segunda-feira, 23 de maio de 2016

A cabeça de Jesus está a prêmio: o preço é alto!

[domtotal]
Por Felipe Magalhães Franscico*

Na realização de sua missão, Jesus acolhia a todos.



“Não tens o direito de juntar uma palavra ao que disseste outrora. Por que vieste incomodar-nos? Bem sabes que nos incomodas. Mas, sabes o que acontecerá amanhã? Ignoro quem és e nem quero sabê-lo: és Tu ou somente a Sua aparência? Mas amanhã hei-de condenar-Te e serás queimado como o pior dos heréticos e o mesmo povo que hoje Te beijava os pés se precipitará amanhã, a um sinal meu, para deitar lenha na fogueira”. A fala é do Grande Inquisidor, presente no célebre capítulo “A lenda do Grande Inquisidor”, do livro Os Irmãos Karamazov, de Dostoiévski. A lenda se passa em Sevilha, na Espanha, lugar onde a Inquisição foi muito dura, sob a bandeira da defesa da fé. É nessa cidade que Jesus resolve voltar e caminhar entre o povo:
“Apareceu suavemente, sem se fazer notar, e, coisa estranha, todos O reconhecem; a explicação do motivo seria um dos mais belos passos do meu poema; atraído por uma força irresistível, o povo comprime-se à Sua passagem e segue-Lhe os passos. Silencioso, passa pelo meio da multidão com um sorriso de compaixão infinita. Tem o coração abrasado de amor, dos olhos se Lhe desprendem a Luz, a Ciência, a Força que irradiam e nas almas despertam o amor. Estende-lhes os braços, abençoa-os, e uma virtude salutar emana do Seu contato e até dos Seus vestidos. Um velho, cego de criança, grita dentre o povo: «Senhor, cura-me e ver-Te-ei»; cai-lhe uma escama dos olhos e o cego vê. O povo derrama lágrimas de alegria e beija o chão que Ele pisa. As crianças deitam-Lhe flores no caminho; todos cantam, todos gritam: Hosana! É Ele, deve ser Ele, não pode ser senão Ele!”
Diante do “espetáculo” do ressurgimento do milagreiro, que até ressuscita uma menina, o Cardeal inquisidor ordena a prisão desse homem. O processo inquisitorial que segue à prisão é um primor da literatura universal. Para que voltara aquele homem, depois de tudo o que já havia feito, e que havia dado tanto trabalho aos seus seguidores para restabelecerem a ordem das coisas? Já não havia sido suficiente ter morrido na cruz, para garantir à humanidade o direito à liberdade que, aliás, foi o maior erro a ter sido reparado pela igreja, após todos os acontecimentos evangélicos? Não era justo, portanto, que esse homem viesse a desfazer tudo aquilo que a igreja havia dispensado tanto esforço: o reestabelecimento da normalidade.
O Preso permanece em silêncio: “O inquisidor cala-se, espera um momento a resposta do Preso. O Seu silêncio oprime-o. O Cativo escutou-o sempre fixando nele o olhar penetrante e calmo, visivelmente decidido a não lhe responder. O velho gostaria de que Ele lhe dissesse alguma coisa, mesmo que fossem palavras amargas e terríveis. De repente, o Preso aproxima-se em silêncio do nonagenário e beija-lhe os lábios exangues. Mais nenhuma resposta. O velho tem um sobressalto, mexe os lábios; vai até à porta, abre-a e diz: «Vai e nunca mais voltes... nunca mais.» E deixa-o ir, nas trevas da cidade. O Preso vai”.  Quanto ao Inquisidor, a última fala do capítulo revela: “O beijo queimou-lhe o coração, mas persiste na sua Ideia”.
É um verdadeiro espanto que tal narrativa, publicada em 1880, pareça ser um retrato premonitório de como tudo aconteceria, caso Jesus voltasse, hoje, no Brazil. A diferença, parece-nos, é que não haveria interrogatório: o justiciamento seria direto. Não há lugar para Jesus entre os homens de bem de nosso tempo, ainda que algo relacionado a ele queime nos corações desses homens. Igualmente, Jesus não estava entre os homens de bem da sociedade de seu tempo: entre esses, o mínimo que despertava era a desconfiança – Quem é esse?. Isso porque Jesus significa ruptura com um sistema vigente que causava injustiça e morte. Quem tem dúvidas de que Jesus seria considerado um petralha-comunista-bolivariano, hoje? Afinal, que discurso é este que propõe a um rico vender todos os seus bens e dar o dinheiro aos pobres (cf. Mt 19,21), mas que gosta de uma festa, ao ponto de ser chamado glutão e beberão (cf. Mt 11,19)? Um esquerda caviar, não haveria dúvidas.
Jesus estaria em maus lençóis caso viesse caminhar por estas terras. No lugar do Inquisidor, temos muitos presbíteros, pastores e leigos, fiéis defensores do legado desse Jesus. Um legado, importa dizer, ressignificado a partir da ideia do poder, mantenedor do status quo, no qual mulheres, negros, LGBTTTs e os pobres todos são levados à morte, em nome de uma sociedade de bem. Garantir essa normalidade da injustiça, para essa mentalidade conservadora, é afastar, definitivamente, a ameaça comunista que nos ronda e que é uma afronta à família tradicional cristã. Para isso, deixa-se de lado tudo aquilo que Jesus pregou e operou, em nome dele: eis o escândalo! Jesus foi um revolucionário: não com armas e violência, mas pelo exercício constante e ininterrupto do amor, aos pobres todos em primeiro lugar, de modo que rompia com tudo o que significasse injustiça, opressão e marginalização.
Na realização de sua missão, Jesus acolhia a todos: os mal-quistos, os homens de bem de seu tempo e até os zelotes, conhecidos por sua revolução armada. Um do grupo dos zelotes, inclusive, veio a ser seu discípulo (Mc 3,18), coisa que nenhum homem de bem – os fariseus e saduceus – fez. Hoje, em nome de um Jesus que inexiste, segregam-se os que não se enquadram àquilo que é o ideal, do ponto de vista dos homens de bem. Além disso, a palavra de ordem é que se extirpe todos os que são uma ameaça a essa ordem patriarcal: morte aos petralhas-comunistas-bolivarianos, que invertem os “valores” da boa moral, e que se infiltram nas fileiras da Igreja, corrompendo a doutrina. Esquecem-se, os patrulhadores da fé, que ser discípulo de Jesus significa se tornar, pelo batismo, um alter Christus (outro Cristo), agindo do mesmo modo que o Mestre. Se as cabeças de muitos cristãos e cristãs estão a prêmio, por reinvindicarem a justiça do Reino, a cabeça de Jesus vale muito, pois a ideia vem toda dele. O preço alto já estamos pagando: a desumanização da humanidade. Os pobres todos, ainda suspensos na cruz, que o digam!

* Felipe Magalhães Francisco é mestre em Teologia, pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia. Coordena a Comissão Arquidiocesana de Publicações, da Arquidiocese de Belo Horizonte. Coordena, ainda, a Editoria de Religião deste portal. É autor do livro de poemas Imprevisto (Penalux, 2015). Escreve às segundas-feiras.
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