terça-feira, 29 de março de 2016

É urgente repensar a preparação para o Matrimônio

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O Papa Francisco assinou, no dia 19 de Março (dedicado a São José) um documento denominado exortação pós-sinodal. Este documento já era esperado como conclusão do Sínodo sobre a Família encerrado no ano passado.
Podemos dizer que milhares ou milhões de católicos participaram, mesmo que indiretamente, desse sínodo, pois a todas as paróquias do mundo foi enviado um conjunto de reflexões e perguntas (Lineamenta). Diversos grupos e movimentos puderam enviar suas respostas, que foram consolidadas por dioceses e enviadas ao Vaticano. Além disso, bispos, sacerdotes e leigos de todo o mundo participaram das reuniões sinodais.
Por tanto envolvimento dos fiéis e especialmente por se tratar da família, há grande ansiedade por tal exortação que ainda não foi divulgada. Contudo, os vários documentos já publicados, como discursos do Papa durante o sínodo e relatórios, nos fazem esperar que a exortação venha com grande apelo pastoral e com inovações práticas, mas sem grandes questões doutrinárias.
Um dos pontos importantes da esperada exortação deve ser a questão da preparação para o Matrimônio. Parece novidade que a Igreja venha pedir aprofundamento nisso, mas não é. Já em 1981, na encíclica Familiaris Consortio, de João Paulo II, a Igreja foi convidada a estruturar o itinerário de formação em três etapas (você sabe quais são?). Destas três etapas, não tenho receio em dizer que a grande maioria dos noivos somente têm contato com uma.  Em geral o que acontece é um curso de fim de semana com palestras sobre alguns temas e, infelizmente, em data próxima da data da celebração do Matrimônio. Aquilo que deveria acontecer com antecedência, como um percurso catequético (Preparação Próxima), ocupou o lugar de outra etapa que é destinada à uma revisão, oração e preparação da celebração (Preparação Imediata). Em 1996, o documento Preparação para o Sacramento do Matrimônio nos ofereceu mais pistas, principalmente sobre o comprometimento com nossa formação, o conteúdo, a forma e a fidelidade ao Magistério da Igreja.
Minha esposa e eu estamos nessa missão há mais de 15 anos.  No começo pensávamos estar no caminho certo e talvez até convencidos de que fazíamos o que a Igreja nos indicava. Mas o fato é que não conhecíamos quais eram essas indicações e, embora encontrássemos satisfação por parte dos noivos, percebemos que a Igreja nos pede mais e de modo diferente. Nosso primeiro  questionamento era sobre o conteúdo. Descobrirmos que a Igreja nos pede um corpo mínimo de conteúdos enquanto o que encontramos na maioria das paróquias são palestras desconexas e até, por algumas vezes, contrárias ao Magistério da Igreja. E isso sob a tutela de palestrantes que pensam ter mais experiência e sabedoria que a Igreja, esta guiada pelo Espírito Santo. Ou preferem ganhar algumas salvas de palmas e escutarem o salão tremer em risadas de aprovação de suas piadas que paganizam o sagrado e fazem os noivos esquecerem que o Matrimônio é muito mais que um fato social, é um sacramento.
Em minhas viagens pelo Brasil, assessorando equipes de preparação para o Matrimônio, é comum encontrar pessoas de muita boa vontade, mas que atuam há anos, talvez há décadas nesta pastoral sem nunca ter estudado os capítulos sobre Matrimônio de nosso Catecismo, das encíclicas e de documentos como o Preparação para o Sacramento do Matrimônio (que completa 20 anos em 2016!). Este mesmo documento, ainda desconhecido, indica que os agentes que atuam com noivos sejam pessoas de “doutrina segura e fidelidade indiscutível ao Magistério da Igreja”. É comum em assembleias estaduais com duas a três centenas de pessoas, encontrar de dez a vinte que sabem da existência de tais documentos.
