Lembremo-las, para ter uma ideia e recordar seu grande "calibre": José Alonso-Diaz, Jean Dominique Barthélemy, Pierre Benoit, Raymond Brown, Henri Cazelles, Alfons Deissler, Ignace de la Potterie, Jacques Dupont, Salvatore Garofalo, Joachim Gnilka, Pierre Grelot, Alexander Kerrigan, Lucien Legrand, Stanislas Lyonnet, Carlo Maria Martini, Antonio Moreno Casamitjana, Ceslas Spiq, David Stanley, Benjamin Wambacq, Marino Maccarelli, secretário técnico.
Merecem atenção os resultados da votação: de 20 membros, 17 estavam presentes; não foi divulgado o nome dos três ausentes.
As três questões postas em votação, todas aprovadas, foram:
1. O Novo Testamento não afirma de modo claro se as mulheres podem tornar-se presbíteras (unanimidade);
2. As razões bíblicas não são suficientes, por si só, para excluir a possibilidade de mulheres acederem ao ministério presbiteral (12 a 5);
3. O plano de Cristo não seria violado com a ordenação de mulheres (12 a 5).
A declaração da Congregação para a Doutrina da Fé sobre a questão da admissão das mulheres ao sacerdócio ministerial, Inter Insigniores, datado de 15 de outubro de 1976, assinada pelo Card.  Seper, não levou em conta este documento da Comissão Bíblica, indicando as razões para o "não", a partir da cristologia: a figura de Jesus Cristo.
A Comissão Bíblica recebeu o pedido para investigar o papel das mulheres na Bíblia. A questão que particularmente aguardava resposta – lê-se no texto - é saber se é possível para as mulheres receber a ordenação para o presbiterato.
A Comissão observa que a pesquisa bíblica sobre o tema tem limitações, uma vez que, em geral, o papel das mulheres não constitui o sujeito principal dos textos bíblicos.
A pergunta feita diz respeito ao presbiterato, ministério da eucaristia e direção da comunidade local.
O Novo Testamento fala muito pouco do ministro da Eucaristia (cf. Lc 22,19; 1Cor 11,24, At 20,11; At 27,35), e as Cartas Pastorais nunca atribuem ao próprio dirigente a função eucarística. A concepção do presbiterato ligada à Eucaristia é posterior.

O lugar da mulher na família

Em Gênesis 1, homem e mulher são chamados juntos para serem imagem de Deus, em pé de igualdade e numa comunidade de vida.
Em Gênesis 2, homem e mulher tornam-se "uma só carne". Sua união inclui a vocação da fecundidade do casal, mas não se restringe apenas a ela. Em seguida, vem o "pecado", que os desagregam.

O simbolismo dos sexos no Antigo Testamento

À diferença das mitologias orientais, no Deus de Israel não há sexualidade. Há, no entanto, o apelo à estrutura familiar para fazer o retrato de Deus Pai, concebido também como "marido". Os profetas realçam a dignidade da mulher, representando o povo de Deus, por meio do uso dos símbolos femininos de esposa, em relação a Deus, e de mãe (cf. a aliança).

O ensinamento de Jesus

Se considerarmos o ambiente social e cultural em que Jesus viveu, seus ensinamentos e comportamento com relação às mulheres, são surpreendentes, pela novidade. O reino de Deus, inaugurado por sua presença e pregação, traz consigo a plena restauração da dignidade das mulheres, superando as antigas estruturas legais associadas, por exemplo, como a rejeição (frequentemente por razões fúteis).

A Mãe de Jesus à Igreja

Os evangelistas Mateus e, mais ainda, Lucas puseram claramente o papel insubstituível de sua mãe, Maria. Ela incorpora e vive os valores de feminilidade apresentados no Antigo Testamento. Maria é a mulher "nova" de um povo "novo". É ela que dá à luz a Cristo, homem "novo", de um povo "novo" (cf. Apocalipse).

Condição social das mulheres na revelação bíblica

A condição social das mulheres é um problema que diz respeito à sociologia e, como tal, deve ser tratado.
A experiência bíblica mostra que o status social das mulheres mudou, mas não de forma linear, nem em progresso contínuo. Na época de Cristo, o "status" da mulher na sociedade judaica parece ser menor do que na sociedade greco-romana. Comparado com seus contemporâneos, Cristo tem atitude decididamente original com relação à mulher, pois a valoriza.

