sábado, 27 de fevereiro de 2016

Por que o rosto da Igreja se expressa apenas no masculino?

[unisinos]

Rita Giaretta

"Caro papai Francisco, entre tantas "revoluções" que foste chamado a levar adiante, penso que este é um dos desafios mais importantes e necessários: libertar a face da igreja da sua escravidão masculina. Libertar a igreja daquela imagem que cheira de autoridade, privilégio, poder sacral, dominação, e restituir o bonito rosto, brilhante e transparente de Deus mãe e pai; o rosto divino-humano de Jesus que fala da vida, de compaixão, de misericórdia", diz Rita Giaretta, em carta endereçada ao Papa Francisco, publicada por Adista, 20-02-2016. A tradução é de Ramiro Mincato.
Eis a carta.
Caro Francisco,
Sou a Irmã Rita Giaretta, da Casa Ruth, uma freira das Ursulinas do Sagrado Coração de Maria, há vinte anos na missão em Caserta, onde, juntamente com outras irmãs, criamos a Casa Ruth, uma casa de recepção para as mulheres, às vezes menores, muitas vezes grávidas ou com crianças pequenas, em sua maioria vítimas do infame "tráfico de mulheres", e ha cerca de 10 anos na Cooperativa Social newHope - uma oficina de costura étnica para a formação e capacitação ao trabalho - que, para nossa grande surpresa e alegria, está dando trabalho e dignidade hoje a 7 sócias-trabalhadoras, em sua maioria jovens mães, de 5 diferentes nacionalidades. Realmente um milagre!
Domingo, enquanto estava no trem para Caserta, voltando de Roma, depois de participar ao vivo na transmissão da Rai 1 "À sua imagem", onde se falou das "obras de misericórdia", ou melhor dos "gestos" de misericórdia, tanto praticados por ti e continuamente propostos para todas/os nós, fiquei inquieta, cheia de anseios e preocupações, que senti provocadas pelo poder da Palavra e, especialmente, pela vida de Jesus, meu amigo e irmão, o meu tudo.
E pensei em ti, querido pai Francisco (que prefiro, ao invés de Papa), nos teus gestos, tuas palavras, mas também nos teus silêncios, a tua coragem, tua ternura de amor, ao teu ser para nós hoje, a transparência, o coração e o caminho do amor de Deus manifestado em Jesus, que, por amor, tornou-se servo para nós.
Mas pensava também nas palavras, certamente não benevolentes, de alguém próximo a ti, "que esta recreação logo vai acabar". Perguntei-me, mas qual "recreação"? Se tu, como Jesus, não te cansas de chamar-nos continuamente a trabalhar na vinha do Senhor, porque a colheita é grande, mas - tanto hoje como a 2000 anos atrás - os trabalhadores são poucos? Então, senti em meu coração forte e profundo desejo, alegria e paixão de estar contigo, simples camponesa que capina e fertiliza a vinha a que o Senhor hoje nos envia.
Também outros pensamentos passaram pela minha mente e pelo meu coração. Na transmissão na TV, afirmava que na Sagrada Escritura se diz que Deus tem entranhas de misericórdia, ou, para ser mais exata com a tradução, que Deus tem útero de misericórdia. Diz-se, portanto, que Deus é também do sexo feminino, que Deus é também mãe e, portanto, não é só Pai, mas Deus é Pai e Mãe, como ele já havia dito o Papa Luciani. Então, por que a face da igreja oficial se expressa unicamente no masculino?
Caro papai Francisco, eu não sou teóloga, não fiz grandes estudos, não frequento escolas acadêmicas, me sinto simplesmente uma "salvada-amada", que sentiu a irrefreável necessidade de cingir os rins com o avental do serviço, mas na minha "ignorância" e na simplicidade de coração, sinto de dizer que esta unicidade masculina, esta ausência de mulheres, atrevo-me a dizer, esta desigualdade, trai o Evangelho de Jesus.
Deus, no ato da criação disse: Não é bom que o homem esteja só, e sem forçar nada, estou certa de que hoje diria: Não é bom que a igreja seja unicamente masculina. Em Jesus, a Igreja não é mais propriedade exclusiva de alguns, mas "casa" de todos e para todos. Com viva participação penso com quanta convicção humana e de fé o amou o padre Raffaele Nogaro, agora bispo emérito de Caserta, que continuamente afirmava, e ainda hoje afirma: será a mulher a salvar o mundo.
Jesus, nascido de mulher, deixou-se provocar e mesmo iluminar por elas, criou e cultivou laços significativos de amizade, penso em Marta e Maria; Jesus valorizou e fez protagonistas e missionárias mulheres encontradas em seu caminho, foram elas, porque mulheres e mães, intimamente em contato com o mistério da criação da vida, a permanecer em pé sob a cruz. E finalmente, pela mulher amiga, Maria Madalena, a apóstola dos apóstolos, Jesus deixou-se tocar ressuscitado, enviando-a, em seguida, como arauto do grande evento pascal. Quando esta realidade evangélica terá vida?
Há muito tempo se diz que a Igreja deve respirar com dois pulmões, referindo-se a Igreja Oriental e Ocidental, mas eu acho também e sobretudo hoje, que a igreja deve saber e querer respirar com dois pulmões: masculino e feminino. Só então, a "respiração" do Espírito que Jorrará, será a transparência do amor de Deus, que é misericórdia para todas as criaturas.
Caro papai Francisco, entre tantas "revoluções" que foste chamado a levar adiante, penso que este é um dos desafios mais importantes e necessários: libertar a face da igreja da sua escravidão masculina. Libertar a igreja daquela imagem que cheira de autoridade, privilégio, poder sacral, dominação, e restituir o bonito rosto, brilhante e transparente de Deus mãe e pai; o rosto divino-humano de Jesus que fala da vida, de compaixão, de misericórdia.
É tempo de novas ressurreições, e estas poderão acontecer somente e quando no altar quotidiano da vida, de relações livres, de misericórdia aceita e doada, abrirmos a "porta" do coração a Cristo, impaciente para fazer-se pão vivo para a fome de todas e de todos, feliz de curvar-se para lavar os pés, sem fazer preferências de pessoas, e muito menos de gênero.
Quando será esta revolução? Nós, mulheres, contigo Francisco, estamos prontas para dar a cara para "acordar o mundo". Permito-me uma sugestão: Quando fizeres viagens missionárias opta, não por concessão, mas porque é justo e bonito, também mulheres para te acompanharem. O poder das imagens é importante para começar a passar uma nova "imagem" de Igreja.
Certa de ser acolhida, sempre unida na oração (como comunidade levamos a sério o convite para rezar por ti, e o fazemos todas as manhãs, nas Laudes), um abraço filial, cheio de afeto e gratidão.

Irmã Rita Giaretta
juntamente com as Irmãs Assunta e Nazarena
Caserta, 14 de fevereiro de 2016, primeiro domingo da Quaresma
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