quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

SANTO TOMÁS DE AQUINO

[abim]
Por Plinio Maria Solimeo

Doutor da Igreja e Patrono dos estudos católicos em todos os graus. Sua festividade é celebrada pela Igreja no dia 28 de janeiro.

De Santo Tomás de Aquino, o maior luminar da Igreja Católica, nós já apresentamos uma biografia nesta coluna (Revista Catolicismo, janeiro/2002). Como sua perene doutrina — o ápice da escolástica — foi em grande parte abandonada pelos teólogos católicos atuais, ressaltaremos aqui sua importância universal na História da Teologia e Filosofia católicas.
A transcendência da doutrina tomista foi ressaltada por Leão XIII na Encíclica Aeterni Patris (1879), e São Pio X em documento de 20 de setembro de 1892.(1)

Breve síntese biográfica do Santo

Igreja de Santo Tomás em Roccasecca
Igreja de Santo Tomás em Roccasecca

Santo Tomás de Aquino nasceu no castelo de Roccasecca, próximo de Nápoles, em 1225, filho de Landolfo, senhor de Roccasecca, e de Teodora, filha dos condes de Chieti. Aos cinco anos de idade seus pais o enviaram como oblato ao Mosteiro de Monte Cassino, onde, além da formação moral e religiosa, aprendeu as primeiras letras, a gramática latina e italiana, música, poesia e salmodia.
Na adolescência estudou Filosofia e Artes na Universidade de Nápoles. Seu afã nos estudos objetivava maior conhecimento de Deus para melhor servi-Lo.
Em 1244 ingressou na Ordem dos Pregadores ou Dominicanos, fundada havia pouco por São Domingos de Gusmão, a qual harmonizava as observâncias monásticas com o estudo, satisfazendo plenamente os anseios do santo.
Em 1247 Tomás foi enviado para o Estudo Geral da Ordem, em Colônia (Alemanha), onde teve como mestre a Santo Alberto Magno — o Doutor Universal — também Doutor da Igreja.
Em 1252 foi transferido para Paris, como Mestre do Estudo Geral da Ordem, cargo que exerceu por quatro anos. “Desde o primeiro instante superou todos [os professores], inclusive os mestres mais célebres e encanecidos na cátedra, por seu novo método de ensinar, claro, conciso, profundo, preciso, e por sua extraordinária originalidade, qualidades que lhe granjearam uma grande simpatia e uma admiração sem limites por parte dos estudantes”.(2)
As aulas de Frei Tomás eram tão concorridas, que a sala de aula mal podia conter todos aqueles que a procuravam.
Santo Alberto Magno ensinando (Gregorio Vasquez de Arce y Ceballos, séc. XVII. Coleção Privada, Bogotá (Colômbia)
Santo Alberto Magno ensinando (Gregorio Vasquez de Arce y Ceballos, séc. XVII. Coleção Privada, Bogotá (Colômbia)

Tal era a fama de sua sabedoria, que o rei São Luís IX da França “o consultava sempre sobre os negócios mais graves de governo; e, quando devia celebrar conselho, tinha o costume de informar, na véspera, a Frei Tomás, rogando-lhe que desse seu parecer na primeira hora do dia seguinte. O santo cumpria fiel e escrupulosamente esses encargos”.(3)
Pois “o Santo de Aquino não é um expectador frio dos acontecimentos de sua época; pelo contrário, vive suas lutas, é beligerante no mais nobre sentido da palavra, em uma época na qual florescem os espíritos combativos. É um convencido de sua vocação apostólica, a qual vive com entusiasmo juvenil e o fogo que lhe comunicou a alma ardente e dulcíssima do patriarca São Domingos”.(4)
Não cabe nesta breve síntese narrar todas as lutas de Santo Tomás contra os hereges e heretizantes da época, nem a sublime santidade que atingiu. Basta dizer que ele faleceu santamente no dia 7 de março de 1274, com apenas 49 anos de idade, sendo canonizado no dia 18 de julho de 1323.
Entretanto, vale a pena ressaltar sua extremada devoção ao Santíssimo Sacramento. O Ofício que ele elaborou para a festa de Corpus Christi, o sermão que pregou diante do Consistório, e o celeste hino Pange Lingua Gloriosi, que compôs para aquela festa, são “os mais ternos, devotos e profundamente teológicos que se conhece na sagrada liturgia”.(5) Sua devoção a Nossa Senhora, como não podia deixar de ser, era terníssima, como terna era a que devotava aos anjos e aos santos.

