terça-feira, 5 de abril de 2016

Como entender o livro do Apocalipse?

[aleteia]
Por Prof. Felipe Aquino

Descrição antecipada dos acontecimentos do futuro? Apresentação de uma mesma realidade sob vários símbolos diferentes?

 


O Apocalipse foi escrito pelo Apóstolo São João, já no final de sua vida, por volta do ano 100, sob a forma de uma carta às Igrejas da Ásia menor, que viviam tempos difíceis por causa da perseguição romana. Bastante enigmático e difícil de ser entendido, é um livro que pode gerar muitos erros de interpretação – como já ocorreu muitas vezes, ao longo da história, ao não se observar com cuidado o modo como a Igreja o interpreta.
O imperador romano Domiciano (81-96) moveu forte perseguição aos cristãos, tendo deportado São João, que era o bispo de Éfeso, para a ilha de Patmos. Ao mesmo tempo, os cristãos eram hostilizados pelo judeus e aguardavam a volta de Cristo, que não acontecia, para livrá-los de todos os males.
Foi nesse contexto que o Apóstolo escreveu o Apocalipse: para confortar e animar os cristãos das já inúmeras comunidades da Ásia Menor. Apocalipse, do grego “apokálypsis” (“revelação”), era um gênero literário que se tornou usual entre os judeus após o exílio da Babilônia (587-535 a.C.). O Apocalipse de São João descreve os fins dos tempos, quando Deus vai julgar os homens. Essa intervenção de Deus abala a natureza (fenômenos cósmicos), com muita simbologia e números. O Apocalipse não pretende dar uma descrição antecipada dos acontecimentos do futuro, mas apresentar uma mesma realidade sob vários símbolos diferentes; e tudo é feito com uma linguagem intencionalmente figurada para despertar a atenção do leitor, acostumado ao gênero apocalíptico usado pelos judeus.
Alguns símbolos têm significado preciso: o Cordeiro simboliza o Cristo; a mulher, a Igreja ou a Virgem Maria; o dragão, as forças hostis ao reino de Deus; as duas feras (cap.13), o império romano e o culto imperial; a fera (cap.17) simboliza Nero; Babilônia, a Roma pagã; as vestes brancas, a vitória; o número três e meio, coisa nefasta ou caduca. Mas esses símbolos não são exclusivos; o Cristo é, às vezes representado como “filho do homem” ou cavaleiro.
O Apocalipse é uma revelação sobrenatural, velada, sob símbolos, representando o passado, o presente e o futuro da Igreja. Ele se refere a um período indefinido que separa a Ascensão de Cristo da sua volta gloriosa. Deixa clara a impossibilidade de se escapar à luta e ao sofrimento, às perseguições e ao fracasso aparente no plano terrestre, e também afirma a realidade da salvação e a vitória final, que é obra de Cristo ressuscitado, vencedor do pecado e da morte.
A mensagem principal do livro é que Deus é o Senhor da História dos homens e que, no final, haverá a vitória dos justos, em que pese o sofrimento e a morte. Mostra a vida da Igreja na terra como uma contínua luta entre Cristo e Satanás, atestando que no final haverá o triunfo definitivo do Reino de Cristo, que implica a ressurreição dos mortos e a renovação da natureza material. As calamidades que são apresentadas não devem ser interpretadas ao pé da letra. Deus sabe e saberá conduzir a humanidade, por entre todos os sofrimentos, à vitória final do Bem sobre o mal.
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