quarta-feira, 27 de abril de 2016

Jesus ou Cristo? Diálogos entre história, razão e fé.

[domtotal]
Por Fabrício Veliq*

Para os cristãos não há como falar do Cristo da fé sem falar da pessoa do Jesus que viveu na Galileia


Ao longo da teologia cristã, a história sempre teve um papel importante. O motivo disso, embora pareça óbvio, nem sempre se mostrou tão claro assim. Contudo, se retornarmos à própria história do povo de Israel, veremos que ali já se encontra a base para a preocupação histórica a respeito de Deus. Em todo o relato bíblico, o Deus de Israel foi sempre conhecido como um Deus a partir da história, diferentemente dos outros deuses dos outros povos que viviam nas comunidades vizinhas. Israel, ao se referir ao seu Deus, sempre o fazia em menção às obras realizadas por esse Deus ao longo de sua história como povo.  O Deus de Israel é aquele que os tirou da terra do Egito, da terra de escravidão, e os fez habitar na terra de Canaã; é aquele que chamou a Abraão e o mandou sair da terra de seus pais e ir para uma terra que seria mostrada a ele, e tantos outros exemplos que o texto bíblico nos mostra.
Para não ficarmos somente no Antigo Testamento, o relato do Novo Testamento também traz essa característica do fator histórico na comunidade de Israel. O evento da mulher samaritana que, ao falar a respeito do poço que seu gado beberia, menciona que aquele poço havia sido cavado por Jacó que dera a beber a seu gado e todos que estavam com ele, traz, também, essa característica marcante da comunidade de Israel na relação com seu Deus enquanto agente na história.
A comunidade cristã surge a partir desse povo que vê Deus como atuante na história e se revela ao povo na própria história. Os evangelhos escritos pelas primeiras comunidades cristãs tratam de narrar histórias da pessoa de Jesus que, para os cristãos, é a revelação histórica da pessoa de Deus e, pela interpretação das promessas feitas a Deus a seu povo, o Cristo de Deus que deveria vir ao mundo.
Somente na Idade Moderna, a partir de 1748, que alguns teólogos começam a questionar qual a relação existente entre o Jesus da história relatado pelos evangelhos e o Cristo da fé pregado, até então, pela Igreja. Desse questionamento é que surgem as chamadas buscas do Jesus histórico, que se estendem até dias atuais e geram diversos livros que fazem levantamentos, nem sempre sérios, a respeito da pessoa de Jesus.
No entanto, em nível histórico e teológico, essas buscas apresentam, até o momento, três fases. A primeira, iniciada em 1748 por Reimarus e finalizada por volta de 1901 com Schweitzer, chega à conclusão de que é impossível fazer uma biografia de Jesus, o que dá margem para que, pouco antes do início da segunda busca do Jesus histórico, surja a ideia de Bultmann de que somente o Cristo da fé é importante para o ser cristão e que o Jesus histórico não precisa, assim, ser procurado. A segunda busca visa, então, a partir dos discípulos de Bultmann, principalmente Käsemann, a mostrar que o Cristo da fé é decorrência do Jesus histórico, de maneira que é impossível se pensar em um Cristo da fé que não surja a partir da experiência histórica que as primeiras comunidades cristãs tiveram com a pessoa de Jesus. Embora traga grandes avanços na compreensão cristã a respeito da conciliação entre Jesus histórico e Cristo da fé, a segunda busca falha em tentar separar Jesus do seu contexto judeu. É nesse sentido que a terceira busca, que inicia por volta de 1980, entra em jogo e tem seus esforços concentrados em trazer Jesus de novo para o ambiente judaico, a fim de entender quais os contextos sociais, antropológicos, religiosos e políticos existentes na comunidade em que Jesus viveu. Essa fase segue até dias atuais, sempre no intuito de ter maior fidedignidade a respeito da história de Jesus.
Como conciliar Jesus histórico e Cristo da fé? Embora não explicitamente, essa é a questão que permeia, principalmente, a primeira e a segunda busca do Jesus histórico e se coloca como desafio para o cristianismo ainda em tempos atuais, à medida que as pesquisas a respeito dessa questão avançam.
Para os cristãos não há como falar do Cristo da fé sem falar da pessoa do Jesus que viveu na Galileia no século I. A pessoa do Jesus histórico é o Cristo da fé. Se pensarmos, como Bultmann, que somente o Cristo da fé é importante e desconsiderarmos a pessoa de Jesus, seria como crer em um Deus sem história, em uma criação mitológica. Se, do contrário, pensarmos que o que importa é somente a pessoa de Jesus, seria como crer em mais um discurso bem elaborado das primeiras comunidades cristãs que restaram até nossos dias. Em ambos os casos, estaríamos longe do verdadeiro testemunho pregado pelas primeiras testemunhas, frutos da experiência com o Ressuscitado. Curiosamente, o fator experiência, embora muito relegada pelo método histórico, tem se mostrado um fértil campo de pesquisa ao se tentar retomar as buscas pelo Jesus histórico
Mas seria somente um processo racional, de maneira que, uma vez explicado como que Jesus histórico e Cristo da fé se convergem na pessoa de Jesus Cristo, o mistério da fé estaria resolvido?  Obviamente, não, uma vez que o mistério ainda permanece. Embora pesquisa racional e histórica se mostre necessária na tentativa de que essa convergência entre Jesus histórico e Cristo da fé para o cristianismo se torne possível, não podemos esquecer que a experiência de fé é crucial para que esse Jesus Cristo se torne um Jesus Real para nós, ou seja, um Jesus que nos fala e vem ao nosso encontro quando nos dispomos a ir até Ele. Esse encontro não se dá somente por uma teologia escolar. Ela vem também através da experiência com Jesus, através de um viver como Jesus viveu, em total abertura para Deus e para o próximo, passando a ser uma exegese a partir da vida sempre atualizada pela presença de Jesus em nós na pessoa do Espírito Santo.
Assim, ao longo da teologia cristã, o diálogo entre história, razão e fé permanece. E esperamos que ainda haja bons frutos a colher desse diálogo.


* Fabrício Veliq é formado em matemática pela UFMG, graduando em filosofia pela UFMG, mestre em teologia pela Faculdade Jesuíta de Belo Horizonte (FAJE) e doutorando em teologia na mesma faculdade. Atualmente ministra cursos de teologia no curso de Teologia para Leigos do Colégio Santo Antônio, ligado à ordem Franciscana. É protestante e ama falar sobre teologia em suas diversas conversas por aí.  
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