A magna obra de Santo Tomás de Aquino

Como surgiu a grande obra filosófica e teológica de Santo Tomás? Como discípulo de Santo Alberto Magno, os dois santos se deram conta da dificuldade que havia naquela época em canalizar os estudos filosóficos, corrigindo e depurando Aristóteles, para que sua filosofia pudesse servir eficazmente à Teologia. Para eles, “a Filosofia deveria ser cultivada sobre bases mais amplas, não se contentando somente com Aristóteles, nem com Platão, mas procurando harmonizar entre si, numa síntese nova e superior, o verdadeiro existente em ambos”.(6) Do mesmo modo, “a própria Teologia deveria também ampliar suas bases, servindo-se da Filosofia já depurada e mais bem cultivada, além do argumento tradicional de autoridade”.(7)
Essa obra magna foi encomendada pelo Papa a Santo Tomás, que a levou a cabo com toda a força de seu talento e de sua piedade, sobretudo com a monumental Suma Teológica. Tal era seu domínio sobre a matéria, que ele realizou esse imenso trabalho ditando ao mesmo tempo a três ou quatro amanuenses.(8)

Título de Expositor por excelência

Com a sua assombrosa capacidade de trabalho, Frei Tomás pôs mãos à obra. E, “em vez de trabalhar sobre Aristóteles, transmitido em traduções infiéis e glosado por árabes e judeus, como fez seu mestre [Santo Alberto Magno], procurou isolá-lo de todas suas aderências, e purificá-lo de todas as incorreções, graças a uma tradução direta e fiel de seu amigo Guilherme de Moerbeke, feita a partir dos melhores manuscritos gregos. E, sobre tal base, empreendeu um comentário literal de suas obras principais, verdadeiro modelo em seu gênero por sua sagacidade e exatidão, que lhe mereceu o título de Expositor por excelência”.(9)

“Ascensão do pensamento humano”

Pelo que “a Filosofia de Santo Tomás é o ponto culminante de uma lenta e laboriosa ascensão do pensamento humano”,(10) “a síntese filosófica mais perfeita que o engenho humano criou”,(11) e “a síntese de uma filosofia perene”.(12)
Por isso, “com Santo Tomás começa verdadeiramente uma nova época da Filosofia e da Teologia; a mudança sofrida por elas foi, em realidade, profunda e gigantesca. A colaboração da fé e da razão na obra mancomunada da ciência teológica ficava assegurada para sempre, por estar fundada sobre bases inamovíveis”.(13)

“Homem mais sábio até o fim do mundo”

Santo Tomás com o Papa Urbano V na definição do Dogma da Transubstanciação
Santo Tomás com o Papa Urbano V na definição do Dogma da Transubstanciação

Santo Alberto Magno, que foi seu mestre e o conhecia muito bem, dizia de seu discípulo “que era a flor e a honra do mundo, o homem mais sábio do seu tempo até o fim do mundo, sem temor de ser superado por ninguém, cujos escritos brilham sobre todos os demais por sua pureza e sua veracidade”.(14)
E o futuro Papa Clemente VI, fazendo o panegírico do santo na primeira vez que se celebrava sua festa na Universidade de Paris (7 de março de 1324), “compara sua sabedoria à de Salomão; porque, assim como o Rei sábio superou nela todos os hebreus, egípcios e orientais, assim Santo Tomás excedeu em saber a todos os filósofos e teólogos, havidos e por haver, na Universidade parisiense. E acrescenta que sua doutrina é verdadeira, sem contágio algum de falsidade, clara sem sombra alguma nem enfado de obscuridade, útil e frutífera sem deixar-se levar de uma curiosidade excessiva nem de vãs sutilezas, é copiosa e abundante por sua variedade e universalidade”.(15)
Por sua vez, o Beato Urbano V o chama “Doutor egrégio que, com seus ensinamentos saudáveis e transparentes, iluminou a Igreja universal, pondo de manifesto os enigmas da Escritura, desatando os nós de suas dificuldades, elucidando suas obscuridades e aclarando as dúvidas que surgem em seu estudo”.(16)

