terça-feira, 31 de maio de 2016

A profanação do Corpo de Cristo

Por Felipe Magalhães Francisco*


Na última quinta-feira, dia 26, ocorreu a Festa do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo. Em Minas Gerais, como de costume, muitas ruas se enfeitaram, tanto das janelas das casas, como nos artísticos e belos tapetes no chão. A festa de caráter devocional – mas não tão só, sabemos – cumpre seu papel: fazer com que os fiéis voltem seu olhar para o Santíssimo Sacramento, como presença real de Cristo. O cortejo eucarístico é acompanhado com fé e piedade, revelando a dignidade do Corpo do Senhor entre os seus discípulos e discípulas.

Apesar da fé e da piedade, o Corpo de Cristo foi profanado. Seu Sangue verteu em dor e humilhação. Essa não foi uma quinta-feira de Corpus Christi comum. Despertamos para o dia com o amargor intragável da violência cometida contra uma jovem de dezesseis anos. O Corpo jovem de Jesus, estuprado por trinta homens, orgulhos de seu escandaloso, cruel e desumano feito. A responsabilidade do orgulho nefasto desses trinta homens carregamos todos, quando não rompemos com o machismo assassino de nossa sociedade. Profanaram o Corpo de Cristo, arrancando dele sua dignidade e deixando, apenas, humilhação e terror. “Em verdade, vos digo: todas as vezes que fizestes isso a um destes mais pequeninos, que são meus irmãos, foi a mim que o fizestes!” (Mt 25,40).
Como em todas as vezes em que o Corpo eucarístico de Cristo é profanado, precisamos fazer nosso desagravo. Não apenas em desagravo apenas a esta jovem de dezesseis anos, mas a todas e todos os que sofreram e sofrem as consequências do machismo e do poder opressor masculino. Mais que uma missa de desagravo, precisamos, com urgência evangélica e humana, de um desagravo que amplie as discussões sobre gênero nas escolas e nas igrejas. Às instituições religiosas cabe um mea culpa, por compactuar, tanto com a propagação do machismo patriarcal quanto com a omissão referente a ele, causas graves que ainda fazem pender o Corpo de Cristo na cruz.
A opressão religiosa precisa chegar ao fim. As igrejas carregam nas mãos o sangue de muitas pessoas, vítimas dessa opressão. A discussão sobre gênero, tão importante para mudar a cultura do estupro, do machismo e do sexismo, da homofobia, das lesbofobia e da transfobia só não é ainda uma realidade nesse país, por culpa das igrejas e de seus líderes. A farsa criada, sob o título de uma Ideologia de Gênero, fez com que os municípios e estados se omitissem na discussão sobre gênero nas escolas. A pressão para barrar essa discussão veio, sobretudo, dos líderes religiosos, homens. Propagou-se, entre a população, a ideia de que nas escolas se ensinaria às crianças a banalização da sexualidade.
Essa mentira de tais líderes religiosos, criada para barrar as discussões de gênero, resulta no estupro da jovem de dezesseis anos. Estupro feito por trinta homens. Trinta homens que não sabem o lugar do respeito, da dignidade do corpo da outra, tampouco seus próprios lugares na humanidade. Não faltou quem buscasse justificativas para o injustificável. E mais uma vez a vítima se torna culpada por seu próprio sofrimento e justiciamento cruel. É também por isso que precisamos discutir gênero nas escolas e nas igrejas, para que nas famílias haja uma real mudança de mentalidade e de comportamento, a fim de que a dignidade da vida se faça valer, não apenas para os homens machos. Esse é um começo de desgravo que precisamos fazer, para tirar da profanação os corpos violentados do Senhor. Vamos lavar nossas mãos, não como Pilatos, mas tirar delas o sangue das vítimas de nossa história, fazendo-lhes verdadeira justiça: transformando nossas relações e nos educando para o respeito e para a dignidade de todos e todas. Isso é Evangelho de Jesus!

*Felipe Magalhães Francisco é mestre em Teologia, pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia. Coordena a Comissão Arquidiocesana de Publicações, da Arquidiocese de Belo Horizonte. Coordena, ainda, a Editoria de Religião deste portal. É autor do livro de poemas Imprevisto (Penalux, 2015). Escreve às segundas-feiras.
Postar um comentário
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...