sábado, 5 de março de 2016

Pedofilia. Quarto depoimento de Pell: “Nunca pagou pelo silêncio das vítimas”

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Ridsdale, Dowlan, Searson, Ryan, Day: todos homens de Igreja, todos predadores, culpados de abusos sexuais de menores nos anos 1960- 80. Todos, por uma trágica piada do destino, reunidos na diocese de Ballarat, cidade australiana onde só a congregação dos “Irmãos cristãos”, que controlava várias escolas, foi responsável por bem 850 crimes, com 281 religiosos envolvidos, pagando cerca de 37 milhões por indenizações. Em Ballarat 47 pessoas, vítimas de abusos, preferiram tirar sua própria vida, em vez de viver com o peso do horror sofrido.
Vem a pergunta: como foi possível tudo isso. Por que uma taxa tão alta de crimes em um só lugar? Por que todos estes sacerdotes pedófilos na mesma diocese?
“Eu acho que foi uma coincidência … desastrosa”, responde laconicamente o cardeal George Pell durante a quarta audiência com a Comissão Real de Inquérito. Desde o Hotel Quirinale, o ministro das finanças do Vaticano se conecta por Hangout com o órgão do governo que continua a espremê-lo sobre o papel que desempenhava naqueles anos negros da Igreja na Austrália, durante os quais primeiro foi nomeado vigário episcopal de Ballarat e depois bispo auxiliar e arcebispo de Melbourne.
Enquanto isso o Ballarat Survivors Group, o grupo de 14 vítimas vindas a Roma para ouvir de perto o testemunho do cardeal e pedir justiça, estão ainda lá, na Sala Verdi do hotel, sentados em primeira fila. Sobressaltam-se perante certas afirmações do prelado. Uma mulher ontem – relataram algumas agências anglo-saxã – levantou-se para soltar imprecações durante o depoimento e não faltaram vaias durantes os três depoimentos.
As vítimas partirão sexta-feira para a Austrália, mas primeiro esperam encontrar-se pessoalmente com o Papa como solicitaram ontem por meio de uma carta escrita a mão. Também ao cardeal Pell foi pedida uma audiência privada, para trazer à tona aquela verdade não dita há mais de 40 anos. Um dos porta-vozes do grupo, David Ridsdale, sobrinho do famigerado padre Gerard Ridsdale, abusado pelo seu tio, disse aos repórteres que recebeu uma “resposta positiva” por parte do cardeal e o encontro seria hoje, quinta-feira, 3, março, no Hotel Quirinale. Sempre quinta-feira, às 9.30, os sobreviventes foram convidados a encontrar na Pontifícia Universidade Gregoriana o pe. Hans Zollner, membro da pontifícia Comissão para a tutela dos menores.
“O importante – disse Ridsdale – é que, no final destes dias, seja reconhecido que este (os abusos realizados pelo clero, ndr) é um problema sistêmico global. Queremos que estes problemas cheguem à alta hierarquia e precisamos da certeza de que se esteja procedendo com ações a não só palavras”. “Sabemos que o passado não pode ser apagado – acrescentou – porém, pedimos que quem realizou os nossos abusos sejam responsabilizados”.
A Comissão está do lado deles e não reserva nenhum respeito com o interrogado, Pell. Quem realizou a entrevista deste quarto depoimento não foi Gail Furness, como até agora, mas alguns advogados que assistem às vítimas. O primeiro – que não nomeia o seu cliente, identificado apenas pela iniciais BWE – pergunta: “Na época, havia 4-5 pessoas que fizeram este tipo de crimes” em Ballarat. “Você acredita que seja uma infeliz coincidência?”. “Sim”, Pell respondeu: “não acho que todas essas pessoas tenham sido colocadas juntas por uma finalidade específica…”.
Diz então de não sentir-se alvo deste processo, nem de encontrar-se na definição do advogado do “diabo de uma caça ás bruxas”, apesar de que – afirma esteja girando muitas calunias a seu respeito. Ontem afirmava, pelo contrário, ter sido “enganado” pelo sistema, enganado pelo seu antecessor, em Melbourne, Dom Frank Little, e mal informado sobre a situação das vítimas “de um mundo de pedofilia e ocultação que não queria distúrbios ao status quo” porque senão ele teria realizado “ações decisivas”. Os sobreviventes acham exatamente o contrário: Pell sabia, dado que cobria cargos importantes naquele período, mas não levantou um dedo.
Intervém, portanto, o advogado que assiste Paul Levey, uma das muitas, muitíssimas, vítimas do Pe. Ridsdale, presente em Roma. O seu horrível caso (abusado sexualmente aos 14 anos, “o tempo todo quase todos os dias” pelo sacerdote nos anos 70, na paróquia de Mortlake) já havia sido submetido à atenção do cardeal na segunda audiência de segunda-feira à noite. Pelos crimes realizados em Levey – mas não só –  Ridsdale acabou processado em 1993, depois de ter sido transferido seis vezes de paróquia em paróquia. Na primeira audiência foi precisamente Pell que o acompanhou; os dois haviam compartilhado a casa nos primeiros anos de sacerdócio.