“Não há erro que não tenha demolido”

Bem-aventurado Pio IX
Bem-aventurado Pio IX

Já o Beato Pio IX “celebra seu gênio sobre-humano, que lhe permitiu escrever insuperavelmente sobre as coisas divinas e humanas, merecendo a aprovação do próprio Deus. Porque, na realidade, deduziu toda a ciência de princípios incontestáveis e invulneráveis, e a organizou em um corpo de doutrina claramente disposto com tal arte, que não há verdade que não tenha captado, nem erro que não tenha demolido”.(17)
O célebre convertido inglês, cardeal Manning, analisando a situação em que estava o mundo em seu tempo, isto é, em meados do século XIX, afirma: “A moderna Filosofia quis fazer do homem um Deus, mas um Deus que tem olhos e não vê, que tem ouvidos e não ouve. Duvida de tudo, não admite nada, agita-se desesperadamente em um agnosticismo universal. Só se pode curar tamanha doença com a clara Filosofia do Doutor de Aquino”.(18) Como desde então o mundo não fez senão decair, pois muitos filósofos e teólogos se tornaram praticamente ateus e até subversivos, daí a necessidade premente de se voltar à escolástica e à sua mais alta expressão, o tomismo.

“Reconduzir pelo Rosário a humanidade extraviada”

Mais tarde Leão XIII, que foi cognominado o Papa de Santo Tomás e do Santo Rosário, “expressa sua convicção profunda e sua vontade decidida de dirigir as inteligências pela doutrina de Santo Tomás, e os corações pelo Rosário; quer dizer, de reconduzir a humanidade extraviada aos caminhos da verdade e da verdadeira vida por esses dois meios eficacíssimos de salvação”.(19)
Na encíclica Aeterni Patris, esse Pontífice trata da “necessidade e utilidade de uma Filosofia sã e robusta, que possa servir convenientemente à fé sem menoscabo de sua própria dignidade de ciência humana”. Ora, “a Filosofia de Santo Tomás possui eminentemente essas qualidades”. Pois, “dotado de um engenho aberto e penetrante, de uma memória fácil e retentiva, de uma vida sem mancha, sem outro norte que a verdade, e imensamente rico em conhecimentos divinos e humanos, foi comparado justamente ao sol que fecunda a terra com o calor de suas virtudes, e a enche e ilumina com o resplendor de sua ciência”. Pelo que “é necessário voltar à Filosofia de Santo Tomás, segui-la fielmente, e propagá-la por todos os meios”.(20)
E o mesmo Papa assim sintetiza a razão pela qual declarou solenemente Santo Tomás Santo Doutor e Patrono de todos os Estudos católicos em todos os seus graus: “O Angélico se destaca eminentemente, sobre todos os demais, sendo o modelo que os sábios católicos devem imitar em seus diversos estudos. Ele possui, certamente, as melhores e mais brilhantes qualidades de coração e de inteligência que arrastam à sua imitação: uma doutrina riquíssima de conteúdo, saníssima, perfeitamente organizada, admiravelmente de acordo com as verdades reveladas por Deus e, portanto, sinceramente obsequiosa com a fé; acrescente-se a tudo isto uma vida integérrima e sem mancha, ilustrada com as virtudes mais excelsas”.(21)

“Afastar-se de Santo Tomás leva à apostasia”

