terça-feira, 5 de abril de 2016

Padre Samir: convite ao Íman de al-Azhar incentiva luta contra o terror


Um convite oportuno

"A ideia de convidar para o Vaticano o Grande Íman de Al-Azhar foi uma escolha muito boa, feita no momento certo". Padre Samir Khalil Samir, jesuíta egípcio, professor de Estudos Islâmicos em Beirute e no Pontifício Instituto Oriental de Roma, comenta sobre a recente visita ao Cairo de uma delegação do Vaticano, na Universidade de al-Azhar, para convidar o grande Íman, Dr. Ahmad Al-Tayyib. Da visita ao Cairo falou também o Papa Francisco, durante a conferência de imprensa, no voo de regresso do México, afirmando que é seu desejo encontrar o Íman, e que sabe que o próprio reitor de Al-Azhar também gostaria do encontro.
A entrevista é de Fabio Colagrande, publicada pela Rádio Vaticano, 02-04-2016. A tradução é de Ramiro Mincato.
Eis a entrevista.

Retomar o diálogo

"Durante o pontificado de Bento XVI - diz Samir - as relações eram delicadas, devido ao conflito que nasceu quando usaram algumas de suas palavras como pretexto, que na realidade não eram dirigidas contra ninguém, mas eram para defender a liberdade religiosa. O convite é uma maneira de retomar o diálogo com o Islã Sunita, porque A-Azhar, como se sabe, é o Ateneu que forma o maior número de Ímanes sunitas, milhares ao ano, e é a Universidade muçulmana mais famosa, existente há mais de mil anos".

A crise no mundo muçulmano

"Aquele do Vaticano - diz o estudioso do Islã - é um passo para retomar o contato com um dos principais centros de formação intelectual islâmico, e portanto, para enfrentar a um dos temas chaves da crise do mundo muçulmano. O fato de que o Papa tenha enviado à instituição sunita o Núncio Apostólico no Egito, Mons. Musarò, e o secretário do Dicastério para o Diálogo Inter-religioso, Dom Guixot Ayuso, tem grande importância simbólica, e espero que o reitor da Al-Azhar venha ao Vaticano para encontrar o Papa e retomar um diálogo já iniciado, e que foi interrompido cinco anos atrás".
Apoiar o Islã para combater o Daesh
"O mundo islâmico - explica ainda Samir - está vivendo, hoje, talvez, a mais grave crise já experimentada nas últimas décadas. Um verdadeiro ‘choque interno’, causado pela ideologia propagada pelo autointitulado Estado Islâmico, EI ou DAESH. Uma ideologia – aquela do EI - sem precedentes, inaceitável e que subverte o próprio mundo islâmico". "O pretexto de recriar os califados é sem qualquer justificação e não se entende por que põe em questão o Ocidente", acrescenta Samir. "Precisamente por esta razão, é muito importante apoiar hoje o mundo muçulmano. Não adianta lutar contra ele, mas, ao contrário, é preciso estar-lhe próximo e oferecer-lhe a própria experiência, visto que na Igreja Católica experimentamos problemas semelhantes".

O núcleo interpretativo do Alcorão

"A questão de fundo, hoje, no pensamento islâmico, - explica Samir - é de fato a da interpretação do Alcorão. É impossível, hoje, a interpretação literal, especialmente das passagens que envolvem violência. E por isso é impossível aplicar os princípios pregados pelo EI ou Daesh. Ora, a Universidade de Al-Azhar se opõe completamente, cem por cento, a esta interpretação literal do Corão, mas é também verdade que os terroristas do Ei se apoiam em interpretações, cursos e textos de ímanes sunitas, que não a condenam abertamente. Dialogando com os muçulmanos, sempre me esforço de lembrar-lhes que já na Idade Média o Islã tinha resolvido essa disputa, acrescentando à conclusão, que o texto deve ser interpretado, e que, apenas há um século, domina essa tendência de aplicá-lo literalmente. A mudança feita sob a influência de correntes fundamentalistas, como "wahhabismo", uma doutrina proveniente da Arábia Saudita e do Qatar, que são as províncias mais ricas do mundo islâmico e, portanto, capazes de difundir, impor, por todos os lados sua ideologia, mais do que sua teologia. Por isso, penso ser essencial manter a amizade com Al-Azhar, para ajudá-lo e encorajá-lo a contrastar estas tendências".

A palestra em Regensburg

"Caminhando nessa direção, o terrorismo será visto apenas como terrorismo, sem conexão alguma com o verdadeiro Islã", conclui padre Samir. "Reinterpretar o Alcorão é, hoje, o caminho da salvação. Nós, como cristãos, podemos incentivar esse processo, mostrando como também em nossa tradição, a interpretação literal da Bíblia foi superada". “Não é um ato de que se envergonhar, não é um sinal de infidelidade a Deus, mas é apenas uma maneira de usar a razão. O ponto chave é combinar 'fé e razão’, precisamente o que Bento XVI explicava em seu famoso discurso em Regensburg, que foi mal interpretado. É este o verdadeiro passo para frente, para sair da crise do Islã".
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