sábado, 30 de abril de 2016

O Evangelho da nova fraternidade. Entrevista com Christoph Theobald

[unisinos]


De origem alemã, francês por adoção, Christoph Theobald é um dos teólogos mais lidos e citados em nível internacional hoje, em particular pela sua profunda e argumentada reflexão sobre o "estilo" evangélico como característica peculiar da presença cristã no mundo. A reportagem é de Lorenzo Fazzini, publicada no jornal Avvenire, 27-04-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Chegou recentemente às livrarias Fraternità (Ed. Qiqajon, 94 páginas), texto em que estão incluídas duas conferências nas quais o jesuíta do Centro Sèvres de Paris explica o sentido dessa dimensão da vida. Além disso, foi o Papa Francisco que enfatizou a sua importância desde a sua aparição na Praça de São Pedro no dia 13 de março de três anos atrás, quando usou, na primeira saudação como pontífice, precisamente o termo "fraternidade".
Eis a entrevista.

No seu ensaio, você enfatiza muito a dimensão social do Evangelho. A Igreja de hoje tem bem ciente esse aspecto da mensagem cristã?

Eu acho que existiu uma longa tradição que ressaltou e implementou esse vínculo intrínseco entre anúncio evangélico e dimensão social. Talvez, porém, esse aspecto se tornou mais atenuado em outra época. Explico-me. Na França, no norte da Itália, na Alemanha e na Áustria, entre o fim do século XIX e a primeira metade do século XX, vimos surgir um verdadeiro catolicismo social, por exemplo, com Pio XI e mediante a difusão da Ação Católica. Um catolicismo social cuja metodologia foi, depois, condensada no lema "ver, julgar, agir", cunhado pelo teólogo belga, depois cardeal, Joseph-Léon Cardijn. Foi essa visão do anúncio cristão que levou à redação da constituição pastoral Gaudium et spes, que desenvolveu a questão social do Evangelho em relação a vários âmbitos: família, economia, política, paz...
Além disso, durante o Concílio Vaticano II surgiu aquele grupo pela "Igreja pobre e dos pobres" em torno das figuras do cardeal Giacomo Lercaro e de Dom Hélder Câmara, que, depois, levaram à conferência do Celam de Medellín, à opção preferencial pelos pobres, à teologia do povo da qual o Papa Francisco é um apoiador. Talvez, como eu mencionava antes, no período turbulento do pós-Concílio, uma época muito controversa, houve um retorno à identidade cristã nos países do mundo ocidental com os pontificados de João Paulo II e de Bento XVI em torno da liturgia e da catequese. Isso ocorreu, talvez, por um certo medo do relativismo. Nesse sentido, algumas experiências particulares, como as dos padres operários e, mais em geral, do catolicismo social, foram postas à margem. Com Francisco, em vez disso, tanto com a Evangelii gaudium quanto com a Laudato si', o papa volta a pedir que a Igreja tome o caminho do catolicismo social.

Você citou uma certa "linha" que, de Lercaro, chega a Francisco. A sensibilidade desse percurso espiritual e teológico é patrimônio comum da Igreja de hoje?

Há muito a fazer, e há resistências. É isso que eu penso realmente. Eu acredito que isso está presente no âmbito laical, assim como no clero. Aquilo a que o Papa Francisco chama é verdadeiramente uma conversão, uma mudança de olhar. É preciso passar de um interesse da Igreja que podemos definir como centrípeto, para o qual os pastores querem trazer as pessoas para dentro da Igreja, a um olhar no qual a Igreja se põe a serviço do futuro do mundo, da vida, da cultura, do futuro das novas gerações. Queremos uma ou outra perspectiva? O que Francisco nos pede é uma conversão que remete à afirmação de Jesus: "Eu vim para trazer fogo sobre a terra. E como gostaria que já estivesse aceso". Francisco nos indica que o trabalho a ser feito é, acima de tudo, de natureza espiritual.

Em Fraternità, você usa uma expressão muito curiosa, a da "Igreja rabdomante". O que significa?

A fórmula pode parecer um pouco surpreendente e metafórica, mas eu gostaria de explicá-la brevemente. O anúncio do Evangelho não pode mais ocorrer segundo a ordem que chamaríamos "de implantação" a partir de fora. Outra perspectiva, em vez disso, nos diz que o anúncio do Evangelho já é precedido pela presença discreta de Deus no coração das pessoas e do mundo. O modo de ser da Igreja deve seguir o de Jesus, que percorria a Galileia e ia procurar as falhas da sociedade com um anúncio de vida, que já era esperado pelos homens e pelas mulheres daquele tempo. Não devemos pensar na missão como em um anúncio voluntarista e de caráter institucional. O Evangelho já está lá onde o cristão chega para testemunhá-lo.
Pode nos dar um exemplo concreto de tudo isso?
Tomemos a carta encíclica Laudato si', quando o papa diz que a primeira Declaração do Rio sobre o Ambiente é um texto profético. Isso significa que o traço de profetismo próprio do povo de Deus já estava presente no profetismo do movimento ecológico, que não era cristão. Como bem sabemos, a ecologia não foi iniciada pela Igreja, mas nasceu no leito dos chamados movimentos alternativos. Pois bem, a Igreja encontrou esse valor alhures e, de lá, releu a sua grande tradição, assim como a Escritura, e elaborou uma teologia da criação que, antes, ela não tinha explicitado em todos os seus aspectos.

O termo "fraternidade" pode ser colocado ao lado do valor da misericórdia, princípio-guia do pontificado do Papa Francisco?

Em extrema síntese: são diferentes, mas também são a mesma coisa. O conceito de fraternidade é evidentemente cristão, mas a sua força consiste no fato de que, ao longo do tempo, ele se secularizou, em particular a partir da Declaração dos Direitos Humanos, que deu origem à República francesa. Mas, enquanto os princípios de liberdade e de igualdade podem ser normalizados em instituições jurídicas, a fraternidade é uma espécie de transcendência imanente sobre a qual não é possível legislar.
No coração das nossas constituições republicanas, de fato, há a liberdade e a igualdade, enquanto a fraternidade é algo que não pode se tornar lei. Eis, então, a sugestão do Papa Francisco: devemos realizar uma "mística da fraternidade", que nos faça ver em todos, em particular nos marginalizados e nos últimos (os pobres, os deficientes, os idosos, as crianças...) a presença de Deus. A misericórdia, nesse sentido, se torna a fraternidade que vai até o fim. E quem é capaz disso? Deus em Jesus Cristo. "Sejam misericordiosos como o Pai de vocês que está nos céus" é uma tarefa árdua. Mas é um convite que nos leva a ter um coração dócil e aberto.
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