Sociedade cristã e sociedade judaica

A sociedade cristã estabelece-se em bases diferentes da sociedade judaica. Fundada sobre a pedra angular que é Cristo ressuscitado, construída sobre o Colégio de Pedro com os Doze. De acordo com o testemunho do Novo Testamento, especialmente das cartas de Paulo, as mulheres estão associadas a diferentes ministérios carismáticos (diaconias) da Igreja (cf. 1Cor 12,4; 1Tm 3,11): profecia, serviço, provavelmente também o apostolado, mas sem fazer parte dos Doze. Na liturgia desempenham, pelo menos, o papel das profetizas (1Cor 11,5).
O problema é saber se, numa sociedade cristã, guiada por apóstolos e seus sucessores, os bispos, presbíteros, as mulheres poderiam ser chamadas a tomar parte no ministério litúrgico e na direção das comunidades locais.

Condição eclesial da mulher

Antigo Testamento. De acordo com a opinião quase unânime dos exegetas, as mulheres podiam oferecer sacrifícios e participar na liturgia, mas, aos poucos, as tarefas relacionadas com a liturgia foram sendo confiadas unicamente aos homens da tribo de Levi.
Novo Testamento. Jesus cercou-se de mulheres que o seguiam e serviam. São elas que recebem o encargo de anunciar a ressurreição. O quarto evangelho enfatiza seu papel de testemunhas. Maria Madalena será chamada, pela tradição, de "apóstola dos apóstolos". Enquanto o cristianismo se difundia, as mulheres iam assumindo papéis consideráveis. Podemos lembrar: Lídia, a mãe de Marcos e Priscila, Evodia, Síntique. Das 27 pessoas que Paulo agradece ou saúda no último capítulo da Carta aos Romanos, 9 ou talvez 10 são mulheres. Paulo menciona explicitamente uma mulher "diácono" da Igreja de Cencréia (Rm 16,1-2). Nas Cartas Pastorais, as mulheres indicadas após os bispos e diáconos tinham provavelmente o "status" de diáconas (cf. 1Tm 3,11).

Sobre a eventual ordenação de mulheres ao presbiterato

O ministério de guia da comunidade segundo Jesus e a Igreja apostólica
É um dado de fato que nos Atos dos Apóstolos e nas Cartas, as primeiras comunidades cristãs foram sempre dirigidas por homens, que exerceram o poder apostólico, de acordo com os costumes judaicos. O caráter masculino da ordem hierárquica que estruturou a Igreja, desde o seu início, aparece atestado pela Escritura de modo inegável.
Devemos concluir, então, que esta regra deva permanecer válida para sempre na Igreja? Qual valor normativo deve atribuir-se às prática das comunidades cristãs dos primeiros séculos?

O ministério de guia da economia sacramental

Elemento essencial para a vida da Igreja é a economia sacramental, que transmite aos fiéis a vida de Cristo. A administração desta economia foi confiada à Igreja sob a responsabilidade da hierarquia.
Isso levanta a questão sobre a relação entre a estrutura sacramental e hierárquica. Os guias das comunidades do Novo Testamento ocupam duas áreas: pregação e ensino. Nenhum texto define suas funções em termos de poder especial, que lhes permite celebrar o rito eucarístico ou reconciliar os pecadores.
Não temos provas de que, na época do Novo Testamento, a celebração da eucaristia e a reconciliação dos pecadores fosse confiado às mulheres.
É possível - pergunta-se a Comissão - que se verifiquem circunstâncias nas quais a Igreja sente-se chamada a confiar os ministérios sacramentais a algumas mulheres?
Isso aconteceu para o batismo, que, embora confiado aos apóstolos, pode também ser administrado por outros. Posteriormente, também foi permitido às mulheres. Poder-se-ia fazer o mesmo também com o ministério da eucaristia e da reconciliação?
Não parece que o Novo Testamento, tomado isoladamente, permita resolver, de forma clara e definitiva, o problema do possível acesso das mulheres ao presbiterato.
Alguns acreditam que na Escritura há indícios suficientes para excluir tal possibilidade. Sobretudo tendo em conta o fato de que os sacramentos da eucaristia e da reconciliação têm uma conexão especial com a pessoa de Cristo e, por isso, com a hierarquia masculina, assim como nasceu no Novo Testamento (posição Inter Insigniores). Outros, ao contrário, questionam se a hierarquia eclesiástica, a quem é confiada a economia sacramental, não poderia confiar os ministérios da eucaristia e da reconciliação para mulheres, em circunstâncias particulares, sem ir contra as intenções originais de Cristo.
O tempo dirá.
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