O segundo ponto de nosso questionamento foi sobre a forma. Como trabalhar temas profundos e algumas vezes complexos em forma de palestras? Encontramos eco também nos documentos citados. Eles são unânimes em dizer que é preciso “tempo e cuidados necessários” para a realização da Preparação Próxima (os nossos cursos ou encontros). Há anos me questionava como poderíamos dizer que trabalhávamos com noivos fazendo, de vez em quando, uma palestra? E, em geral, a mesma palestra utilizando a mesma ficha amarelada ou o mesmo “power point” onde até sabemos a hora em que vão rir ou chorar…. O pior disso tudo é considerar normal que um casal seja o responsável pelo mesmo tema de palestra durante anos e passe distante de outros temas. Mas, se são casados, deveriam ser capazes de partilhar qualquer um dos temas da vida de casados, não? Casos mais delicados são encaminhados aos especialistas, mas os agentes devem ter noções ( e vivência) gerais, como um médico generalista.
O Papa Francisco, em 18 de Fevereiro, lamentou: “para um Sacramento que é para toda a vida, três, quatro palestras…” Ele demonstra claramente a preocupação com o que tem acontecido. Mas, repito, não acontece por falta de orientação. A Igreja, seja o Vaticano como também a CNBB, oferece orientações e subsídios, resta-nos buscar formação.
Talvez você possa estar no coro daqueles que dizem que não dá pra mudar, pois os noivos não aceitariam fazer nada diferente do que já acontece. Ou ainda seu pároco (ou talvez o senhor mesmo, se for um sacerdote) pode pensar que reunir os noivos por algumas horas já seja uma vitória neste mundo corrido e, por isso, que se mantenha como está.
Pode ser uma vitória manter em funcionamento os cursos da forma como acontecem, mas mantê-los assim com a justificativa que ninguém aceitaria mudanças é, me desculpe a sinceridade, história para boi dormir…  Ora, estamos falando de sacramento! Por acaso, se os vocacionados ao seminário começarem a dizer que desistem do sacerdócio por não aceitarem tantos anos de estudo, deveríamos reduzir a formação do padre para um ou dois anos?? Da mesma forma, se os noivos chegam com essa desculpa, estão mais uma vez provando que não entenderam o que é o Matrimônio. Nivelar por baixo pode ser cômodo e pode agradar a gregos e troianos, mas não é a solução.
Pode acontecer que o devido valor e cuidado com a preparação do Matrimônio resultem em menor número de matrimônios, num primeiro momento. Alguns vão dizer que não querem mais se casar na Igreja pelas dificuldades que colocamos. Nós colocamos? Dificuldades são as modas que a sociedade consumista e exibicionista impõem e estes noivos as absorvem com se fossem regras. Que sejam em menor número, mas com certeza serão de melhor qualidade…
No Brasil, várias paróquias e dioceses inteiras já investem na mudança estrutural há anos. Temos casos até de dioceses que, por decreto episcopal, ficou proibida a realização dos tradicionais encontros/cursos de fim de semana, e isso na década de 90! Há diversas experiências positivas de muitos anos com equipes que buscam a fidelidade nos temas e na estrutura, realizando vários encontros com os noivos. Assim permitem melhor entendimento sobre o Matrimônio, além de gerar vínculo entre os agentes e os noivos.
Além disso, a equipe de agentes tende a aumentar. Neste modelo não precisamos de casais que falem em público e façam palestras, o que treme as pernas de muitos casais aptos a colaborar. Se aproximarão da equipe outros casais que, no modelo de partilha em pequenos grupos, se sentirão à vontade para partilhar, apoiados por um material ou guia para as reuniões.
Mas isso exige compromisso. Ao invés de fazer algumas horas de palestras por ano, nos encontramos quase semanalmente com os noivos. Terminamos uma turma e já começa outra. É perseguir o compromisso da “Igreja em saída”.  No primeiro relatório do Sínodo em Outubro de 2014 já tínhamos a indicação da necessidade de um “maior compromisso na preparação dos noivos para o Matrimônio”. Compromisso de todos, dos próprios noivos, dos leigos e do clero.
