sexta-feira, 6 de maio de 2016

A “resistência” de D. Olivieri, o padre que adora a Igreja ao invés de adorar Deus

[unisinos]

Não sei se hoje o D. Olivieri, o bispo ancião de Albenga, Itália, se demitirá do púlpito como solicita o Papa ou se ainda se deverão esperar outros dias e talvez um ato de império do Vaticano para ver o fim da farsa albenganense dos dois bispos separados em... 'episcópio'.
O comentário é de Vittorio Coletti, publicado por La Repubblica, 01-05-2016. A tradução é de Benno Dischinger.
Este homem delicado e orgulhoso, honesto e álgido, generoso com o irmão enfermo e indiferente a todos os outros, seria narrado por uma biografia de qualidade. Nos jornas se fala dele pela excessiva indulgência com algum padre pecador. Mas não é o único bispo que a teve e não é senão um aspecto midiaticamente manifestado de uma personalidade que me parece mais ou menos interessante (ou perturbante) para os outros. Acima de tudo pela sua fé particular. D. Olivieri, de humilíssimas origens tornado príncipe da Igreja, fez aquilo que na história tem acontecido com frequência.
Ele fez da Igreja, que o premiou tão extraordinariamente, o seu verdadeiro e único Deus; isto é, venerou a instituição muito mais do que os evangelhos e o Deus de quem ela diz ter origem e razão. Sucedeu infinitas vezes na história da Igreja e até se pode dizer que tenha sido a regra prevalente na Igreja católica, também se, periodicamente, tenham chegado os Francisco (santos ou papas), dos Lutero, dos Papa João, dos Martini a corrigir a rota, a recolocar no altar Deus e seu evangelho ao invés da Igreja e de sua hierarquia. Antonio Rosmini havia explicado a Alessandro Manzoni que, como diz o Credo, se crê em Deus, mas se crê na Igreja uma, santa, etc., isto é, ela é professada, porque a fé é somente em Deus. D. Olivieri jamais teve clara esta diferença linguística e teológica.
E agora é fácil imaginar o seu drama interior: aquela Igreja na qual se crê, que divinizou com plena e honesta convicção e à qual, por conseguinte, deve obedecer e venerar como Deus, hoje o expele do seu palácio, quer coloca-lo previamente em pensão. Deve parecer-lhe incrível que, para resistir, provavelmente se disse que no fundo a Igreja do Vaticano e do Papa Francisco não é a verdadeira Igreja, mas um seu momentâneo desvio à espera de alguém que a ponha no trono dourado do qual as suas próprias cúpulas a fizeram absurdamente descer.
De resto, esta é a reação de quase todos os ultra ortodoxos das várias religiões ou ideologias; também aqueles de Luta comunista pensam isto do comunismo. A fé mais na Igreja do que em Deus está na origem também da estouvada pedagogia de D. Olivieri, cujos frutos se veem nos seus padres sexualmente frágeis e imaturos, como os acusados de pedofilia ou agressivos como aqueles que se meteram a cadeiradas no seminário, ou naqueles vaidosos e pré-conciliares que circulam como modelinhos para alfaiataria do clero, afetados por manias identitárias (da talar ao tricórnio, à missa em italiano, à intolerância com outras religiões).
Um destes, no dia da Páscoa, bateu imperiosamente na prédica porque narrou três lendas: uma sobre o bom ladrão, outra sobre um soldado hebreu adepto da crucifixão e condenado a se tornar o hebreu errante, e uma terceira que quereria Jesus aparecendo, após a ressurreição, primeiro à sua mãe (no fundo era um bravo filho) do que aos discípulos. Na prática, direcionou toda ou quase toda a sua homilia pascal para a sexta-feira da morte sem nenhuma reflexão sobre o domingo da ressurreição.
Aquele jovem padre está de fato firme na sexta-feira, como bom aluno de D. Olivieri. A Igreja que o seu bispo lhe ensinou é de fato aquela do tremor e do vazio da sexta-feira, e a única coisa que permanece de pé quando Deus está morto, não existe. Porque a força da Igreja de D. Olivieri não está na fé no Deus que virá, mas na sua substituição quando e até que não exista. Isto é, sempre, pelo menos sobre esta terra, o domingo vai sendo transferido até o fim dos tempos. Esta é a convicção dos tradicionalistas como o bispo Olivieri, para o qual a única ajuda ao homem pode vir da Igreja, e não certamente de Deus, que habita tão longe e sem substância e para esta terra é como se fosse morto.
Deste gênero são, portanto os netos de D. Olivieri. Um deles é também Pe. Chizzolini, o famoso pároco de Arnasco que, após ter-se apresentado para as suas caritativas declarações sobre a acolhida aos prófugos (“antes do fogo à canônica”), evitou depois abençoar o corpo de uma mulher marroquina falecida no desmoronamento de uma casa, porque ainda não batizada, embora, parece, fosse preparada à conversão pelo marido.
O prelado de Albenga, não mau e sim cabeçudo, para o qual o catolicismo continuou fiel ao Concílio de Trento, instigou ao sacerdócio gente que não era impelida pela fé ou pela caridade, mas pelas próprias humanas e contorcidas debilidades psicofísicas ou intelectuais: gente tão despreparada a ponto de crer que, em pleno século vinte e um, a Igreja católica seja ainda o lugar certo para encontrar reparação das próprias fragilidades culturais ou psicológicas e até dos próprios gostos sexuais, que hoje, ao invés, a sociedade liberalizada está em tudo permitindo a cada um de viver sem sentimentos de culpa e embaraços excessivos.
Quase não existem mais, pelo menos na Itália, jovens que se tornem padres pelas modestas e no fundo inocentes razões de pequena sistematização social de Pe. Abbondio (se os há, vem de outros Países), mas, ao invés, ainda há demasiados que o fazem devido a pesadas perturbações psíquicas e mentais pessoais. D. Olivieri acolheu diversos, educados e mimados, e viu na razão desviada que presidia sua vocação não um problema, mas um sinal de santidade inconciliável com o mundo, a ponto de permitir-se ignorar as leis.
D. Olivieri preparou uma ninhada de padres cuja vocação coincide com a veste talar com a qual procuram em vão cobrir as perturbações interiores, fazendo que se tornassem não só ainda mais graves e danosos para si mesmos, mas também escandalosos para os outros. Para este inefável présule a Igreja é um território livre das leis humanas e somente sujeito, não direi às leis divinas, mas àquelas da hierarquia.
Quando foi convocado em procuração em Savona para ser interrogado sobre fatos não límpidos de sua diocese, sentiu a necessidade de esclarecer que estava em visita de cortesia, e não por arrogância e, menos que nunca, por sentido do humorismo, mas porque de fato sinceramente convencido de que um bispo pode inclinar-se à lei dos homens só pela sua complacência, e certamente não por dever cívico. Dá quase sincera pena a patética resistência no episcópio albenganense deste velho cansado e coxo, que fora dos palácios da Igreja se sentiria acabado.
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