domingo, 24 de janeiro de 2016

E quando a mulher separa-se do marido contra a vontade dele?

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O Pedro é um velho amigo meu, participativo na sua paróquia, generoso como não se julga ser possível ser. Há cerca de quatro anos atrás, depois de 30 anos de casamento, a esposa dele abandonou-o. Pedro ficou arrasado: “Padre, eu não desejaria este sofrimento ao meu pior inimigo”, dizia.
Depois de terminado o processo de divórcio civil, vários parentes e amigos, muitos deles católicos, aconselharam o Pedro a tirar a aliança do dedo e “seguir em frente”. Os conselhos deles, em resumo, repetiam mais ou menos as seguintes mensagens: “Ela não vai mais voltar”, “O vosso casamento acabou”, “Há mais peixes no mar”, “Deus quer que sejas feliz”, “Não faz sentido ficares a sofrer assim”.
Pedro, e isto deve honrá-lo muito, não deu ouvidos a esses conselheiros. Ele apontou para a sua aliança e respondeu-lhes: “Eu sou um homem casado. Nós sabíamos o que estávamos a fazer no dia do nosso casamento. Sabíamos o que estávamos a prometer um ao outro e também a Deus. Sabíamos o que Deus nos tinha prometido”. Pedro mergulhou nos sacramentos. Ele não sabe viver sem a adoração eucarística, o terço e a misericórdia divina. “Eu não vou parar de rezar pela reconstrução da minha família até o dia em que eu morrer”. E, porque conheço o Pedro muito bem, eu acredito nele.
Estou orgulhoso do Pedro pela sua firmeza na decisão de pagar o alto preço da fidelidade. Estou orgulhoso do Pedro pela herança que ele está a deixar aos seus jovens filhos. Dentro de alguns anos, os filhos dele poderão dizer aos seus próprios filhos: “Quando a vida bateu com dureza no avô, ele não desistiu da avó e não desistiu de Cristo. Ele carregou a sua cruz e seguiu a Cristo até o fim. E, desta forma, não há como fingir que se segue a Cristo. O avô carregou a cruz dele todos os dias”. Que legado para os filhos e netos! Que dignidade no seu sereno sofrimento diário! Que generosidade na sua humilde esperança diária!
Pergunto-me o que é que algumas pessoas  poderiam dizer ao Pedro. Alguns diriam: “Pedro, sorria! Porquê tanta seriedade? Deus não espera isso de si! Deus sozinho não é suficiente para o seu coração. Porquê esperar tanto assim da graça de Deus? Não vai conseguir viver assim até morrer! Porque é que não faz o que é preciso para ser feliz? Por que não tirar o melhor de uma má situação, como tanta gente faz?”.
Tenho certeza de que Pedro responderia: “Mas eu sei o que nós prometemos e sei o que Deus prometeu. Deus é fiel e eu tenho que ser fiel também. E Deus está a ajudar-me a ser fiel!”
Sou quase obrigado a pensar que pelo menos algumas pessoas achariam Pedro um idiota ou, pelo menos, um homem constrangedor. Lembro-me da unção de Betânia, em Marcos 14,4 (“Alguns dos presentes, indignados, diziam uns aos outros: Por que este desperdício?”). Será que diriam ao Pedro que a sua custosa fidelidade é uma extravagância desnecessária? Pedro diria que apenas cumpriu o seu dever (Lc 17,10) – e que ele é um homem melhor graças a isso. Ele sabe que Deus, quando revela a Sua vontade, também concede a graça para que essa vontade seja vivida – e concede-a a todos aqueles que pedem essa graça. Pedro sabe que Deus revelou que, como homem casado, ele deve permanecer fiel até a morte. Pedro pediu essa graça e está a recebê-la.