O relatório final do Sínodo destaca a palavra acompanhar que é bem diferente de fazer palestras: “Os percursos de preparação para o matrimónio sejam propostos também por cônjuges capazes de acompanhar os nubentes antes do casamento e nos primeiros anos de vida matrimonial.” (parágrafo 58 do relatório final do Sínodo 2014-2015). E o documento base, um desconhecido de nossas equipes, orienta que ”…serão necessários encontros frequentes, num clima de diálogo, de amizade, de oração, com a participação de pastores e de catequistas”.(PSM37)
Me permita relatar nossa experiência, a de um casal que buscava servir no formato tradicional por mais de 10 anos e realizamos a transição ao modelo de acolhimento, onde nos encontramos com os noivos uma vez por semana em reuniões que duram aproximadamente 1h30.  Desconfiança, insegurança e outros sentimentos estiveram presentes diante das mudanças. Mas se Igreja nos pede isso, não pode dar errado. E não deu!
De início, em nossa paróquia, funcionaram os dois modelos e mesmo havendo o modelo tradicional, que logo resolve a necessidade dos noivos de ter o tal certificado, tínhamos noivos interessados nos encontros por acolhimento. O interesse deles era fruto de uma boa propaganda, principalmente por parte do pároco e vigário que recomendavam aos noivos com os quais tinham oportunidade de conversar. Ao fim de um ano, o pároco se mostrou favorável a não mais oferecermos o modelo condensando em fim de semana, fruto da diferença percebida por ele ao conversar com noivos oriundos dos dois modelos. Hoje realizamos a Preparação Próxima em 12 encontros.
Em nossa cidade há várias paróquias. Próximo à nossa, a poucos minutos, encontramos outras paróquias que oferecem os encontros/cursos no modelo de 1, 2 ou 3 noites. Chegamos a pensar que os noivos buscariam tais opções. Investimos na informação com folhetos, muitos avisos nas missas e nos programas de rádio, além da boa propaganda boca a boca. Resultado: começamos a primeira turma do ano, que vai de Fevereiro a Maio, com 12 casais, o que significa um número próximo ao que tínhamos no modelo de fim de semana.
Nos informes, devemos avisar de forma clara e insistente que a preparação para o Matrimônio deve ser buscada com antecedência mínima de 6 meses da data do casamento. Ideal que seja antes mesmo de definir a data, pois  faz parte do processo de discernimento.
Eu sei que nem todos poderão fazer desta forma e teremos várias exceções. Mas eles devem ser tratados como exceções, com disponibilidade de nossa parte e da paróquia, mas não devem virar regras.
Nosso discurso é sempre afiado ao dizermos que a família corre perigos, que os Matrimônios estão fracos, que os jovens não têm preparo suficiente e tantas coisas mais. Nossa prática precisa reagir ao nosso discurso. Precisamos buscar aprofundamento no cuidado com aqueles que caminham em direção ao Matrimônio.
Se você colabora na preparação de noivos, precisa refletir sobre isso. Se seu pároco não quer nem falar sobre isso, sugiro uma boa conversa começando com o que nos diz o Papa Francisco:“A pastoral em chave missionária exige o abandono deste cômodo critério pastoral: “fez-se sempre assim”. Convido todos a serem ousados e criativos nesta tarefa de repensar os objetivos, as estruturas, o estilo e os métodos evangelizadores das respectivas comunidades”. (Papa Francisco, Evangelli Gaudium, 2013).
Paz e bem!
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André Parreira (alparreira@gmail.com), da diocese de São João del-Rei-MG, é autor de livros sobre namoro, Matrimônio e família. É responsável no Brasil pelo DVD “Sim, Aceito!”. Professor, empresário, casado e pai de 7 filhos, atua na formação jovens, casais e agentes de pastoral em todo o país. É colunista colaborador do ZENIT e também escreve para outros veículos católicos e laicos.
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