Papa São Pio X
Papa São Pio X

Para não nos alongarmos mais, citemos finalmente o imortal São Pio X, que no Motu Próprio Doctoris Angelici, de 29 de junho de 1914, declara que “os princípios básicos da Filosofia de Santo Tomás não devem ser considerados como meramente opináveis ou discutíveis, mas como fundamentos em que se apoiam todos os nossos conhecimentos do humano e do divino”. Pelo que, “rechaçados ou alterados de qualquer modo esses princípios, os jovens estudantes eclesiásticos acabarão por não entender nem sequer a terminologia empregada pela Igreja na proposição dos dogmas de nossa fé”.(22)
Por isso o santo Pontífice alerta que “abandonar Santo Tomás, sobretudo em questões de Metafísica, é um gravíssimo perigo”. E acrescenta: “O que digo de sua Filosofia deve entender-se a fortiori de sua Teologia, na qual não é só o príncipe, mas o mestre e guia de todos”,(23) “como honra do orbe cristão e luminar da Igreja”, “que vale para todos os tempos e não envelhece nunca”.(24)
Como consequência, “nada é tão útil à Igreja como formar o clero na doutrina do Angélico”,(25) “para arrancar o fermento de tantos erros como circulam por todas partes sobre o divino e o humano, e para que a verdade católica, devidamente conhecida, se incruste indelevelmente nas almas de todos”. São Pio X conclui com esta terrível advertência: Afastar-se da doutrina de Santo Tomás leva à apostasia. “Uma triste experiência ensina que, particularmente em nossos dias, os que se separam de Santo Tomás acabam finalmente por apostatar da Igreja de Cristo”.(26)
Que a Santíssima Virgem, Sede da Sabedoria, nos obtenha a graça de assistir a um verdadeiro renascer da doutrina de Santo Tomás — cuja festa é celebrada em 28 de janeiro — para honra e glória da Igreja. 
_______
Notas:

  1. Utilizamos para este artigo a excelente Introducción General escrita pelo Pe. Santiago Ramírez, O.P. na Introdução da Suma Teologica de Santo Tomas de Aquino, da Biblioteca de Autores Cristianos, Madri, 1957, tomo I, referindo o número da página em que aparecem as citações.
  2. Ramírez, p. 15.
  3. Guillelmus de Tocco, O.P., Vita S. Thomae Aquinati, apud Ramírez, p. 28.
  4. Fr. José Maria de Garganta, O.P., Introducción General, p. 8, Suma Contra los Gentiles, tomo I, Biblioteca de Autores Cristianos, Madri, 1952.
  5. Juan de Colonna, O.P., De Viris Illustribus, apud Ramírez, p. 57.
  6. Metaphysica, l. 1, apud Ramírez, p. 79.
  7. Ramírez, p. 79.
  8. Cfr. Ramírez, p. 38.
  9. Luis de Valhadolid, Brevis historia…, apud Ramírez, p. 80.
  10. Cardeal C. Laurenti, San Tommaso Dottore e Santo, apud Ramírez, p. 82.
  11. O. Mazzella, San Tommaso e Aristotele, apud Ramírez, p. 82.
  12. Id.ib., apud Ramírez, p. 82.
  13. Ramírez, p. 82.
  14. Bartolomé de Capua, Processo napolitano de canonização, apud Ramírez, p. 87.
  15. M.H. Laurent, O.P., Pierre Roger et Thomas d’Aquin, apud Ramírez, 98-99.
  16. J. Berthier, O.P., S. Thomas Aquinas, Doctor Communis, apud Ramírez, p. 103.
  17. Id., apud Ramírez, p.108.
  18. Id., apud Ramírez, p. 119.
  19. Carta de 20 de setembro de 1892 ao Geral dos Dominicanos, André Fruhwirth, apud Ramírez, p. 112.
  20. Apud Ramírez, pp. 113 a 117.
  21. Id. ib., apud Ramírez, p. 127.
  22. Motu próprio Doctoris Angelici, AAS 6, apud Ramírez, p. 137.
  23. J. Berthier, op.cit., apud Ramírez, p. 135.
  24. Epístola ao P. Em Hugon, O.P., 16 de julho de 1913, apud Ramírez, p. 135.
  25. Id. ib., apud Ramírez, p. 136.
  26. Epistola ao P. Tomás Pègues, O.P., 17 de novembro de 1907, em Berthier, Ramírez, p. 136.

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