Ainda assim, custa ao Pedro ouvir os apelos de amigos bem-intencionados e ler muitas opiniões ; opiniões que parecem sugerir que a sua fidelidade não é o que Deus manda, não é o que Deus espera, não é o que Deus ajuda a transformar em realidade. Dói-lhe acima de tudo que a fidelidade do próprio Deus, a generosidade do próprio Deus em conceder a graça suficiente para vivermos os Seus mandamentos, pareça ser negligenciada ou menosprezada por tanta gente, inclusive por muitos dos católicos. Pedro insistiria: “Eles falam da misericórdia de Deus. A misericórdia de Deus é encontrada na Sua graça, que nos é concedida para vivermos a Lei do Amor. A misericórdia de Deus nunca pode ser procurada nas desculpas inventadas para não se fazer o que o amor exige.”
Ao longo dos últimos quatro anos, Pedro e eu conversamos várias vezes por semana. Centenas e centenas de telefonemas. Eu sei que ele sofre mais quando é atormentado pelas pessoas mais próximas, que insistem para que ele “encare os fatos” e “siga em frente”. Ele perguntou-me muitas vezes: “Porque é que eles se incomodam com o fato de que uso a minha aliança e me comporto como o homem casado que eu sou?”
Eu tenho pensado muito nesta questão. Eu disse ao Pedro que algumas pessoas não gostam de vê-lo usando a aliança de casamento pela mesma razão que não gostam de visitar os doentes nos hospitais. Nos dois casos, elas são forçadas a lembrar-se da sua própria vulnerabilidade. Ao visitar um paciente numa cama de hospital, nós não ficamos inclinados a pensar: “Eu também posso ficar doente e morrer?” Não conseguimos suportar a ideia da nossa própria vulnerabilidade à doença; por isso, evitamos os “lembretes” de que a doença e a morte vêm para todos.
Da mesma forma, o abandono que Pedro sofreu por parte da esposa recorda-nos que todos nós somos vulneráveis ​​à decepção e à traição (e que todos nós somos capazes de decepcionar e trair). A dor de Pedro foi dilacerante nos últimos quatro anos e desejo-lhe o alívio; mas não à custa da sua alma. Pedro concorda comigo. Assim, ele confia-se aos tesouros da graça, que lhe são oferecidos pela Igreja fundada por Cristo. Ele vive a sua custosa fidelidade – diariamente – com a indispensável ajuda da graça de Deus.
E é isto o que assusta as pessoas. As pessoas olham para o abandono de Pedro e para a sua dor e afastam-se, como se afastariam de um paciente acamado para se esquecerem da doença e da morte. Elas olham para a dor do Pedro e pensam: “Podia ser eu”. É claro que essa perspectiva é aterrorizante. Imaginam que, no meio de uma dor tão grande, procurariam o caminho mais rápido para o alívio mais óbvio: “seguir em frente”. Se Pedro se rendesse, essas pessoas provavelmente dariam um suspiro de alívio, porque aquela desistência significaria que é inevitável a busca delas próprias por atalhos para escapar da dor, já que “toda a gente faz isso” e “Deus só quer que nós sejamos felizes”.
Eu suspeito que ao verem Pedro algumas pessoas ficam com medo e com ressentimento – medo porque ele foi traído; ressentimento porque ele se manteve fiel. Qualquer um de nós pode ser traído; sem a graça de Deus, qualquer um de nós pode ser um traidor. Se Pedro, pela graça de Deus, permanece fiel, então não é impossível permanecer fiel à difícil Lei do Amor – difícil sim, mas não impossível. Isto significa que a vontade das pessoas de seguir o caminho mais fácil é uma questão de escolha e não uma questão de acaso. Elas são realmente responsáveis ​​pelas decisões que tomam. E se alguém não consegue confiar na fidelidade de Deus, então é quase impossível que assuma a responsabilidade por essas decisões.
O Pedro, com o sustento da graça de Deus, deveria ser um tema de conversa séria para toda a Igreja, de agora até o final do próximo Sínodo. À luz da lei moral e da Sagrada Revelação, nós temos que dizer ao Pedro se Cristo o considera um fiel idiota, ou, como o próprio Cristo, um fiel amigo, que amou até o fim (Jo 13,1).

 
Pe. Robert McTeigue
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