segunda-feira, 21 de março de 2016

A história da Misericórdia

Por Dom Alberto Taveira Corrêa*

É o tempo do anel da nova aliança, nos dedos de todos os filhos pródigos da história.

 

Quem já entrou nas profundezas do pecado sabe o quanto ele faz mal, destrói em primeiro lugar quem a ele aderiu.


Era uma vez um menino que tinha o meu nome, o seu nome, o nosso nome! Criado por amor, quis ser dono da árvore do conhecimento do bem e do mal (Cf. Gn 2, 17), desejoso de libertar-se de tantas amarras, pois, afinal, "eu sei o que estou fazendo!" Em nossas igrejas, certamente você já cantou ou ouviu assim: "Muito alegre eu te pedi o que era meu: partir, um sonho tão normal!" Tudo começa com um sonho, aventuras mil que se abrem como possibilidades para um coração juvenil, tenha a idade que tiver. Somos humanos e os horizontes se manifestam tentadores, com o pouco ou muito dinheiro de nossos bolsos. Muitas vezes não são os bens materiais a serem desperdiçados, mas a própria dignidade, vista como prisão diante da sonhada autonomia! Fazer o que eu quero, ser dono de minha vida, não depender de ninguém, correr todos os riscos, andar pela vida "sem lenço e sem documento!" Aqui começa a história da misericórdia, pois ela se inicia com uma partida, despedida, estrada aparentemente nova que se abre.
Partir sem rumo certo, apenas para aproveitar a vida, gastar, gastar, gastar. Há quem parte e nada dá, busca só sua liberdade! Continue a cantar: "Dissipei meus bens e o coração também. No fim, meu mundo era irreal" Verdade! Quando os bens, aqueles verdadeiros, são dissipados, vai junto o coração. Quem já entrou nas profundezas do pecado sabe o quanto ele faz mal, pois destrói em primeiro lugar quem a ele aderiu. Depois, faz mal aos outros e ao mundo. 
"Mil amigos conheci, disseram adeus, caiu a solidão em mim". Quem nunca ouviu a história do alcoólatra que entra num bar sem dinheiro, alimento não recebe, conselho menos ainda, mas sempre há alguém para oferecer um golinho de bebida? Nossos pais têm um refrão incômodo e salutar: "Cuidado com as más companhias". Basta olhar ao nosso redor para ver a quantidade de pessoas que vieram a cair nas sarjetas da vida, deixadas ao relento do tempo ou do afeto. Os falsos amigos dizem sempre adeus!
Você pode cantar e até chorar, se quiser: "Um patrão cruel levou-me a refletir: meu pai não trata um servo assim". Saudade do afeto! Saudade da casa do pai, cheia de regras e horários, conselhos em vista do futuro, repreensões. Saudade das amarras! Começou o caminho de volta, ainda interesseiro, mas sincero! Ouso dizer que na pele do filho mais novo se esconde um outro filho, o Filho único do Pai amado! Parece-me vê-lo lá longe, compartilhando até as misérias do menino que sou eu, corajoso para sujar os pés e as mãos no barro em que, junto com você, eu me meti! Porcaria inteira e acabada (Cf. Lc 15, 15), e Ele lá, ao nosso lado! Só com sua companhia, daquele que se humilhou, tomando a condição de escravo, servo obediente até à morte de cruz (Cf. Fl 2, 8), é possível fazer o caminho de volta, pois aquele que desceu é o mesmo que subiu acima de todos os céus (Cf. Ef 4,9). E o caminho é iluminado pela imagem dos servos, os empregados da casa do pai! Afinal, também o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos (Cf. Mc 10, 45).
A história da misericórdia tem também um pai olhando para as curvas da estrada, com um coração que teima em não envelhecer, pois existe desde toda a eternidade. Deus nos espera desde sempre, sem cara fechada ou julgamento. Corra, filho querido! Venha descansar no regaço do "Pai" (com letra maiúscula, pois mudou a cena!). Veja a qualidade do Pai, descrita pelo filho que chega: "Nem deixaste-me falar da ingratidão, morreu no abraço o mal que eu fiz". É difícil descrever melhor o reencontro do que reconhecer a morte do mal no abraço! Da parte do filho, não pode brotar outro refrão a ser cantado com emoção: "Confiei no teu amor e voltei, sim, aqui é meu lugar. Eu gastei teus bens, ó Pai, e te dou este pranto em minhas mãos".
Ora, se o filho encontrou seu lugar, certamente acompanhado pelo "Filho" que desceu às profundezas para fazer-lhe companhia, agora é hora da festa, mesmo que alguém não entenda os exageros do Pai. Parece aquela outra festa da parábola: “Sai depressa pelas praças e ruas da cidade. Traze para cá os pobres, os aleijados, os cegos e os coxos’. E quando o servo comunicou: ‘Senhor, o que mandaste fazer foi feito, e ainda há lugar’, o senhor ordenou ao servo: ‘Sai pelas estradas e pelos cercados, e obriga as pessoas a entrar, para que minha casa fique cheia" (Lc 14, 21-23). Aqui há lugar para o jovem gastador, pecador arrependido, acolhido com o calor do abraço. A  única propriedade que lhe restou era o pranto do arrependimento sincero! E este foi dado ao Pai, para se transformar em festa.
De lá para cá, os gestos do Pai foram transformados também em sinais de acolhimento na Comunidade cristã. A Eucaristia, presença do único sacrifício de Cristo, será sempre celebrada como a festa pascal, ponto de chegada e fonte de toda a vida da Igreja. No Batismo, a roupa nova da vida da graça foi dada a todos os que acolheram o Salvador e foram mergulhados na água santa, passando por ele, que é a verdadeira porta, para entrar na casa do Senhor. Ainda que frágeis e pecadores, entramos na festa ouvindo a exortação do Apóstolo São Paulo: "Protegei-vos com a armadura de Deus, a fim de que possais resistir no dia mau, e assim, empregando todos os meios, continueis firmes. Ficai, pois, de prontidão, tendo a verdade como cinturão, a justiça como couraça e os pés calçados com o zelo em anunciar a Boa-Nova da paz. Em todas as circunstâncias, empunhai o escudo da fé, com o qual podereis apagar todas as flechas incendiadas do Maligno. Enfim, ponde o capacete da salvação e empunhai a espada do Espírito, que é a palavra de Deus"  (Ef 6, 13-17). É o tempo do anel da nova aliança, nos dedos de todos os filhos pródigos da história. Neste anel está o nome novo (Cf. Ap 2, 17) da criatura redimida. Você pode cantar e agradecer: "Festa, roupa nova, anel, sandália aos pés, voltei à vida, sou feliz". O filho errante da parábola, que tem o seu nome, o meu nome e o nosso nome reencontrou o caminho, o Pai, o abraço, a dignidade. Voltou à vida. Cante com ele: "Confiei no teu amor e voltei, sim, aqui é meu lugar. Eu gastei teus bens, ó Pai, e te dou este pranto em minhas mãos". Esta história pode ter muitos outros capítulos e detalhes, que ficam por nossa conta, para mergulharmos com alegria no mar infinito da misericórdia de Deus, na graça do Jubileu.

CNBB, 07-03-2016.

*Dom Alberto Taveira Corrêa: Arcebispo de Belém do Pará (PA).
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