quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Pároco adota 'pedala, Robinho' em crianças durante bênção no DF; vídeo

Do G1 DF
Por Raquel Morais

Religioso, que sonhava em jogar futebol, lota missas em Ceilândia.Angelotto diz que não gostava de padres e entrou para Igreja ao acaso.

 


Famoso após a divulgação de um vídeo em que mostra uma forma irreverente de abençoar crianças, o padre José Roberto Angelotto tem lotado as missas de uma paróquia do Distrito Federal. As imagens do religioso dando tapinhas, chacoalhões, puxões de cabelo e até chutes nos pequenos viralizaram em redes sociais e ganharam destaque no jornal britânico "The Mirror".
Fiéis formam longas filas para conversar com ele após as celebrações. Mesmo preferindo não dar entrevistas, o homem disse ao G1 acreditar que a espontaneidade e o jeito brincalhão são os responsáveis por torná-lo "unanimidade".
Segundo o padre, que tem 50 anos e que sonhava na juventude em ser jogador de futebol, as brincadeiras começaram ao acaso. "Foi do nada, de uma experiência que eu tive no Ceará [na primeira igreja onde trabalhou]. Teve um momento em que comecei a dar a paz nas crianças, chacoalhá-las, dar uns a tapinhas devagar. De repente, as crianças da missa anterior vinham com outras pela mão e diziam que o padre brincava, que era um padre legal."
À frente da Paróquia da Ressurreição – na região administrativa de Ceilândia, a 26 quilômetros do centro de Brasília – há quase nove anos, Angelotto organizou as campanhas que reformaram o prédio. A igreja tem um aspecto diferenciado: as cadeiras são vermelhas e acolchoadas, em nada lembrando os tradicionais bancos de madeira, e a fachada é toda espelhada. Sete sinos, logo na entrada, tocam a cada hora do dia.
Foi do nada, de uma experiência que eu tive no Ceará [na primeira igreja onde trabalhou]. Teve um momento em que comecei a dar a paz nas crianças, chacoalhá-las, dar uns a tapinhas devagar. De repente, as crianças da missa anterior vinham com outras pela mão e diziam que o padre brincava, que era um padre legal"
José Roberto Angelotto, padre de Ceilândia
As missas só não acontecem às segundas. O pároco celebra as de quarta, quinta, sábado e domingo. As crianças são presença garantida em todas, mas a do fim de semana é feita especialmente para elas. Os ensinamentos passados por Angelotto são repetidos sem hesitação: respeitar os pais e os avós e sempre se lembrar de rezar.
Tímida, uma garota de 13 anos que aguardava para se confessar com o pároco contou ao G1 fazer questão de ir a todas as celebrações para crianças. "Na hora da missa ele diz o que pode, o que não pode. Ele fala muitas coisas interessantes. É sempre muito cheio. Como ele é brincalhão, a gente se sente próximo dele."
A menina, que se disse envergonhada para contar como se chamava, lembra ter gostado da primeira vez que levou um "pedala, Rodinho" do padre. "Achei muito legal, senti uma coisa muito boa mesmo. Só que nem vale a pena a gente arrumar o cabelo antes de vir", riu.
Uma vizinha, da mesma idade, completou: "Ele é divertido e sempre diz que a gente, criança, tem que respeitar os outros. Ele é ótimo. Não machuca, não tem nada ruim. Eu gostei de quando ele explicou sobre casamento. Nunca falto, estou sempre aqui."
Os cascudos da hora dos agradecimentos e da bênção, que arrancam risos entre meninos e meninas, não são a única marca da irreverência de Angelotto: em vez de abençoar os fiéis com pequenas porções de água benta, o pároco usa um balde para molhar quem acompanha a missa.
Padre José Roberto Angelotto, pároco de Ceilândia, no DF, onde abençoa crianças com "pedala, Robinho"(Foto: Raquel Morais/G1)

Trajetória

Quem vê a admiração dos fiéis por José Roberto Angelotto não consegue imaginar que o religioso tinha má impressão de padres durante a adolescência. A aproximação com a igreja ocorreu de maneira pouco ortodoxa: ele viu a relação dos pais melhorar depois de o casal começar a frequentar missas e quis provar que havia "furos" no catolicismo. O homem tinha 18 anos na época e ainda morava em Umuarama, Paraná.
"Eu comecei a imaginar que aquilo fosse uma lavagem cerebral que o padre fazia nos dois. Imagina querer ser padre? Nem gostava de padre. Pensava 'para que me serve?' Padre não casa, não tem filho. Achava que padre servia para enganar os outros, enganar velhos perto da morte. Aí, vendo a mudança nos meus pais, comecei a ler as Escrituras para achar os 'furos' e mostrar que era uma burrice. Lendo, comecei a constatar que algumas coisas faziam sentido. Procurei livros de história para saber se os personagens existiam ou não e a minha frustração foi ver que muitas daquelas cronologias eram exatas e que muitos daquele fatos existiram", brinca.
"Achava que padre servia para enganar os outros, enganar velhos perto da morte. Aí, vendo a mudança nos meus pais, comecei a ler as Escrituras para achar os 'furos' e mostrar que era uma burrice. Lendo, comecei a constatar que algumas coisas faziam sentido. Procurei livros de história para saber se os personagens existiam ou não e a minha frustração foi ver que muitas daquelas cronologias eram exatas e que muitos daquele fatos existiram"
José Roberto Angelotto, padre de Ceilândia
Anos depois, Angelotto se mudou para Brasília e fez nove anos de seminário. A ordenação aconteceu em novembro de 1999. A primeira igreja onde trabalhou fica no Ceará, e a experiência no local durou cinco anos. Depois, o padre passou três anos em uma paróquia de Pataguaçu, no Mato Grosso do Sul. Por fim, se mudou para Ceilândia. O bom-humor sempre foi a marca registrada.
"Eu falo que somos que nem garçom, porque trabalho no domingo e descanso na segunda", diz entre risos. "Eu falo 'o povo é bobo, não o padre que é bom'. Acho que ser espontâneo é o que faz com que as pessoas gostem das missas. Depois do vídeo, uma mulher me contou que pegou um táxi e veio da Bahia até aqui só para ver como de fato era. Mas é assim sempre. Eu gosto de criança, gosto mesmo. Não sou muito de ser prolixo. Gosta de ser direto nas missas para adultos, mas com as crianças você pode usar algumas coisinhas, e é sempre muito bom."
O pároco defende a simplicidade e cita a postura do Papa Francisco como exemplo. "Acho que a gente sendo assim, gostando de brincar, tira a sisudez, deixa a igreja mais alegre. O cristão triste é um triste cristão. [...] A experiência que eu tenho é que sem a igreja, sem Deus, é impossível ser feliz. Pode até ser feliz, mas enganado. E você pode ser um cristão vivendo feliz a vida. Ir a um show não fere a fé. Eu mesmo recomendo aos casais que vão ao cinema, ao shopping, façam compras. Desde que não firam a fé, façam pecado, tudo bem." 
O estilo informal do religioso também é marca do irmão que virou padre e o ajuda nas celebrações da Paróquia da Ressurreição. As brincadeiras, porém, têm limite: não é permitido usar celular ou tirar fotos durante as missas.
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