O cardeal confirma e explica que apareceu no tribunal perto do religioso porque “me foi pedido”. Um modo para procurar reduzir a sua pena, que, porém, aos olhos das vítimas pareceu como um implícito apoio aos crimes do sacerdote pedófilo. “Foi um erro”, admite, de fato, Pell, acrescentando ter tido a impressão de que David – o sobrinho de Ridsdale – “tenha sofrido ao ver que acompanhava o tio na audiência” .”Não tinha a intenção de contestar as acusações – se justifica, portanto, o cardeal – não queria desrespeitar as vítimas, pelo contrário era consciente de que o padre Ridsdale causou um grave dano à Igreja”.
Então, por que foi transferido para seis paróquias, em vez de ir direto para as grades da prisão? Sobre a mesa acabam as gravações de uma ligação que parece demonstrar como Pell tinha procurado comprar o silêncio de David Ridsdale. O homem-chave das finanças do Vaticano rejeita categoricamente esta versão: “Nunca impedi ou desencorajei ninguém para ir à polícia”. Menos ainda David que considerava “um amigo”; apesar disso, porém, nunca o ajudou concretamente: “Falei bastante com ele. Ele nunca me pediu para fazer nada. Se tivesse me pedido para algo certamente eu teria feito”.
Nas quase três horas de entrevista, no entanto, surgiu outra verdade: em 1974, o menino dirigiu-se diretamente a Don George Pell, então sacerdote encarregado pelo bispo de tratar da educação católica, para falar-lhe do professor Edward Dowlan que “se comporta mal com os jovens” em uma das escolas católicas de Ballarat. Aquele “comportar-se mal” revelou-se mais tarde ser abusos sexuais a pelo menos 20 jovens em seis diversas escolas australianas, a partir de 1971.
“Não percebe que deveria ter feito mais e assim teria posto fim aos abusos?”, interveio o presidente da Comissão Real, Peter McClellan, depois de ouvir o testemunho. “Bem, no fim das contas fiz algo – respondeu Pell – pedi informações ao capelão da escola… Não tinha ideia de que os ‘Irmãos Cristãos’ estavam cobrindo a situação da maneira que está claro agora”. A minha “falta” – acrescenta o cardeal – “foi a de limitar-me a ir ao capelão da escola para perguntar-lhe se os rumores eram verdadeiros”. “Não foi diretamente à escola dizer: recebi essa denúncia, o que está acontecendo aí?”, rebate McClellan. “Não”, diz Pell, e admite: “Com a experiência de 40 anos depois, certamente, eu concordo que teria que ter feito mais”.
A Comissão pressiona e propõe o caso de uma outra denúncia barrada pelo bispo de Ballarat, mons. Ronald Mulkearns, do qual Pell era vigário, apresentada por uma mãe que acusava o padre Paul David Ryan de ter abusado do seu filho por cerca de 12 anos em um banheiro. Como testemunhado por um depoimento já realizado em Melbourne de Monsenhor Glynn Murphy, secretário do Bispo de Ballarat entre 1990 e 1997, no momento da denúncia da mulher, Mulkearns decidiu enviar Ryan imediatamente para outra paróquia. Depois de alguns meses, foi enviado para os EUA para ser tratado clinicamente por “transtornos psiquiátricos”.
Pell confirma saber da viagem repentina de Ryan para os EUA, mas não das razões que o levaram a fazê-lo. “Eu – disse – acreditei no que o bispo disse ao clero, ou seja, que Ryan esta nos Estados Unidos por motivos de estudo”. Já então – admite, porém – acreditava que o Pe. Ryan fosse um potencial problema, mas não estava ciente do fato que havia um problema de pedofilia”.
Entre as perguntas da Comissão, também um esclarecimento sofre a frase da segunda-feira depois da discussão sobre os vários crimes cometidos pelo Pe. Ridsdale: “Foi uma história triste, mas não de grande interesse para mim”, disse o cardeal, suscitando uma forte vaia na Sala. “Peço desculpa pela escolha das palavras”, se justifica, “estava muito confuso, respondi mal”.
O mea culpa não serviu, porém, para aplacar o ressentimento dos sovreviventes, ainda escandalizados pelo que indicam como um obstinado pouco interesse pelos seus sofrimentos. Apesar disso Pell, em um certo ponto da audiência, revelou de surpresa: “Li muitas histórias de jovens abusados. São narrações terríveis e me sinto profundamente triste por vocês. Muitos deles ficaram doentes por toda a vida”.
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